Post: Bruce Willis: O herói improvável

Qualquer um que tenha assistido dois, ou mais, filmes de ação dos anos 1980 notou um padão: um Herói de Ação bombado, invencível, não importando quantos inimigos ele enfrentasse, segurando uma metralhadora ridiculamente gigantesca, lutando contra um exército histericamente grandioso para salvar uma donzela em perigo. Ou uma cidade inteira, enquanto protege uma donzela em perigo. Ou uma nação em apuros (essa palavra é muito Sessão da Tarde!) enquanto paquera uma donzela em perigo.

Sim, em noventa por cento dos filmes da década em questão, tinha uma personagem feminina precisando ser salva no final, para formar um par romântico, normalmente sem explicação lógica no roteiro, com o protagonista bombado. Podemos citar o filme Comando para Matar como exemplo máximo dessa fórmula.

 

E falando em Comando para Matar, esse padrão, sem muita complexidade narrativa, pode ser resumido em dois nomes: Sylvester Stallone e Arnold Schwarzenegger. Esses dois senhores dominaram a década de 1980 com uma competição particular de quem fazia o filme de ação mais absurdo.

Em uma entrevista concedida ao apresentador Jimmy Kimmel, Arnold relatou como essa competição descabida era travada: cada um tinha que fazer um filme mais extravagante que o outro. Quem tinha a maior arma, quem causa mais mortes em tela, quem matava os inimigos de forma mais criativa. A animosidade cinematográfica dos dois transformou o cinema de ação num palco sangrento e irracional.

Claro, tudo dentro de uma classificação indicativa que permitisse o maior público passível.

Mas esse disparate todo causou o efeito óbvio.

No fim da década de 1980, para ser mais exato, no ano de 1988, o público estava saturado desse padrão. O que começou com dois atores brigando, quase que literalmente, por audiência e bilheteria, tinha se tornado um amontoado de filmes esquecíveis, protagonizado por um personagem mais genérico e imortal que o outro, interpretado por uma gama de atores que voltaram para o anonimato tão rápido quanto saíram.

A crise que estava se instaurando no cinema de ação era tão grande, que começou a afetar o lado político e social da população americana: o lado conservador começou a boicotar o nível de violência, cada vez mais ilógico, e a parcela liberal estava cansada de ver o militar herói, sobrevivente do Vietnã resolvendo problemas em países fictícios ao redor do mundo.

Os roteiros estavam tão irreais, que o público estava sedento por realidade. Ou melhor: o máximo de realidade que cinema poderia dar.

Em outras palavras: o cinema de ação estava precisando de um herói para salvá-lo.

O sopro de ar fresco veio do Fox Studio e de algo até óbvio, mas, que na ocasião, foi muito bem-vindo: que tal fazer um filme sobre um homem comum?

Estranho de se pensar, né? Bom, na época foi. Devemos lembrar que os anos 80 foram marcados pelo exagero estético, visual, musical. Parecia loucura fazer um filme sobre um policial comum, usando regata e calça jeans e que só estava no lugar errado e na hora errada.

Por sorte, o diretor John McTiernan e os roteiristas Steven E. de Souza e Jeb Stuart não acharam tão loucura assim adaptar o livro Nada Dura para Sempre, de Roderick Thorp para as telonas.

Esse livro não foi escolhido à toa: ele é a continuação do livro O Detetive, adaptado para o cinema em 1968. Essa adaptação contou com Frank Sinatra no papel principal.

A ideia dos produtores era facilitar a venda do projeto para um estúdio grande, já que o filme de 1968 fora um sucesso.

Para o filme que McTiernan estava querendo fazer, foram necessárias várias modificações e adaptações. Pois a ideia era fazer um filme independente do de duas décadas antes.

Portando, o nome do protagonista seria alterado, o drama envolvendo a filha seria modificado por problemas no casamento e o foco da ação envolveria um ataque bem diferente do normal, no contexto cinematográfico da época.

Mas a maior modificação que o filme traria, era o seu personagem principal. E em como ele lidaria com as dificuldades.

No dia 15 de julho de 1988, o público foi apresentado a John McClane e seu Duro de Matar.

Sucesso imediato de público e crítica, Duro de Matar injetou sangue novo num gênero que estava datado logo na sua década de ouro. John era falho: sangrava quando ferido, não tinha um arsenal a sua disposição, sofria com a possibilidade de errar, temia pelas pessoas que dependiam dele, e o mais importante: ele parecia uma pessoa real.

Ele tinha senso de humor, usava a o sarcasmo e a ironia como tática, pensava antes de agir, controlava a situação com estratégia e tinha um humor autodepreciativo que lhe ajudava a controlar os nervos em momentos de estresse.

E aqui, eu devo falar do principal responsável pelo sucesso do filme e por humanizar o protagonista: Bruce Willis.

Bruce, até aquele momento, era um ator nascido na Alemanha Oriental, que estava fazendo sucesso numa comédia na TV americana. A série A Gata e o Rato estava ganhando o público por apresentar uma mistura de drama, comedia e romance: tudo o que John McClane precisava.

O carisma displicente e meio canastrão de Bruce, serviu como uma luva. Ele tornou o personagem real, palpável. McClane era só um cara que estava indo numa festa de Natal, no prédio onde a esposa trabalhava, para tentar salvar o casamento em crise, quando este prédio é atacado por ladrões da Europa Oriental.

O drama do filme gira em torno do policial conseguir meios criativos de se livrar das ameaças, pois, desta vez, são os inimigos que estão superpreparados e equipados.

O romance era palpável, o casal protagonista parece real. Totalmente diferente do que era o padrão da época, o romance era parte central do roteiro. Holly McClane, interpretada por Bonnie Bedelia, não era mais uma donzela em perigo clamando por ajuda. Ela ajudava! Distraia os inimigos, defendia os colegas de trabalho e tentava criar meios para facilitar o trabalho do marido.

Mas o signo máximo do quão paupável o personagem era, foi o senso de humor que eu citei antes.

Parece ridículo falar isso agora, mas numa época marcado por personagens sisudos, que se comunicavam por meio de frases de efeito e que carregavam o peso de um país inteiro nas costas, o fato de o John McClane concebido por Bruce Willis lidar com as situações de estresse com piadas acidas, tiradas inteligentes e sorrindo, criou uma conexão única com a audiência.

Bruce injetou tanto carisma nesse personagem, que a sua carreira migrou da TV para o cinema praticamente do dia para a noite.

As bilheterias responderão imediatamente e uma sequência estreou dois anos depois. Duro de Matar 2 acabou sendo considerado mais do mesmo: uma situação extrema, lidada por um homem que estava no lugar errado na hora errada. Mas o “estrago” estava feito, e o herói humano, canastrão e bem-humorado tinha feito escola (quem aqui lembra do Jack Traven de Keano Reeves em Velocidade Máxima?) a ponto de influenciar o próprio Arnold no filme Um Tira no Jardim de Infância, onde ação e comédia andam juntas.

Eu sei, eu não citei o vilão definitivo, Hans Gruber, interpretado pelo gênio Alan Rickman, que tem participação direta na grandiosidade do protagonista, mas eu escrevi esse texto por um motivo

E esse motivo é: as notícias sobre a saúde de Bruce Willis não são nada boas. Pelo que os tabloides contam, ele não reconhece nem os próprios filhos e não consegue mais falar ou se comunicar sem ajuda por causa da demência frontal. E na última semana, saiu uma notícia que a família já está se preparando para o inevitável.

E na minha modesta opinião, homenagem se faz em vida.

Portanto: Yippee-ki-yay, Motherfucker e obrigado por tudo, Bruce!

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