A previsão de retorno do El Niño no segundo semestre de 2026 renova as preocupações sobre a segurança energética brasileira.
Responsável por mais de 60% da eletricidade gerada no país, a matriz hidrelétrica depende diretamente do regime de chuvas, tornando o sistema vulnerável a fenômenos climáticos extremos.
Modelos climáticos elaborados pelo Instituto Internacional de Pesquisa para Clima e Sociedade (IRI), da Universidade de Columbia (EUA), e pela NOAA, agência norte-americana de monitoramento oceânico e atmosférico, indicam alta probabilidade de formação de um El Niño de forte intensidade ainda neste ano.
A expectativa é de que seus efeitos sejam mais intensos durante a primavera e o verão, período fundamental para a recuperação dos reservatórios no Brasil.
Para o especialista em infraestrutura hidrelétrica Sérgio Fagundes, CEO e fundador da Insight Energy, empresa de Londrina (PR) especializada na manutenção e fabricação de equipamentos para usinas, o risco vai além da redução ou aumento das chuvas.
“O setor hidrelétrico brasileiro vive hoje uma equação de risco que não se restringe à operação das usinas. Quando o El Niño chega com força, o efeito começa antes mesmo das chuvas falharem: ele aparece na manutenção preventiva que não foi feita e nos equipamentos que operam no limite”, afirma.
Lições do último El Niño
O episódio de 2023/2024 trouxe desafios importantes para o setor elétrico. Nas regiões Sudeste e Centro-Oeste, responsáveis pela maior parte dos reservatórios do país, as condições mais quentes e secas elevaram o risco hidrológico e exigiram monitoramento constante por parte do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS).
Com menos água disponível, mas recordes no consumo, devido ao uso intensivo de aparelhos de climatização, houve maior acionamento das usinas termelétricas. Isso acabou elevando os custos de geração.
“No ciclo anterior, vimos usinas sendo forçadas a operar em condições que exigiam mais dos equipamentos, justamente quando os reservatórios estavam baixos e não havia margem para paradas não programadas. É uma sobrecarga dupla: o recurso hídrico cai e a exigência sobre a infraestrutura sobe”, observa Fagundes.
Consequências regionais e reflexos na conta de luz
Os efeitos do El Niño não ocorrem de forma uniforme no Brasil. Enquanto o Sul costuma registrar chuvas acima da média, regiões como Norte, Nordeste, Sudeste e Centro-Oeste podem enfrentar períodos de estiagem ou redução das precipitações, afetando diretamente as principais bacias que sustentam o sistema elétrico nacional.
Essa situação aumenta a necessidade de geração termelétrica, que possui custo mais elevado e pode pressionar as tarifas de energia. “O custo de um evento climático crítico não está apenas na energia que deixa de ser gerada. Ele também aparece nos equipamentos que falham sob pressão acima do normal, o que pode gerar indisponibilidade no momento mais crítico”, alerta Fagundes.
Ele acrescenta ainda que o planejamento para eventos climáticos extremos precisa começar meses antes de seus efeitos serem sentidos.
“Não dá mais para trabalhar em ciclos reativos. A preparação para o El Niño começa nas inspeções, nas peças sobressalentes e nos planos de contingência, sem esperar quando o reservatório já está baixo”, afirma Fagundes.
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