Post: Câncer do colo do útero: Março Lilás alerta para importância de prevenção da doença, causada pela infecção por HPV

Neoplasia é considerada a quarta maior causa de morte entre mulheres brasileiras

 

Quando a pedagoga Marla Carina Guimarães tinha 32 anos, ela tentava engravidar e começou a fazer exames regulares. Os procedimentos acabaram, infelizmente, dando um giro de 360 graus em sua vida. A partir dos resultados dos exames, foi descobrir que seu preventivo veio alterado, e, posteriormente, soube que se tratava de um câncer do colo do útero. Acontece que ela não teve nenhum sintoma que poderia indicar que estava com algum problema. “Foi um momento muito difícil”, relata ela, hoje com 42 anos.

Considerado a quarta maior causa de morte entre mulheres brasileiras, o câncer de colo de útero terá, entre 2026 a 2028, cerca de 19,3 mil novos casos por ano no Brasil, um crescimento de aproximadamente 13% em relação ao triênio anterior, estima o Instituto Nacional do Câncer (Inca). A doença tem como principal causa a infecção persistente pelo HPV (Papilomavírus Humano). Com o objetivo promover a prevenção contra a doença desde cedo, a campanha intitulada “Março Lilás” busca alertar sobre a importância de buscar prevenção da doença e de outras sexualmente transmissíveis (DSTs). O incentivo é que as mulheres mantenham a rotina de visitas ao ginecologista, e a fazer exames preventivos com orientação médica.

A neoplasia de colo de útero se desenvolve em mais de 99% dos casos associados à infecção pelo vírus HPV. Os mais prevalentes são o HPV 16 e HPV18. Inicialmente, são geradas lesões intraepiteliais de baixo grau, que podem progredir para de alto grau, as chamadas Neoplasia Intraepitelial Cervical Grau 2 (NIC 2) ou 3 (NIC 3). Então, evoluem para o carcinoma invasivo.

“A maioria das infecções por HPV e lesões de baixo grau se resolvem espontaneamente. Mas alguns fatores como imunossupressão, tabagismo e as variantes genéticas do HPV de maior risco podem culminar com a progressão da doença e desenvolvimento da neoplasia”, explica Christina Oppermann Kussler, oncologista no Hospital Mãe de Deus.

Casos de neoplasia maligna do colo do útero no Rio Grande do Sul:

 
ano casos
2021 1.661 casos
2022 1.674 casos
2023 1.832 casos
2024 1.426 casos
2025 824 casos

Fonte: painel de oncologia do DataSUS

Uma doença silenciosa

Nas fases iniciais, o câncer de colo de útero, normalmente, é assintomático. A doença começa a se manifestar quando a lesão é mais avançada. Nesses casos, os mais comuns são sangramento e corrimento vaginal anormal, sangramento após a relação sexual, dor pélvica e lombar, além do aumento do volume abdominal e edema de membros inferiores.

O período entre a infecção pelo vírus e o desenvolvimento de um câncer invasivo pode ser longo. “Em geral, se estima que a infecção do vírus, desde o momento que a pessoa se infecta até o desenvolvimento de uma lesão invasora, se passam entre 10 a 20 anos”, relata o ginecologista Marcos Wengrover, da Hapvida.

O diagnóstico é feito pelo exame ginecológico, com biópsia da lesão suspeita e, também, exames de estadiamento, para ver a extensão da doença. A biópsia é complementada com tomografias, ressonância magnética e PET/CT, caso necessário. “O ideal é a gente identificar, em um exame ginecológico de rotina, as lesões pré-malignas, precursores, para que a gente possa abordar da maneira adequada e evitar a progressão dessa dessa alteração para uma neoplasia invasiva”, diz a médica do Mãe de Deus.

Câncer pode ser amplamente prevenido, afirmam especialistas

As diretrizes do Inca e aprovadas pelo Ministério da Saúde recomendam o rastreamento do câncer para pessoas que tenham o colo de útero entre 25 e 64 anos. Apesar do exame de papanicolau ainda ser utilizado, tem sido recomendado o DNA do HPV como rastreio primário, com foco na detecção precoce para redução de mortalidade. A faixa etária recomendada para realizar o exame é dos 25 aos 64 anos.

Detectando o HPV de alto risco (16 ou 18), o indicado é fazer a colposcopia para verificar a existência de doença cervical presente e seguir com a conduta de tratamento específica. Se não for detectado o DNA oncogênico do HPV, o teste pode ser repetido a cada 5 anos.

Prevenção

Trata-se de um câncer que pode ser amplamente prevenido, já que sua origem está em uma infecção viral, de acordo com o ginecologista da Hapvida. Ele explica que, mesmo quando a infecção pelo HPV ocorre, é possível monitorar e tratar lesões antes que evoluam para um tumor. “Uma vez instalada a infecção, ela pode ser acompanhada e, com intervenções, a gente consegue evitar que haja uma progressão para o câncer”.

Os exames preventivos são a principal ferramenta para detectar as alterações precocemente. O Ministério da Saúde recomenda a realização do rastreamento entre 25 e 65 anos. Em alguns casos, como em pacientes imunodeprimidos, transplantados ou com HIV, o início dos exames pode ser antecipado.

Tradicionalmente, o principal método utilizado é o exame citopatológico, conhecido como Papanicolau. Caso sejam encontradas alterações, exames complementares, como a colposcopia, ajudam a confirmar e avaliar a gravidade das lesões.

A vacinação, também. Um estudo realizado entre 2019 e 2023 avaliou dados do Sistema Único de Saúde (SUS) de mais de 60 milhões de mulheres a cada ano, com idade de 20 a 24 anos, para analisar o impacto da vacinação contra o papilomavírus humano (HPV) no Brasil. Os resultados indicaram que tomar a vacina reduziu em 58% os casos de câncer do colo do útero e em 67% as lesões pré-cancerosas graves (NIC3). A pesquisa envolveu cientistas da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), com apoio da Royal Society e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

O SUS oferece dose única gratuita de vacinação para meninos e meninas de 9 a 14 anos. O imunizante também está disponível para grupos prioritários (imunossuprimidos, vítimas de violência) de 9 a 45 anos.

A diferença entre países que investem em vacinação em massa é significativa. Wengrover cita o exemplo da Austrália, onde a cobertura vacinal é alta. “A gente tem três vezes mais câncer de colo de útero do que na Austrália, porque lá investem em prevenção, com uma vacinação em massa, o que não acontece, infelizmente, aqui no Brasil”, disse. Para o médico, um dos fatores de baixa adesão à vacinação é a desinformação. Ainda, a situação socioeconômica, com problemas relacionados a saneamento básico, e que faz com que muitas pessoas acabem mudando seus endereços. “As dificuldades maiores recaem na falta de estrutura e falta de investimento, tanto na prevenção quanto na na questão do diagnóstico precoce”, disse.

Olhar com atenção para o próprio corpo

A pedagoga Marla passou por procedimentos de tratamento oncológico, considerado um processo desafiador. “Ele exigiu muita força emocional, física, mas também, né, por outro lado, a gente foi um período de aprendizado. Sobre a importância de olhar com atenção para a própria saúde”, conta.

Ela acrescenta que isso vale, principalmente, para as mulheres, que devem estar atentas a sinais e sempre fazerem exames periódicos. “Hoje enxergo ainda mais a importância da prevenção e diagnóstico precoce, são fundamentais. Muitos casos de câncer de colo de útero podem ser evitados ou descobertos cedo por meios de vacina contra HPV, e os próprios exames preventivos”, disse.

“Se a minha história puder servir para alertar, incentivar outras mulheres e cuidarem da sua saúde, fazerem seus exames. Não deixarem a prevenção para depois. Saber o quanto é primordial a prevenção, ela salva vidas.”

Informações do Correio do Povo

Foto: Alina Souza

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