A esclerose múltipla é uma doença que atinge predominantemente mulheres jovens, mas seus primeiros sinais ainda costumam ser confundidos com estresse, ansiedade ou excesso de cansaço.
A sensação de formigamento que não passa, a visão embaçada sem explicação aparente ou uma fraqueza persistente em um dos lados do corpo podem parecer sintomas isolados, mas também podem indicar uma condição neurológica crônica que ainda enfrenta um dos maiores desafios da medicina: o diagnóstico tardio.
Durante o Agosto Laranja, mês dedicado à conscientização sobre a esclerose múltipla, especialistas reforçam a importância de reconhecer os primeiros sintomas e buscar avaliação médica o quanto antes.
Quanto mais cedo a doença é identificada, aumentam as chances de controlar sua progressão, preservar a qualidade de vida e reduzir o risco de incapacidades permanentes.
Segundo o Ministério da Saúde, a doença é uma das mais comuns do sistema nervoso central, afetando cerca de 2,8 milhões de pessoas em todo o mundo.
No Brasil, a Associação Brasileira de Esclerose Múltipla (ABEM) estima que aproximadamente 40 mil pessoas convivam com a condição. Cerca de 85% dos pacientes são mulheres, principalmente entre 18 e 30 anos.
Para a neurologista Sandra Regina Mota Ortiz, professora da Universidade São Judas, cujo curso de Medicina integra a Inspirali, ecossistema responsável pela gestão de 15 escolas médicas em diferentes regiões do Brasil, a diversidade de manifestações clínicas é justamente um dos fatores que dificultam o reconhecimento da doença.
“A esclerose múltipla pode se apresentar de formas muito diferentes entre os pacientes. Algumas pessoas começam com alterações visuais, outras apresentam perda de força, dificuldades de equilíbrio, dormências ou alterações de sensibilidade. Como muitos desses sintomas também aparecem em outras condições, é comum que o diagnóstico não seja imediato”, explica.
A doença é autoimune e faz com que o sistema imunológico ataque a mielina, camada que protege as fibras nervosas responsáveis pela transmissão dos impulsos entre o cérebro e o restante do corpo.
Com isso, diferentes funções neurológicas podem ser comprometidas, provocando sintomas variados que surgem em surtos ou evoluem gradualmente ao longo dos anos.
A especialista destaca que o avanço dos exames de imagem e dos critérios diagnósticos tem reduzido esse tempo nos últimos anos, mas ainda existe um longo caminho para ampliar o conhecimento da população sobre a doença.
“É importante que sintomas neurológicos persistentes ou recorrentes nunca sejam ignorados. A avaliação precoce com um neurologista permite investigar a causa e iniciar o tratamento no momento adequado, o que faz diferença na evolução da doença”, afirma.
Primeiros sintomas merecem atenção
Embora os sinais variem de acordo com a região do sistema nervoso afetada, alguns sintomas aparecem com maior frequência nos estágios iniciais da esclerose múltipla.
Entre eles estão visão borrada ou perda temporária da visão em um dos olhos, formigamentos, dormências, fraqueza muscular, alterações no equilíbrio, tonturas, fadiga intensa e dificuldades para caminhar.
Em alguns pacientes também podem ocorrer alterações cognitivas, como dificuldade de concentração e memória.
Segundo Sandra, um aspecto característico da doença é que muitos desses sintomas surgem em episódios que melhoram espontaneamente, levando algumas pessoas a adiar a procura por atendimento médico.
“É justamente essa melhora aparente que pode dar uma falsa sensação de que o problema desapareceu. No entanto, a doença continua ativa e novos surtos podem ocorrer, provocando sequelas progressivas quando não há acompanhamento adequado”, alerta.
Tratamentos permitem mais qualidade de vida
Embora a esclerose múltipla ainda não tenha cura, os avanços terapêuticos transformaram o prognóstico da doença nas últimas décadas.
Atualmente, existem medicamentos capazes de reduzir significativamente a frequência dos surtos e retardar a progressão do comprometimento neurológico.
Além da medicação, o tratamento envolve acompanhamento multiprofissional, com fisioterapia, terapia ocupacional, atividade física orientada, suporte psicológico e cuidados individualizados para preservar a autonomia e a qualidade de vida.
“Hoje dispomos de diversas opções terapêuticas que permitem controlar melhor a doença. Quanto mais cedo o tratamento é iniciado, maior a possibilidade de reduzir a atividade inflamatória e manter o paciente ativo por muitos anos”, destaca a neurologista.
Para a especialista, campanhas como o Agosto Laranja cumprem um papel fundamental ao ampliar o conhecimento da população sobre uma doença que ainda é cercada por desinformação.
“Informação também é uma forma de cuidado. Conhecer os sinais da esclerose múltipla ajuda as pessoas a procurarem atendimento mais cedo e contribui para que mais pacientes tenham acesso ao diagnóstico e ao tratamento antes que ocorram limitações permanentes”, conclui.
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