O discurso do brasileiro sobre a mulher no futebol já mudou, mas na prática, ainda não. Seria o mundial feminino de 2027 a prova real que está por vir?
A plataforma “Red é de Sangue”, iniciativa educacional anti-misoginia, com apoio da HeForShe (movimento global da ONU Mulheres) e do Sindilegis, divulga dados levantados pela Hibou Pesquisas e Insights, com 1.120 brasileiros, sobre o que o país realmente pensa e faz em relação à mulher no futebol.
O retrato é de um Brasil que já rejeita o preconceito explícito, mas ainda não transformou esse discurso em presença: só 24% dos brasileiros acompanham o futebol feminino, regularmente ou de vez em quando e apenas 2% o fazem com regularidade.
O discurso já venceu o “futebol é coisa de homem”
86% dos brasileiros discordam que “futebol é coisa de homem”, e 91% discordam que o lugar da mulher no esporte seja apenas na torcida. 85% consideram totalmente inaceitável que um jogador questione uma árbitra com o argumento de que “futebol é jogo pra homem”. Ou seja, no papel, o Brasil superou o bordão.
Mas o recorte por gênero expõe a distância entre o discurso e a prática: entre os homens, a rejeição ao “futebol é coisa de homem” cai para 65%, e a aceitação de questionar uma árbitra em campo sobe apenas 77% dos homens (contra 85% do geral) consideram esse tipo de ofensa inaceitável.
Mulher que arbitra, comenta ou torce, sofre mais
90% dos brasileiros concordam que árbitras mulheres sofrem mais pressão e desrespeito do que árbitros homens.
Entre os homens, esse reconhecimento cai para 70%. 79% concordam que os homens tendem a questionar mais o conhecimento de futebol das mulheres do que o de outros homens, e 58% concordam que as mulheres precisam “provar” que entendem de futebol para serem levadas a sério como torcedoras.
Mesmo com 56% dos brasileiros concordando que mulheres entendem de futebol tanto quanto homens, 14% ainda admitem confiar mais em um comentário esportivo feito por um homem – número que sobe para 25% entre os homens.
E 70% concordam que narradoras esportivas incomodam parte do público por machismo, ainda que apenas 15% concordem, de forma direta, que “mulher entende menos de futebol”.
O gol que ninguém vê: a violência que já não surpreende
O dado mais duro da pesquisa não é sobre o campo, e sim sobre o que acontece ao redor dele: 79% dos brasileiros já sabiam ou não se surpreenderam ao saber que estudos apontam aumento da violência contra a mulher em dias de jogos. Apenas 19% disseram que o dado os surpreendeu.
Entre as razões que os brasileiros consideram mais plausíveis para esse aumento, o consumo excessivo de álcool lidera com 71%, seguido pela falta de educação e respeito independente do futebol (57%) e pela misoginia estrutural que encontra no futebol um gatilho (53% no geral: mas apenas 26% entre os homens, um dos maiores hiatos de percepção entre os dois grupos de toda a pesquisa).
Da consciência à ação: o próximo mundial já começou
“Os números mostram um Brasil que sabe o discurso certo, mas ainda hesita em sustentá-lo quando ninguém está checando a resposta. A boa notícia é que a consciência existe e consciência é o primeiro passo antes da mudança de comportamento”, diz Ligia Mello, CSO da Hibou Pesquisas e Insights.
“Estamos a um ano do mundial feminino, após uma campanha muito ruim da seleção brasileira masculina. As esperanças por uma campanha melhor das mulheres pode colaborar com algo muito maior. Essa pesquisa mostra exatamente onde está o desafio: não é convencer o Brasil de que o machismo existe, e sim convencer os brasileiros a agirem diferente” , diz Ana Beatriz Schauff, CEO da Fresh PR e idealizadora da iniciativa “Red é de Sangue”.
Sobre a pesquisa
Realizada pela Hibou Pesquisas e Insights com exclusividade para a plataforma “Red é de Sangue”, em painel digital com 1.120 respondentes maiores de 18 anos, de todas as classes sociais e regiões do Brasil, entre 10 e 16 de junho de 2026. Margem de erro de 2,9%.
A pesquisa completa pode ser acessada neste link.
Foto: Divulgação




