Post: Bruxas com endereço e cep, Abomináveis Homens da Neve e outros gatos

É praticamente impossível encontrar um Millenium que não tenha assistido Chaves e Chapolin.

Desde 24 agosto de 1984, a obra criada por Roberto Gómez Bolaños virou patrimônio cultural imaterial do Brasil, através das reprises ininterruptas do SBT. A qualidade do material apresentado nos episódios, de ambos os programas, aliada as repetições constantes, criaram um fenômeno cultural praticamente único.

Se vocês pegarem entrevistas das últimas gerações de comediantes stand up brasileiros, a grande maioria cita, ambos os programas, como duas grandes influências no seu estilo de humor.

Mas será que Chaves e Chapolin são apenas programas de comédia?

Bom, este texto tem um contexto específico: ele é uma continuação espiritual do texto “Porque Passar por Uma Adrenalina Dessas”, publicação anterior. Texto esse, que aborda porque assistirmos filmes de terror.

E lá, eu fechei o texto falando que o início do meu amor pelo gênero terror foram os programas Chaves e Chapolin.

Eu não vou perder tempo de página para explicar as duas obras, sem em 42 anos de exibição você não conhece, não vai ser aqui que você vai. Mas, eu quero fazer uma análise rápida de um ponto que eu acho interessante.

Em Chaves, temos a história da vila, e seus arredores (escolinha, Acapulco, restaurante da Valentona do 14, etc) sendo contada episódio após episódio, através dos seus personagens.

Claro, temos a entrada e saída de personagem e lugares, mas como nós nunca assistimos a série em ordem cronológica, para os brasileiros, é só uma troca de senário e foco em personagens.

Mas no geral, é uma história focada no dia a dia daqueles moradores e daquele lugar. Eu não vou falar que é um foco limitado, porque está longe disso.

Temos a vila sendo vendida, sendo pintada, sendo decorada para feriados, temos cobranças de aluguel, touradas, pingue-pongue, aulas de violar tocão, o Festival da Boa Vizinhança, organizado pelo Seu Madruga (mas, por favor, não caçoem dele), entre outra centena de temas.

Chaves é tudo, menos limitado.

Mas a linha guia dele, tratar do dia a dia da vila, não permitia ao Roberto extravasar e expor os seus gostos pessoais. Não plenamente, pelo menos. Um exemplo disso é o amor do personagem principal por futebol, ciosa que Roberto amava.

Isso, ele guardava para o programa do Vermelhinho.

E o motivo disso, é muito simples: você já parou para pensar em qual é o tema central do programa Chapolin Colorado?

Exato, são as histórias do personagem principal. Seja lá em que contexto, década, época, planeta, desse na telha do Roberto.

E, aqui, temos, sim, como ver do que o autor era fã. O Gordo e o Magro, Os Três Patetas, filmes de máfia, ficção cientifica, bastidores do cinema (esse era um queridinho dele, vide que ganhou um especial de cinco episódios), e claro, terror.

Terror era um tema tão caro a Roberto, que ele é o foco central do episódio que inaugura Chapolin como um programa solo.

A Casa Mal-assombrada de 1973, é uma grata surpresa dentro do seriado.  A concepção do senário com luzes piscando, efeitos de trovoadas, portas rangendo, formam o palco para caracterizações macabras dos integrantes clássicos do elenco.

Este episódio faz bonito quando o assunto são fantasmas e casas assombradas. Mas ele é o primeiro episódio do programa como show solo, o que mostra uma questão um pouco precária. O orçamento do programa, claramente não acompanhava a criatividade dos realizadores.

Mas essas questões mudariam logo, pois em 1976, Chespirito e seus asseclas, tinham plenas condições, dadas pelo sucesso astronômico do programa, para soltar uma obra prima.

O Abominável Homem das Neves talvez seja o ápice do programa no quesito terror. A imponência da casa quando vista de fora, a perfeição do cenário interno dela com cadeiras quebradas, lareira, escada para um segundo andar, móveis sujos, o jogo de iluminação (reparem na cena em que o lampião é acesso e como a luz acompanha a chama), a trilha sonora penetrante, a direção de Enrique Segoviano no seu prime. Ele segue os personagens em foco e desfoco montando a narrativa como um documentarista. Perfeito.

Mas tudo isso seria técnica vazia, se não fosse o monstro do título.

O grande motivo de lembrarmos deste episódio é a caracterização de Abominável Homem das Neves do nosso querido Don Ramón Valdés, o eterno Seu Madruga.

Maquiagem, cabelo, roupa, o andar lento e gingado, os sons guturais, o olhar vidrado. Não tem criança dos anos 1980 e 1990 que não tenha tremido de medo com a emblemática cena dele andando em direção a câmera.

Esse episódio é uma aula de cenografia, maquiagem, direção e roteiro. E com um plus gigante: mantendo cenas e sequências de humor puro.

Roberto e os demais membros da equipe souberam usar a liberdade criativa dada pela ideia central do programa do Chapolin Colorado para criara grandes narrativas de terror.

Eu poderia passar dias elencando-as, mas vamos as minhas favoritas: Abominável Homem das Neves, logicamente, O Lobisomem, é meio que uma cópia do Abominável, mas tem uma personalidade própria muito forte, Nós e os Fantasmas de 1978, clássico episódio sobre o teatro assombrado, A Casa Mal-Assombrada de 1976, refilmagem do episódio de 1973, mas muito mais técnico e desenvolvido. Entre muitos e muitos outros.

Chapolin foi uma válvula de criatividade poderosa, mas o nosso amigo que se escondia num barril não fica atras.

Não é porque Chaves tinha uma linha narrativa mais fechada, que uns fantasmas e bruxas não passaram por lá.

Dento do permitido pela proposta base, Bolaños teve uma ideia digna do gênio que ele era: mostrar o terror e o medo pela visão das crianças.

Apesar do elenco adulto, Chaves, Chiquinha, Kiko, Nhonho, Godines, Popis, são crianças com uma média de idade de oito anos. Isso as torna impressionáveis, crédulas e inocentes. O publico perfeito para tomar uns bons sustos.

Como no emblemático episódio A Casa da Bruxa, de 1975. Uma simples devolução de um jornal se transforma numa incursão medonha a uma casa pavorosa.

A excelência da criação do interior da casa da Bruxa do 71 é comparável a do Abominável Homem das Neves: escadas, caldeirão em chamas, paredes estilo medievais, animais empalhados, velas derretidas esqueletos, os clássicos sons de uivos e assobios que o programa usava para criar o clima de terror. Tudo pensado e executado com exatidão.

E os efeitos. Meus amigos, os efeitos! É gato e vassoura voando, bolo desaparecendo, fumaça de gelo seco. Tudo muito acima da média para a época em questão.

E como no episódio do Abominável, tudo orbitando o humor clássico e de extremo bom gosto que o programa eternizou.

Outro bom exemplo é o episódio Os Espíritos Zombeteiros, de 1977. O humor físico e pastelão é brilhantemente usado para gerar medo. É sério, notem a cena da sessão espírita na mesa da casa do Seu Madruga.

Para os adultos, é medo puto, pois são os espíritos se manifestando, para nós, gargalhadas porque é o Chaves se contorcendo de medo debaixo da mesa.

Assim como no caso do Chapolin, eu poderia passar horas citando episódios, fica a menção honrosa aos episódios onde eles assistem filmes de terror e onde eles têm que lidar com o fantasma do Seu Barriga (esse é espetacular de tão engraçado), mas eu tenho um ponto para abordar.

Foram esses episódios que me fizeram gostar do gênero terror. Eu gostei de tudo, embora me matasse de medo.

Eu gostei de assistir uma coisa que me fez sair da zona de conforto de uma criança. Era inédito passar medo e gostar.

Eu tinha amigos que trocavam de canal quando esses episódios começavam, eu aumentava o volume da TV e ficava esperando ter reprise.

Aos 112, ou 13 anos, esse gosto migrou para filmes. Mas vocês já leram essa história.

Uma que vocês não leram é sobre o pioneirismo do estúdio Universal no gênero. E tá aí uma boa história.

 

Foto: Bernardo Herculano Nesello

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