A difícil arte de ser cuidado
Eu quebrei o pé. Todos os ossos, incluindo o tornozelo, menos os dos dedos – nossa, que vantagem, pensou a Polianna Irônica.
“Uma grande bagunça”, como disse o médico simpático da emergência lotada. “É, quebrou” disse o ortopedista indiferente do hospital da praia, e “Um strike”, acrescentou e refinou o cirurgião ortopedista da cidade.
Correria, gritedo e confusão. Fim das férias pra todo mundo. Estado de choque com o acidente doméstico que quase vira tragédia, mas felizmente não foi, pensou a Polianna Tóxica. E lá estava euzinha, com a dor aplacada por remédios que ajudam a manter o bom humor, mas apenas enquanto fazem efeito.
Travesseiros, almofadas, elevador de pé inflável, cobertores, lençóis e afofadores por todos os lados, transformando a cama em que ficarei deitada eternamente por 45 dias em um berço esplêndido. E viva o hino nacional da Polianna Resignada.
Improviso no carro que virou ambulância, na cama que virou leito hospitalar, cadeira de praia que virou banhador embaixo do chuveiro onde dou risadas amarelas sobre trocar as águas da praia pelo ar puro da serra – putaquepariu, sai fora da minha mente Polianna Standup, essa porra não vai ser nem rápida nem fácil, e daí que poderia ser pior??
Total de 90 dias pra recuperação completa, entre haspas, segundo o médico que escolhi e persisti pra me operar.
No primeiro encontro antes da cirurgia, os olhares deles se cruzaram, numa fração de segundos que pareciam horas aos meus olhos, cheios de lágrimas de dor com a infeliz e pontuda tala no pé triturado. De um lado, o médico salvador dos tornozelos rompidos, torcedor fanático e médico oficial de um dos times da cidade, arqui-inimigo-rival do time do meu marido, que por sua vez, também é torcedor fanático e criador do mascote do outro time da cidade. Aqueles segundos de troca de olhar entre eles fez meu pé chacoalhar, minha espinha arrepiar e soltar um “Ahh, que bom, então vocês já se conhecem”. De fazer até a Polianna corar de vergonha.
Providências emergenciais, cirurgia, muuuuita dor, mensagens, pedidos (negados) de visitas, e depois menos dor com comprimidos e outros apaziguadores na veia. Ahhh, agora vai melhorar. Vem nimim Polianna Opióidica.
Alta hospitalar, não sem antes descobrir que os dois rivais futebolísticos conversaram animadamente e o marido voltou que era só elogios ao dotore.
Casa, finalmente. Livros, séries, filmes, música, fones, revistas (há quanto tempo não pegava numa delas), internet, whatsapp, vídeos bobos ou de gatinho e 8.361 mensagens pra ler sem conseguir focar em nada. Obrigada Polianna da Procrastinação com atestado, finalmente deu uma dentro.
Mas quando tudo parecia lindo e bem arranjado para uma recuperação tranquila, eis que me vejo amarrada a uma cama, sem direito a habeas corpus e usando uma tornozeleira de gesso gigante, que vai da ponta do pé ao joelho. Ditadura da Medicina!
Não bastando, eu, que não consigo parar quieta e hospedeira de um bicho carpinteiro nos glúteos, como diagnosticou minha vó logo na minha primeira infância, agora tenho que, vejam só, pedir tudo para alguém. Água, comida, comprar remédios, ajudar a colocar e tirar do chuveiro, lavar-estender-recolher roupas _ menos dobrar, isso consigo fazer deitadinha. Socorro Polianna Independente, como desaprender, mesmo que temporariamente, que podemos e devemos ter ajuda? Meu marido se puxando, queridíssimamente, pra fazer tudo, e eu fugindo _ e quase caindo_ pra ir sozinha, altiva e independente, ao banheiro!
Mas a gota d’água foram as uvas. Elas me deram um choque de realidade, como diria Lasier Martins. Eu amo uvas, e meu marido as odeia com a mesma intensidade. Dizem que pode ser trauma de infância ou por preferir a fruta em seu estado líquido e alcoólico. Não sei, o fato é que durante muito tempo eu comia uva escondida, porque se ele sentisse o cheiro ou visse um cacho, era um gritedo pior do que quando ele vê uma aranha. Se eu fosse casada com alguém que levou um choque num cacho de uva na Festa da Uva eu entenderia o trauma, mas meu marido é, na verdade, um puta de um uvafóbico.
Pois bem, eu queria comer uvas e, muito contrariado, ele trouxe cachinhos aparentemente lindos numa embalagem de isopor com um plástico espremendo as coitadas. Mas vocês já viram pessoas que não cozinham escolhendo verduras e frutas? Pois é, vem meio xepa, meio podre. Assim eram meus cachinhos, lindos quando embalados, podres depois de empratados.
E foi ali que o bom humor que mantive por 15 dias, mesmo com dor, incômodo, trauma, susto e tristeza, foram pro espaço. Não aguentei a pressão das uvas displicentes. Ele não aguentou o fato de ter que engolir metaforicamente as uvas. Quem diria, Polianna, que nossa primeira fusca diante de tudo que passamos, seria por causa de cachos de uva?
Cheguei à conclusão que meu problema nessa vindima ortopédica é a falta de dependência. Não, eu vou continuar sendo independente como sempre fui, talvez me prepare ainda mais para casos extremos como esse, mas a verdade é que precisamos da ajuda, e por que não, de outras pessoas. Meu pé quebrado tá doendo menos do que minha vontade de sair fazendo as coisas do meu jeito, na minha hora e no meu ritmo.
Mas os acontecidos trouxeram Breaking News Anna: Viver requer colaboração! Não só se dar, mas também aprender a receber. E no final, as Poliannas nos ensinam alguma coisa, mesmo que seja algo que a gente não quer ser, mas como estudou em colégio de freiras, foi obrigada a ler.







