Ao compartilhar sua jornada até a gravidez por fertilização in vitro (FIV), a influenciadora Marcella Tranchesi revelou que recebeu o diagnóstico de uma condição conhecida tradicionalmente como síndrome dos ovários policísticos (SOP) ao investigar dificuldades para engravidar.
O relato chamou atenção para uma doença que, cada vez mais, vem sendo compreendida pelos especialistas como uma condição metabólica e endócrina complexa, e não apenas ginecológica.
O relato também chama atenção para uma mudança recente na medicina. Em maio deste ano, um consenso internacional publicado na revista científica The Lancet substituiu oficialmente a nomenclatura “síndrome dos ovários policísticos (SOP)” por “síndrome ovariana metabólica poliendócrina (SOMP)”.
A mudança foi construída por um grupo internacional que reuniu 56 organizações científicas, clínicas e de pacientes e busca refletir de forma mais precisa que a doença vai muito além dos ovários, envolvendo alterações metabólicas, hormonais e inflamatórias que afetam diferentes órgãos e sistemas do organismo.
Segundo a endocrinologista Dra. Alessandra Rascovski, diretora clínica da Atma Soma, o caso ajuda a dar visibilidade a uma condição que ainda permanece subdiagnosticada.
“A troca do nome não foi apenas uma questão de terminologia. Ela representa uma mudança de paradigma. Durante muitos anos, a doença foi associada quase exclusivamente aos ovários e à fertilidade. Hoje sabemos que estamos diante de uma condição metabólica e poliendócrina, que aumenta o risco de resistência à insulina, diabetes tipo 2, hipertensão, doença cardiovascular e outras complicações ao longo da vida. A nova nomenclatura ajuda médicos e pacientes a compreenderem essa complexidade.”
A SOMP é considerada o distúrbio endócrino mais frequente entre mulheres em idade reprodutiva.
A Diretriz Internacional para Avaliação e Manejo da Síndrome dos Ovários Policísticos, publicada em 2023 por um consórcio liderado pela Monash University, com apoio da American Society for Reproductive Medicine (ASRM), da European Society of Human Reproduction and Embryology (ESHRE) e da Endocrine Society, estima que a condição acometa entre 8% e 13% das mulheres em idade reprodutiva, o equivalente a mais de 190 milhões de mulheres em todo o mundo.
O documento também alerta que cerca de 70% dos casos permanecem sem diagnóstico.
“É muito comum que a paciente passe anos ouvindo que sua menstruação é apenas irregular, que precisa emagrecer ou que acne faz parte da adolescência. Muitas só descobrem a doença quando começam a tentar engravidar.”
A infertilidade é apenas uma das manifestações
Embora a dificuldade para engravidar seja frequentemente o motivo que leva muitas mulheres ao consultório, Alessandra explica que ela representa apenas uma das consequências da síndrome.
“A alteração da ovulação acontece porque existe um desequilíbrio hormonal e metabólico importante. A infertilidade não é a doença; ela é uma consequência.”
Segundo a mesma diretriz internacional, mais de 80% das mulheres com infertilidade causada por ausência de ovulação apresentam a condição, tornando-a a principal causa de infertilidade anovulatória.
Nos últimos anos, o conhecimento científico mudou profundamente a forma de enxergar a síndrome.
Uma revisão publicada em 2024 na revista Nature Reviews Disease Primers, uma das mais importantes publicações internacionais na área biomédica, destaca que a síndrome deve ser compreendida como uma doença sistêmica, marcada por alterações reprodutivas, metabólicas e cardiovasculares.
Entre as principais alterações estão:
- resistência à insulina;
- inflamação crônica de baixo grau;
- alterações hormonais;
- maior risco cardiometabólico.
“Hoje sabemos que não estamos tratando apenas fertilidade. Estamos prevenindo diabetes, doenças cardiovasculares e complicações metabólicas futuras”, comenta Rascovski.
Além disso, a resistência à insulina é considerada um dos principais mecanismos envolvidos na síndrome.
Segundo a revisão publicada na Nature Reviews Disease Primers, entre 65% e 80% das mulheres com SOMP apresentam resistência à insulina, inclusive muitas pacientes com peso considerado normal.
Esse quadro favorece o aumento da produção de andrógenos pelos ovários, prejudica a ovulação e contribui para diversas alterações metabólicas.
Além disso, mulheres com a síndrome apresentam:
- risco aproximadamente quatro vezes maior de desenvolver diabetes tipo 2;
- maior prevalência de síndrome metabólica;
- maior risco de doença hepática gordurosa (esteatose hepática);
- maior risco de hipertensão arterial e doenças cardiovasculares.
“As alterações reprodutivas e metabólicas caminham juntas. Quanto mais cedo identificamos e tratamos essa resistência à insulina, maiores são os benefícios para a fertilidade e para a saúde futura da paciente.”
O tratamento mudou
A abordagem terapêutica também evoluiu. Hoje, o tratamento não tem como objetivo apenas regular o ciclo menstrual ou favorecer a gravidez.
Segundo Alessandra Rascovski, ele inclui:
- melhora da resistência à insulina;
- alimentação individualizada;
- atividade física;
- sono;
- manejo do estresse;
- controle do peso quando necessário;
- preservação da fertilidade.
Nos últimos anos, medicamentos agonistas do receptor de GLP-1 também passaram a ser estudados em mulheres com SOMP associada à obesidade.
Uma meta-análise publicada em 2025, que reuniu ensaios clínicos randomizados, mostrou que os agonistas do receptor de GLP-1 promovem perda de peso significativa, melhora da resistência à insulina e redução da gordura abdominal em mulheres com síndrome dos ovários policísticos, reforçando o potencial desses medicamentos como parte da estratégia de tratamento das pacientes com obesidade ou sobrepeso.
“Quando melhoramos o metabolismo, frequentemente também melhoramos a função reprodutiva. A fertilidade passa a ser consequência de um organismo metabolicamente mais equilibrado.”
Diagnóstico precoce pode mudar toda a trajetória
Para a endocrinologista, o relato de Marcella ajuda a transmitir uma mensagem importante:
“O diagnóstico trouxe direcionamento. Isso acontece com muitas mulheres. Elas passam anos tentando controlar sintomas isolados sem entender que existe uma doença metabólica por trás de tudo isso.”
Segundo a endocrinologista, reconhecer precocemente a síndrome permite reduzir riscos ao longo da vida.
“A mudança de nome também tem um papel educativo. Quando falávamos em síndrome dos ovários policísticos, muitas mulheres acreditavam que o problema se restringia aos ovários ou que só teria importância para quem desejava engravidar. O conceito de síndrome ovariana metabólica poliendócrina deixa claro que estamos diante de uma condição sistêmica, que precisa ser acompanhada ao longo de toda a vida”, diz a médica.
“Nosso objetivo não é apenas ajudar uma mulher a engravidar. É evitar que ela desenvolva diabetes, hipertensão, doença cardiovascular e outras complicações nas próximas décadas. A fertilidade é apenas um capítulo de uma história muito maior”, finaliza.
Foto: Canva




