Com crédito ainda caro para famílias e empresas, modalidade cresce como alternativa de planejamento para imóveis, veículos e expansão patrimonial
Mesmo com o início do ciclo de corte da Selic, o custo do crédito no Brasil segue elevado o suficiente para manter consumidores e empresas em busca de alternativas ao financiamento tradicional.
Nesse movimento, o consórcio voltou a ganhar força como instrumento de planejamento financeiro, impulsionado pela busca por previsibilidade, menor pressão sobre fluxo de caixa e fuga dos encargos bancários.
Para Leonardo Baldez, economista, educador financeiro e fundador da ISF Crédito, grupo de serviços financeiros para empresas de pequeno e médio porte, o crescimento da modalidade reflete uma mudança prática no comportamento do brasileiro diante de um crédito ainda restritivo.
“O consórcio deixou de ser visto apenas como uma opção para quem pode esperar e passou a ser incorporado como ferramenta estratégica de aquisição. Muitas famílias e empresários entenderam que, diante de juros elevados, antecipar patrimônio sem recorrer ao financiamento tradicional pode fazer mais sentido financeiro”, afirma.
Em 29 de abril, o Comitê de Política Monetária do Banco Central reduziu a Selic de 14,75% para 14,50% ao ano, segundo comunicado oficial, mas manteve discurso cauteloso sobre o comportamento da inflação e os próximos passos da política monetária.
Financiamentos imobiliários, crédito para aquisição de veículos e linhas empresariais ainda operam com custo elevado, o que ajuda a explicar a migração para alternativas menos dependentes de juros compostos bancários.
Em março de 2026, a Associação Brasileira de Administradoras de Consórcios (ABAC) mostrou que o sistema alcançou 12,93 milhões de participantes ativos, recorde histórico e alta de 13% na comparação anual.
O tíquete médio chegou a R$97,48 mil, indicando avanço também na procura por créditos mais robustos, não apenas aquisições de menor valor.
Mudança de comportamento financeiro
O avanço do consórcio revela uma mudança mais ampla no comportamento financeiro do consumidor brasileiro. Em vez de priorizar velocidade de aquisição a qualquer custo, cresce a busca por instrumentos que permitam organização patrimonial com maior previsibilidade.
“Durante muitos anos, o financiamento foi vendido como caminho natural para aquisição imediata. O problema é que, em ciclos prolongados de juros altos, esse custo compromete o orçamento familiar e a capacidade de investimento empresarial. O consórcio entra como alternativa para quem pensa em médio prazo”, diz Leonardo.
Já entre empresários, a modalidade passou a ser utilizada para renovação de frota, aquisição de máquinas, equipamentos e até expansão operacional, especialmente entre pequenas e médias empresas, mais sensíveis ao custo financeiro.
Empresas e agronegócio ampliam uso estratégico
No agronegócio e no meio empresarial, o consórcio passou a ser tratado como instrumento de planejamento de capital, Leonardo diz que o modelo tem sido incorporado como mecanismo de aquisição programada.
“O empresário que precisa expandir capacidade produtiva ou o produtor rural que planeja renovação de maquinário passou a enxergar valor na previsibilidade. Não é apenas uma decisão de compra. É uma decisão de estrutura financeira.”
Esse comportamento acompanha um momento de maior seletividade no crédito, com instituições financeiras mantendo critérios mais rígidos de concessão, especialmente para operações de maior risco ou setores mais expostos à volatilidade econômica.
O que explica a força da modalidade
A expansão do consórcio não está ligada apenas ao custo do financiamento, há um componente comportamental relevante: maior cautela com endividamento de longo prazo.
“Depois de anos de aperto financeiro, o consumidor ficou mais atento ao custo efetivo das operações. Quando ele compara o valor final de um financiamento com a lógica do consórcio, a percepção muda. O brasileiro está mais sensível ao peso dos juros sobre patrimônio”, afirma o economista.
O consórcio não resolve necessidades imediatas de liquidez e depende de estratégia compatível com prazo, fluxo financeiro e expectativa de contemplação.
A tendência, segundo analistas do setor, é que o consórcio siga relevante mesmo com a queda gradual da Selic, especialmente se o crédito bancário continuar demorando a refletir de forma mais significativa a flexibilização monetária.







