Como vocês podem imaginar, eu sou maluco por cinema. Nossa, jura né? Um sujeito que escreve seis páginas sobre Michael Jackson e Duro de Matar gosta de cinema? Ninguém notou.
Mas acreditem, nem sempre foi assim.
Pelos meus primeiros 12 anos, filmes eram um som de fundo para alguma outra coisa que eu estava fazendo: brincar com bonecos no tapete da sala, pular de um sofá para o outro, correr a casa toda com uma espada de madeira na mão, ou roubar as facas da cozinha para brincar girando-as na minha mão. Não façam isso crianças!
Mas, para o bem dos meus dedos e cobertas no varal, o destino age de formas misteriosas.
Um belo dia, perto do Natal de 2001, apareceu um comercial na TV que chamou a minha atenção por conta de uma cena: um cara caído no chão, com um anel em pleno ar, caindo perfeitamente no dedo dele e fazendo esse cara desaparecer.
Eu não fazia ideia de que eu estava vendo o trailer editado para TV do filme que ia mudar a minha vida.
Levou alguns dias para eu descobrir o nome do filme.
Devemos lembrar aos que estão lendo isso, que eu estou falando da entidade mística conhecida como TV aberta.
Para os muito novos que estão prestigiando este texto, nas décadas de 1990, 2000, 2010 e décadas bem anteriores a essas, nós não escolhíamos a nossa programação em um número infinito de streamings. Nós ligávamos o aparelho de televisão, em um dos 10 canais de TV aberta existentes em 2001, TV a cabo era uma coisa nova e bem cara na época, e assistíamos o que estava passando, fosse o que fosse.
E existia uma coisa chamada guia de TV. Nós líamos essa sessão no jornal para saber em que horário passaria alguma coisa legal.
Nesse contexto jurássico de como se consumia filmes, música, telejornais e demais programas, eu tinha que ter sorte e pegar o comercial inteiro para saber que filme era aquele.
Um belo dia eu consegui e finalmente descobri que eu estava vendo o comercial de O Senhor dos Anéis: A Sociedade do Anel. Recém-lançado nos cinemas.
Isso era um problema em 2001. Eu tinha 12 anos e não poderia ir ao cinema sozinho. Mas o destino, mais uma vez, fez o seu trabalho e decidiu me ajudar.
Já estávamos em algum ponto de 2002 quando a minha irmã mais velha trouxe para casa um filme para a gente ver. E lá estava ele: O Senhor dos Anéis: A Sociedade do Anel em toda a sua glória, em duas fitas VHS que mais parecia um tijolo de concreto.
Mas é aqui que a história fica boa: ela pegou essa fita na escola onde ela tinha aulas de inglês. Qual a minha surpresa quando eu descubro que o filme estava com o áudio e as legendas em inglês ? A escola fornecia esses VHSs como uma forma divertida dos alunos treinarem e aprenderem o vocabulário.
Só que eu não era um desses alunos. Bom, não naquele momento.
E lá estava eu, sem ter uma aula de inglês na minha longa vida de 12 anos, de frente para o filme que tinha chamado a minha atenção, com o cenário estabelecido de que eu não ia entender uma palavra sequer do que seria dito pelo elenco.
Só que isso acabou sendo formidável, porque eu aprendi uma lição poderosíssima naquele dia: tem certas obras tão grandiosas que você só precisa sentir.
E foi o que eu senti naquele dia, que mudou tudo e foi logo nos primeiros minutos.
A cena de abertura derreteu o meu cérebro!
O prólogo sussurrado por Galadriel, como se eu estivesse sendo testemunha de um segredo capital. O corte para o vulcão onde uma criatura imponente e terrível, capaz de gelar o sangue, forjava uma arma mágica para dominar o mundo, a guerra brutal para derrotar Sauron. Cada segundo era absurdamente épico e eu nem devia saber que essa palavra existia.
Quando Frodo apareceu lendo no jardim mais bonito que eu tinha visto na vida, eu estava completamente rendido. Pela primeira vez, eu estava deitado no meu colchão na sala de estar, assistindo um filme e meus bonecos estavam de lado.
Eu nem piscava, na verdade.
Eu lembro nitidamente de cada sensação que eu senti assistindo o filme pela primeira vez: o deslumbre que a festa de aniversário do Bilbo causou, como eu fiquei imediatamente sério com a gravidade no rosto do Gandalf ao descobrir a presença do Um Anel, a gargalhada que eu soltei quando os quatro baixinhos despencaram barranco abaixo, o terror de ver um Nazgûl pela primeira vez.
Tudo era elevado à enésima potência. O ineditismo da juventude fez tudo ser maior. Eu não sabia que estava vendo o filme que tinha redefinido o gênero de fantasia poucos meses antes, tudo o que eu sabia era que eu estava amando aquilo.
A Sociedade do Anel foi o primeiro filme que eu assisti para valer. Quieto, em silêncio, absorvendo cada segundo. Ainda bem que eu fiz isso, porque momentos como o do Frodo sendo esfaqueado no Topo do Vento não significariam nada se eu não estivesse absolutamente investido.
Era uma cena mais potente que a outra.
A perseguição a cavalo, onde Arwen brilha, literalmente, fez a adrenalina grudar no talo! Mas de todas as sequências brilhantes desse filme, teve uma que quase me fez beirar o ataque cardíaco: depois de sobreviver a uma avalanche causado por uma das vozes mais potentes do cinema (Christopher Lee merece um texto só dele), nós entramos em Minas Moria e conhecemos os seus segredos.
Eu não precisei entender o idioma para saber que o Pippin tinha aprontado uma das bem graves, e que a situação tinha ido de mal a pior. Mesmo assim, eu perguntei para minha irmã qual era o plano do grupo. A resposta foi: “Eles têm que chegar numa ponte, mas olha o que é o caminho!”
Eu morri de medo das escadarias que levavam até a ponte de Khazad-dûm. Eu tive uma sensação real de vertigem por ver Os Nove correndo por uma escada sem corrimão que dava para um abismo.
NÃO TINHA CHÃO! POR QUE ESSA GENTE ESTÁ CORRENDO NUMA ESCADARIA QUE NÃO TEM CHÃO EMBAIXO?
A resposta para a minha pergunta infantil veio na forma de uma criatura colossal, feita de fogo e fumaça. Meu medo de altura não seguraria, eu me atiraria escada abaixo se o Balrog estivesse atrás de mim.
O som da espada de fogo arrebentando e da chicotada do monstro esfriaram os meus ossos. Até hoje eu grito “YOU SHALL NOT PASS” (duvido você ler isso e não escutar a voz do Ian Mckellen na sua cabeça) junto do Gandalf, mas a primeira vez que eu vi essa cena eu chorei. Eu literalmente chorei de apreensão. “Por que ele não corre?” Eu não tinha idade para entender a representação de um ato de coragem como aquele. E muito menos para entender as metáforas que uma boa fantasia expressa.
Levaria mais dois anos para eu ler os livros, e ter a noção completa do que o Tolkien queria expressar. De como aquela história era sobre como a humanidade lida com momentos de aflição e medo.
A única coisa que eu pude fazer foi me recuperar o mais rápido, porque a Rainha da Floresta estava nos esperando.
A parte das terras élficas, reino de Galadriel, devia ser um respiro, mas eu fiquei sem ar com aquele cenário.
Eu não sabia, mas estávamos entrando na reta final do filme. O que foi bom, porque, verdade seja dita, eu não sabia o quanto mais a minha cabeça de 12 anos iria suportar. Aquilo não era um filme da Disney com uma moral bacana para crianças, ou um desenho do Sábado Animado destinado ao puro entretenimento.
Era outra coisa. O nível tinha sido elevado.
Por sorte, estávamos vendo o Argonath e a minha atenção foi distraída pela imponência das estátuas do Portão dos Reis. Mas a alegria durou pouco, porque outro conceito pesado demais para um garoto de 12 anos me foi apresentado: Por que o Aragorn está indo lutar contra cem inimigos sozinho?
Primeiro, um cara despenca de um precipício agarrado num monstro do tamanho de um prédio, agora, o outro cara marcha contra uma tropa saída dos porões de Isengard.
Eu pensei nesses momentos por dias. Demorou semanas para eu, finalmente, ter uma noção do que estava acontecendo. Tolkien nunca gostou de alegorias. Ele achava que a obra deveria ser do leitor e não um mecanismo intelectual do autor para refletir situações do mundo real. Tolkien queria que seus mitos falassem de forma universal com os leitores.
Essa intenção funcionou muito bem, porque eu descobri na prática que tinha uma continuação. Depois de ver o funeral de Boromir, a Sociedade se divide e eu perguntei “cadê o final?” A resposta me deixou maluco: “tem mais dois filmes”.
É sério isso!? Eu vou ter que esperar mais dois anos e mais dois filmes de três horas cada para saber o final. Bom, sim. Eu ia ter que.
Mas algo tinha mudado. O impacto daquele “filme do comercial legal” era impossível de ignorar, muito menos fingir que a minha forma de encarar filmes não havia mudado.
A partir daquele momento, assistir um filme seria coisa séria. Eu prestaria atenção em tudo. Em cada detalhe.
Senhor dos Anéis: A Sociedade do Anel é um filme tão significativo na minha vida, que Senhor dos Anéis: As Duas Torres foi o primeiro filme que eu vi no cinema e eu não parei de encher o saco da minha mãe até ela fazer uma carteirinha numa locadora para eu assistir o Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei, onde o significado de “épico”, aquela palavra descoberta dois anos antes, foi atualizado.
Mas o agridoce final da trilogia não foi o fim da minha relação com ela. Um dos meus melhores momentos como fã de cinema foi na CCXP 2025 em São Paulo, onde eu consegui um autógrafo do ator Dominic Monaghan (o intérprete do Marry) no meu mapa do Condado, um dos milhares de item de merchandising que eu tenho do filme (o mais legal, é uma réplica em tamanho real da espada Andúril que eu ganhei de Natal da Gianna) e tirar uma foto com ele.
Mas, acho que devemos ir para o final. Esse texto já está fazendo jus ao seu filme homenageado.
Este ano, esse carinha aí, está completando 25 anos.
Mais da metade da minha vida tem ele como companheiro e filme favorito da trilogia. De 2002 até hoje, somando todas as vezes que eu assisti todos os três filmes, são 87 visualizações. Isso dá 751 horas e seis minutos. O que equivale a 31 dias e sete horas.
Eu sei, é coisa de doido, sem a menor sombra de dúvida. E eu nem vou tentar me defender.
Eu tive a ideia de fazer esse cálculo enquanto escrevia este texto, e isso me fez descobrir uma coisa: eu não me arrependo de nada.
A ideia sempre foi morrer assistindo esses filmes mesmo.




