A interferência da inteligência artificial (IA) e dos algoritmos sobre as decisões relativas à amamentação foi o assunto abordado no oitavo Seminário Estadual da Semana Mundial da Amamentação e no 13º Seminário Estadual da Estratégia Amamenta e Alimenta Brasil (Eaab) 2026, realizados simultaneamente na quinta-feira (6), durante a Semana Mundial da Amamentação, que estimula o debate sobre as interferências positivas e negativas no processo de aleitamento materno.
“É possível afirmar que o aleitamento materno está em risco em função do marketing, que lucra com a oferta de produtos substitutos ao aleitamento materno. E boa parte dessa publicidade não é vista como propaganda explícita, o que dificulta ainda mais a fiscalização”, afirma o pesquisador sênior da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), Cristiano Boccolini.
Desafios da amamentação na era digital
Em alusão ao Agosto Dourado, mês que promove o leite materno como alimento padrão-ouro nos primeiros seis meses de vida, os seminários buscaram problematizar quais recursos funcionam na prática e quais são as situações causadas pela hiperexposição das mães aos meios digitais atualmente.
No âmbito da amamentação exclusiva, um dos principais obstáculos é o combate ao marketing abusivo que identifica o público-alvo, induz preocupações e oferece produtos como solução.
Como explicou Boccolini, esse fenômeno atinge mulheres em várias partes do mundo, e tem um efeito ainda maior entre mães de primeira viagem.
“Ao pesquisar nos chatbots sobre alimentação e sintomas comuns do período de adaptação do recém-nascido, como choro e irritabilidade, muitas mulheres são levadas a acreditar que têm pouca produção de leite. O algoritmo capta essa dúvida e, imediatamente, introduz a fórmula infantil como resposta”, exemplificou.
De acordo com o pesquisador, a indústria de fórmulas infantis vem lucrando US$ 52 bilhões por ano, um mercado que cresce mais rápido que a taxa de natalidade.
Além disso, dados recentes apontam que 97% da população mundial tem algum tipo de conexão com a internet e grande parcela consome conteúdos veiculados em redes sociais.
O Código Internacional de Comercialização de Substitutos do Leite Materno, lançado pela Organização Mundial da Saúde (OMS), em 1981, prevê recomendações para proteger a nutrição de bebês, promover o aleitamento materno e regular a publicidade inadequada, visando garantir mais segurança e qualidade para as mães e seus filhos.
IA amplia desafios para a regulamentação
Com o avanço da tecnologia, porém, muitos dos artifícios utilizados atualmente pela publicidade não estão previstos no código.
O que antes tinha como mecanismos de publicidade de massa revistas, comerciais de televisão e distribuição de amostras de produtos, dos anos 1980 até o final da década de 1990, evoluiu, com o passar do tempo, para sites de fabricantes, e-mails, contatos por linhas telefônicas, clubes de mães na internet, redes sociais, mecanismos de busca e aplicativos voltados ao cuidado de bebês.
De 2020 para cá, a IA generativa evoluiu para assistentes conversacionais como ChatGPT e Gemini. São ferramentas capazes de produzir conteúdo automaticamente e assumir o papel de orientadores.
Na prática, o desafio em 2026 é lidar com a mineração de dados para identificar gestantes, com os algoritmos de segmentos e teste de anúncios, com influenciadores digitais e com conteúdo promocional gerado pelas próprias famílias.
Isso ocorre porque tudo o que a pessoa busca na internet gera dados, de modo que o momento de vulnerabilidade que é uma gestação acaba se tornando o cenário ideal para a indústria de fórmulas infantis, que se especializou em identificar mulheres grávidas e em acompanhá-las por múltiplas plataformas com anúncios, cupons de desconto e conteúdos produzidos por influenciadores.
Em contraponto aos efeitos prejudiciais da IA, a Fiocruz lançou o Digicode, uma ferramenta que tem o objetivo de monitorar redes sociais, utilizando a própria IA para identificar, organizar e verificar conteúdos digitais potencialmente relacionados a infrações ao Código Internacional e à Norma Brasileira de Comercialização de Alimentos para Lactentes e Crianças de Primeira Infância, Bicos, Chupetas e Mamadeiras (Nbcal).
Desenvolvida em código aberto, a plataforma permite que gestores monitorem, em tempo real, infrações às normas que regulamentam a publicidade digital de substitutos do leite materno, apoiando a vigilância das estratégias de marketing digital e dando escala a um trabalho que antes dependia de observação manual.
Esse uso da IA em saúde pública faz uma varredura em sites de fabricantes e anúncios de fórmulas infantis que não estão em conformidade com a legislação ou que violam normas vigentes, classificando os casos que merecem maior atenção.
“A mesma tecnologia serve à vigilância e ao apoio ao aleitamento materno. Fortalecer o que funciona inclui proteger o ambiente informacional relacionado à decisão de amamentar. É nosso dever, como sociedade e profissionais da saúde, proteger as pessoas e as famílias do marketing abusivo de fórmulas infantis”, afirmou Boccolini.
Os seminários
No evento, também foram abordados o Relatório das Paternidades Brasileiras; a amamentação como espaço essencial de acolhimento; as experiências exitosas dos municípios de Nova Petrópolis e Osório; a introdução alimentar como marco no desenvolvimento infantil; a atuação da Associação Gaúcha de Consultoras em Amamentação na promoção, proteção e apoio ao aleitamento materno; e a Nota Técnica 98/2026, que apresenta recomendações aos profissionais de saúde e gestores de maternidades quanto à implementação do contato pele a pele.




