O uso de canetas emagrecedoras como estratégia para perda de peso entre mulheres que tratam câncer de mama desponta como uma nova fronteira terapêutica na oncologia.
“A relação entre câncer de mama e obesidade é desastrosa”, afirma o mastologista Daniel Buttros, pesquisador em estilo de vida e câncer de mama, obesidade e síndrome metabólica.
De acordo com o especialista, medicamentos conhecidos pelos nomes comerciais Ozempic, Mounjaro, Wegovy e Rybelsus podem proporcionar perdas superiores a 20% do peso corporal, quando combinados com mudança de estilo de vida, e têm potencial para melhorar o prognóstico do câncer de mama.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) define a obesidade como uma doença crônica associada ao acúmulo anormal ou excessivo de gordura no corpo, em quantidade que oferece risco à saúde.
Estima-se que 21,8% dos homens e 29,5% das mulheres no Brasil sejam obesos. Dados da Pesquisa Nacional de Saúde do IBGE apontam que mais de 60% dos adultos estão fora do peso ideal.
No mundo, cerca de 770 bilhões de pessoas convivem com a obesidade, revela levantamento da World Obesity Federation.
A associação entre obesidade e câncer de mama, nas palavras de Daniel Buttros, presidente da Comissão de Comunicação da Sociedade Brasileira de Mastologia (SBM), é “íntima e catastrófica”.
Segundo o especialista, mulheres obesas têm maior possibilidade de desenvolver câncer de mama tanto na pré quanto na pós-menopausa. A circunferência abdominal acima de 85 centímetros, destaca o especialista, já está associada ao aumento desse risco.
“Hoje entendemos que muitas mulheres talvez estejam mais ameaçadas biologicamente pela obesidade do que pelo próprio tumor inicial que apresentam.”
Em uma pesquisa recente, que envolveu cerca de 200 mulheres submetidas à quimioterapia antes da cirurgia, estratégia conhecida como quimioterapia neoadjuvante, Buttros destaca que todas as pacientes alcançaram resposta patológica completa, um dos melhores cenários possíveis dentro da oncologia mamária.
Ainda assim, as pacientes obesas apresentaram maior risco de morte, maior chance de recidiva e aumento da mortalidade relacionada ao câncer de mama.
“Isso significa que toda a evolução científica do tratamento oncológico pode ser parcialmente anulada pelo impacto contrário da obesidade”, diz.
Outro ponto preocupante destacado pelo pesquisador está no pós-tratamento. Muitas mulheres permanecem obesas após cirurgia, quimioterapia e radioterapia, enquanto outras desenvolvem obesidade justamente após o tratamento do câncer.
Nas duas situações, comprovadamente, há probabilidades elevadas de recidiva local, metástases e mortalidade geral.
A discussão alcança ainda mais relevância diante da ascensão das chamadas canetas emagrecedoras, que vêm revolucionando o tratamento da obesidade em todo o mundo.
De acordo com Buttros, pesquisas recentes sobre a ação da semaglutida (Ozempic, Rybelsus e Wegovy) e da tirzepatida (Mounjaro) mostram que essas medicações, associadas à mudança de estilo de vida, podem gerar perdas superiores a 20% do peso corporal, um resultado muito superior ao observado apenas com dieta e atividade física, cuja média histórica gira em torno de 2,5%.
“Milhões de pessoas convivem com o efeito sanfona durante anos. Pela primeira vez, talvez estejamos em uma era de perda de peso realmente efetiva”, destaca.
Os possíveis impactos oncológicos das canetas emagrecedoras já despertam enorme atenção da comunidade científica internacional.
Estudos demonstram que pessoas obesas tratadas com essas medicações apresentaram redução global no risco de desenvolvimento de 13 tipos de câncer.
No cenário do câncer de mama, embora ainda existam poucas publicações, Buttros considera que os resultados iniciais são extremamente promissores, apontando diminuição do risco de recidiva local, redução do risco de recidiva a distância, menor mortalidade específica relacionada ao câncer de mama e impacto positivo na mortalidade global.
Quando questionado se a caneta emagrecedora precisa ser usada pelo resto da vida, Daniel Buttros acredita que sim, pelo fato de a obesidade ser uma doença recidivante. Para especialista, no entanto, há a perspectiva do uso do medicamento em dosagens menores e de drogas ainda mais aperfeiçoadas no futuro.
Como data importante no calendário da saúde, o Dia Mundial de Conscientização dos Transtornos Alimentares, na visão do mastologista Daniel Buttros, pode representar uma oportunidade para que a comunidade médica volte atenções para a obesidade e o câncer de mama, “uma das discussões mais promissoras da oncologia moderna”, conclui o mastologista.
Foto: Envato por africaimages




