A sinalização do Hamas de que estaria disposto a abrir mão do controle administrativo da Faixa de Gaza foi recebida com cautela por Israel.
Para o Major Rafael Rozenszajn, porta-voz da reserva das Forças de Defesa de Israel (FDI) para países de língua portuguesa, a proposta não representa, necessariamente, um avanço rumo à estabilidade na região, já que o grupo não manifestou intenção de abandonar seu arsenal militar.
Segundo o major da reserva, o ponto central das negociações não deve ser apenas quem administra o território, mas quem detém o monopólio da força.
“À primeira vista, a notícia parece positiva. No entanto, existe um detalhe que muda completamente a análise: o Hamas fala em deixar o governo de Gaza, mas não fala em entregar as armas. E isso faz toda a diferença”, afirma Rozenszajn.
Na avaliação dele, o movimento pode indicar uma estratégia semelhante à adotada pelo Hezbollah no Líbano, onde uma autoridade civil divide espaço com um grupo fortemente armado que mantém autonomia militar e influência política.
Modelo semelhante ao Hezbollah
Para Rozenszajn, a proposta permitiria ao Hamas transferir a responsabilidade pela administração da Faixa de Gaza sem abrir mão do controle estratégico do território.
“O Hamas parece querer reproduzir em Gaza o modelo do Hezbollah no Líbano: deixa que outro governo administre escolas, hospitais, infraestrutura e a reconstrução, enquanto mantém o controle das armas e continua sendo a principal força militar da região”, explica.
Segundo ele, esse cenário dificultaria qualquer processo consistente de reconstrução e estabilização do enclave palestino.
“Quem acaba pagando essa conta é a própria população de Gaza. Enquanto existir uma organização terrorista armada acima das instituições civis, qualquer governo enfrentará enormes dificuldades para atrair investimentos, garantir segurança e promover desenvolvimento econômico”, diz.
Desarmamento é condição para estabilidade
Rozenszajn defende que a discussão sobre o futuro de Gaza deve ir além da substituição da administração política e concentrar-se na eliminação da estrutura militar do Hamas.
“Se a intenção fosse realmente mudar o rumo de Gaza, o debate principal não seria apenas quem governa o território, mas como garantir que nenhuma organização armada permaneça acima das instituições civis. Sem o desarmamento do Hamas, qualquer mudança administrativa corre o risco de ser apenas uma troca de fachada, preservando exatamente a estrutura que perpetua o conflito”, conclui Rozenszajn.
Foto: Omar Al-Qattaa / AFP




