Um novo retrato da saúde mental de crianças, adolescentes e jovens brasileiros chama a atenção para um problema que muitas vezes é tratado como preocupação exclusiva da adolescência ou da vida adulta.
Segundo análise baseada no Estudo Global de Carga de Doenças (Global Burden of Disease – GBD 2023), a ansiedade é a principal causa de incapacidade entre brasileiros de 5 a 9 anos e permanece entre as condições que mais comprometem a saúde ao longo da juventude.
O estudo, publicado no The Lancet Regional Health – Americas, estima que mais de 15 milhões de brasileiros entre 5 e 29 anos — cerca de 20,91% dessa população — convivam com algum transtorno mental.
Entre as crianças de 5 a 9 anos, mais de 10% apresentam algum transtorno mental, percentual que aumenta progressivamente nas faixas etárias seguintes.
Para a psiquiatra Danielle Admoni, especialista pela ABP (Associação Brasileira de Psiquiatria) e supervisora na residência de psiquiatria da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp/EPM), os números reforçam a necessidade de reconhecer precocemente mudanças no comportamento infantil, sem transformar manifestações próprias da infância em diagnóstico, mas também sem minimizar sinais persistentes.
“A criança nem sempre consegue comunicar que está ansiosa. Muitas vezes, o sofrimento aparece como irritabilidade, dificuldade para dormir, queixas físicas, recusa em ir à escola ou queda no rendimento. Por isso, é importante observar mudanças persistentes no comportamento e entender o contexto em que elas acontecem”, diz.
A especialista explica que sentir medo, preocupação ou ansiedade faz parte do desenvolvimento. O alerta está na intensidade, na frequência e no impacto dessas manifestações na vida da criança.
“A ansiedade passa a ser preocupante quando deixa de ser uma reação pontual e começa a limitar a vida da criança. Se ela deixa de brincar, evita situações comuns da idade, tem sofrimento intenso diante da escola, apresenta sintomas físicos frequentes ou não consegue realizar atividades cotidianas por causa do medo, é importante investigar”, afirma.
Nem toda ansiedade infantil é transtorno
Um dos desafios é diferenciar as emoções esperadas em cada fase do desenvolvimento de um quadro que exige atenção profissional.
É natural que uma criança tenha medo do escuro, fique ansiosa antes de uma prova ou sofra com uma mudança de rotina.
Mas, quando esse medo ou preocupação é desproporcional, persistente e começa a interferir na escola, no sono, nas relações ou nas atividades que antes eram prazerosas, aí esse comportamento se torna motivo de atenção.
A pesquisa também mostra que a saúde mental ganha ainda mais peso durante a adolescência.
Segundo os dados analisados, os transtornos de ansiedade e depressão estão entre as principais causas de incapacidade a partir dessa fase, com impacto maior entre as meninas.
O estudo estima ainda 5.402 mortes anuais por suicídio entre brasileiros de 10 a 29 anos, sendo 77% entre homens.
A criança não precisa necessariamente falar ‘estou com ansiedade’ para que o adulto perceba que alguma coisa não está bem. O comportamento também é uma forma de comunicação.
O mais importante é acolher, conversar sem julgamento e procurar entender o que está acontecendo, em vez de simplesmente cobrar que ela volte a se comportar como antes.
O estudo publicado no The Lancet Regional Health – Americas utilizou dados do GBD 2023 e analisou transtornos mentais e relacionados ao uso de substâncias entre brasileiros de 5 a 29 anos, com detalhamento por faixas etárias de cinco anos.
Os pesquisadores defendem políticas públicas específicas para diferentes fases do desenvolvimento e maior integração da saúde mental aos cuidados oferecidos a crianças, adolescentes e jovens.
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