Qual palavra você usaria para definir Michael Jackson?
Gênio? Louco? Polêmico? Megalomaníaco? Seja lá qual for a que você escolha para responder a minha pergunta, eu aposto que que “normal” não vai ser.
A vida e a carreira de Michael Jackson, para o bem e para o mal, passaram longe da normalidade.
Desde que ele saiu da cidade de Gary, em Indiana, aos 10 anos de idade, Michael trilho um caminho único quando o assunto é fama e carreira. Ele foi filmado, fotografado, seguido, perseguido, escrutinado, discutido dos 10 aos 50 anos por fãs e pela mídia. Essa última, várias vezes ultrapassou os limites do legalmente permitido e do socialmente correto, para ter alguma informação sobre ele
Esse caminho único, definiu a forma como ele via e criava música. Até a mais simples audição de uma música do Michael capta o quão fora da curva ele era. Na moda, cada figurino dele criou tendencia própria.
E eu nem vou falar da dança. Ir ver os vídeos é muito mais produtivo, e gratificante, do que ler, e escrever, sobre.
Portanto, quando eu vi que uma cinebiografia dele estava sendo produzida, minha curiosidade ligou na hora.
Era a chance de conhecer o Michael Joseph Jackson, se é que vocês me entendem. Os produtores, roteirista e diretor tinham a oportunidade de nós apresentar o CPF por trás de um dos CNPJs mais famosos do mundo.
Mas essa curiosidade começou a diminuir quando a lista dos envolvidos na produção foi divulgada, e eu vi que a família inteira estaria envolvida. Isso indicava possibilidades bem complicadas. Por exemplo: o quando a família estava disposta a se expor?
E o que eu vi no cinema, na última sexta-feira, respondeu essa pergunta.
Quando o filme foi anunciado em 2022, eu cogitei muita coisa sobre ele: vai ser um filme só? Quem vai ser o ator principal? Como hit não falta para pôr em tela, quais as músicas serão selecionadas? Como eles vão abordas os problemas da infância, adolescência e da vida adulta?
Mas, de todas as coisas que passaram pela minha cabeça, nenhuma delas foi que seria um filme normal.
Como assim, Bernardo?
Meu maior problema com esse filme é que ele é só mais uma cinebiografia padrão, sem nada criativo, sobre uma das pessoas mais criativas do mundo.
Tá, deixa eu começar a me explicar.
Geralmente, cinebiografias servem como um conto épico.
Começa com a luta cheia de motivação e garra de uma pessoa comum, enfrentando a mundo pelo seu sonho de ser artista. Passa pelo colapso, muitas vezes no auge da fama, envolvendo bebida, drogas, megalomania para disfarçar algum sentimento que o biografado acha que não pode falar, passa por uma reabilitação, em uma clínica ou não, e termina com a sua volta por cima, retomando a fama e a glória depois de se entender e organizar o seu emocional.
Em outras palavras: cinebiografias são uma forma de exaltar, e agradar, um artista.
Todos nós vimos isso em Rocket Man, sobre Elton John, em Elvis, Johnny E June, sobre Johnny e June Cash.
É um esquema pronto. Uma estrutura que cabe em 99% dos casos e, se tudo der certo, gera bons resultados.
Só que, como eu disse antes, Michael Jackson é fora da curva.
O arco dele não começa com a luta dele para chegar ao sucesso. Começa com a história de fracassos de um músico frustrado, violento, de temperamento explosivo, jogando todo o seu desgosto com a vida nos filhos e obrigando eles a serem o que ele não foi.
Michael e os irmão, não formaram os Jackson 5 como outros músicos formaram as suas bandas, o pai viu o talento dos filhos e forçou os limites até não poder mais, e deu a sorte de o filho mais novo ser um talento nato e acabar amando aquele mundo. Apenas esse fato, já faz com que a cinebiografia baseada em Micheal não siga os moldes normais.
Ela deveria lidar com o fato de que o Michael teve a fama imposta a ele. Mas a família estava disposta a permitir que as suas cicatrizes fossem expostas?
O filme prova que não.
Eu nunca quis que os podres de três gerações de artistas fossem expostos num filme, eu queria um aprofundamento no que todo mundo já sabe. Um estudo de personagem de como Michael foi moldado pelo treinamento tóxico do pai, pela convivência cada vez mais relapsa dos irmãos, e principalmente, como foi o papel da mãe e das irmãs nisso tudo.
Isso está em tela, mas de uma forma higienizada e acorrentada. Os problemas são citados, mas nunca desenvolvidos. Os traumas são pontuações momentâneas, como se não tivessem influenciado nenhuma decisão do artista.
O roteirista John Logan e o diretor Antonie Fuqua, não puderam fazer o que eles queriam. Eles, nitidamente, estavam à mercê da família e do produtor Graham King.
E esse produtor explica o meu título.
Ele foi escolhido por ser portador de quatro Oscars vencidos por Bohemian Rhapsody, o Filme do Queen. Bohemian foi alvo de críticas positivas pelo seu dinamismo e negativas por sobre como retratou as figuras em tela.
E em Michael, isso tudo acontece de novo.
Quando se trata do lado profissional, Michael é um filme forte, vibrante, com cenas de espetáculos e apresentações capazes de fazer qualquer um cantar e dançar. Tudo sobre a anergia das músicas está em tela, e muitas delas anabolizadas. Nós estamos dentro palco, no meio dos Jackson 5 e do lado de Michael, na sua carreira solo. Somos parte da ação, parte da equipe e da banda.
Quando a cena nos coloca na plateia, é na primeira fila, onde nós nos tornamos testemunhas de um show vulcânico.
O filme acerta em ser um recorte. Nós vemos a vida de Michael de 1968 até 1988, onde as polemicas ainda não tinha tomado conta da sua carreira e aonde os maiores sucessos do artista estão.
A força da natureza que Michael era quando estava no seu lugar favorito, em seu território, onde ele mandava na própria vida, o palco, foi retratada com perfeição. Jaafar Jackson, sobrinho de Michael, encarnou o tio com maestria
Em seu primeiro trabalho, Jaafar conquistou o mundo logo de cara. Ele não imita o tio, ele interpreta o Michael. Cada gesto, movimento e característica do artista são passadas em tela. O garoto aprendeu ser o personagem, não a imita-lo. Reparem no que ele faz com o queixo e com o pescoço. Ele absorveu as características e deu a sua interpretação a elas. O pouco que vemos da intimidade do artista, é graças ao ator.
O lado doce, preocupado e atencioso de Michael com as pessoas, é posto em tela com delicadeza e competência por Jaafar Jackson.
Eu quero assistir mais trabalhos desse carinha.
A fórmula usada no filme do Queen, favorece Michael. Como a ideia é falar dele, o filme não se divide tanto, tendo que abordar mais personagem.
Quando estamos num ambiente externo, tudo é grande, forte, impactante.
Como o artista era.
Mas as questões começam a surgir quando vamos a casa da família, para o estúdio e para o interior da cabeça do biografado.
Todos nós sabemos como foi a infância e adolescência do Michael. Ele era psicologicamente e fisicamente agredido pelo pai. Os irmãos o tratavam como um fardo e a mãe e as irmãs sempre pareceram ser coadjuvantes em tudo o que envolvia o destino da família.
O teto de vidro é tão fino que a família colocou uma coleira tão forte na equipe, que nós vimos muito pouco do lado humano de seu protagonista. O filme não aborda a adolescência de Michael. Será que não tinha nada de interessante para se contar, ou os irmãos quiseram ignorar o fato de queles trancavam o irmão mais novo no armário para levar fãs para o quarto de hotel?
O filme ignora completamente a existência de Diana Ross.
A cantora foi escolhida por Barry Gordy, dono da gravadora Motown, para ser a madrinha dos Jackson 5. Ela foi amiga íntima de Michael até o fim da vida dele. Será que ela não tinha nada para acrescentar na narrativa, ou a mãe não queria o risco da artista ser relatada como figura materna e principal confidente do artista?
Michael protagonizou momentos que mudaram o entretenimento para sempre. E nós passamos praticamente batidos por eles. A gravação do disco Thriller é resumida a duas cenas.
Para Michael não existia vídeo clipe, existia mine filme musical. Mas por quê? Como ele desenvolveu esse conceito? Como ele pensava o seu ofício? Como ela arquitetava as suas músicas? O que influenciava o seu visual? Para responder essas perguntas, nós teríamos que entrar em terreno perigoso? Por isso era melhor passar correndo?
O filme tem diálogo após diálogo falando como Michael Jackson é genial, um artista único que, provavelmente, não terá alguém a altura. Mas isso eu já sei, eu queria ver essa genialidade em tela. Em movimento, em cena.
O medo de entrar na cabeça do sujeito é tão grande que vemos lampejos de sua solidão e dos eventos sombrios que o levariam ao vício em analgésicos : ele fala mais com os animais de seu zoológico particular do que com a família, a luva esconde com vergonha o vitiligo, ele faz primeira cirurgia plástica para se livrar da imagem de garoto feio, ele carrega um livro do Peter Pan o tempo todo, para fugir da sua realidade e o perfeccionismos desenvolvido pelos abusos do pai (o roteiro transforma um protótipo de psicopata em sujeito de temperamento meio complicado, que uma ou duas sessões de terapia resolvem o problema) fazem com que ele queime a cabeça por querer um take perfeito de dança.
Mas tudo isso é tratado de forma superficial. Sem aprofundar em nada. Cada um desses momentos parece pequenas virgulas, e não parte do texto.
A interferência dos parentes é tamanha, que as únicas músicas que escutamos inteiras, sem cortes ou intervenções, são da fase Jackson 5.
Micheal é uma oportunidade não aproveitada por completo. Ele honra o CNPJ em todos os momentos, mas por medo, deixa a pessoa Michael Joseph Jackson nas sombras.
Eu sei, eu sei. Lá venho eu pegar pesado com um filme de novo. Mas Michael merecia um filme que equivalesse ao tamanho da sua personalidade artística: monumental. Eu não troco a experiencia de ver esse filme no cinema. Só queria ter visto mais.
Mas por sorte, a sequência foi confirmada. Tomara que corrijam essas questões e que ela seja melhor que a primeira parte.







