Presidente argentino detalha plano de 90 reformas para redesenhar o país em discurso no Congresso
O presidente da Argentina, Javier Milei, afirmou no domingo (1) que deseja uma “aliança estratégica duradoura” com os Estados Unidos, que funcione como “política de Estado”. O anúncio foi feito em um discurso no Congresso, que deu início à segunda metade de seu mandato e no qual prometeu 90 reformas para “redesenhar” o país.
Alinhado geopolíticamente com Estados Unidos e Israel, o governo Milei celebrou no sábado a operação dos dois países contra o Irã. Além disso, renovou as acusações de participação iraniana no atentado contra a mutual judaica AMIA em 1994.
Plano de governo para 2026
Como parte de sua aliança com o ex-presidente Donald Trump, Milei destacou em seu discurso no Congresso que “o Atlântico Sul é o terreno de disputa estratégica das próximas décadas”. Ele afirmou que a Argentina estará em sintonia com os Estados Unidos.
“Rotas comerciais, recursos naturais, soberania marítima e a presença crescente de atores que não compartilham nossos valores. Quem o controlar, controlará uma parte-chave do trabalho global. A Argentina tem que ser este ator”, disse Milei, ao apresentar seu plano de governo para 2026.
“Temos os minerais críticos que o Ocidente necessita. Temos energia, gás, petróleo, energia nuclear e energia renovável para abastecer cadeias de produção em escala”, destacou o presidente. Ele completou: “Temos a localização no extremo sul do continente, com saída para dois oceanos e presença na Antártida”.
Milei anunciou que vai promover “90 reformas estruturais” em 2026, para construir “a arquitetura que o Estado argentino terá nos próximos 50 anos, tendo a moral ocidental como política de Estado”. O presidente argentino disse que apresentará ao Congresso reformas em áreas como economia, impostos, código penal, sistema eleitoral, educação, justiça e defesa, entre outras.
Defesa da abertura comercial
O discurso de quase duas horas marcou o início do novo ciclo legislativo após um 2025 turbulento, marcado por denúncias de corrupção contra funcionários e episódios de instabilidade cambial. No entanto, sua vitória nas eleições legislativas de outubro lhe permitiu ampliar sua presença no Parlamento e avançar com seu programa de governo.
Na sexta-feira, o Congresso aprovou a reforma trabalhista, apesar da rejeição dos sindicatos. “Milei só pode ir para frente”, disse à AFP o cientista político Pablo Touzón. “Seu movimento político é bastante punk, de modo que a agenda de reformas para ele é necessária para sustentar seu modelo econômico”.
O presidente dedicou a primeira parte de seu discurso a criticar o “Estado falido” que disse ter recebido ao assumir o governo de um país “tomado por uma teia inescrutável de regulações”. Ele defendeu a abertura comercial como um dos pilares de seu projeto.
“Após décadas de proteção, obtivemos uma indústria pequena, cara, dependente de subsídios e com salários em dólares raquíticos”, disse Milei, antes de atacar os empresários locais que o criticaram nas últimas semanas por abrir o país às importações, o que afeta a produção nacional.
O discurso foi interrompido em vários momentos por insultos de congressistas da oposição, aos quais respondeu com palavras como “ladrões” e “delinquentes”. Ele fez referência à situação da ex-presidente Cristina Kirchner, em prisão domiciliar por acusações de corrupção.
O apoio eleitoral nas legislativas de outubro, nas quais o partido de Milei – A Liberdade Avança – obteve 40% dos votos, consolidou o poder do presidente, que chegou ao cargo com uma bancada minoritária. Milei é o político que registra o maior índice de imagem positiva no país, com 41,5% de aprovação e 55,3% de rejeição, segundo a consultoria AtlasIntel.
Impacto econômico e social
Desde que sucedeu o governo peronista de centro-esquerda de Alberto Fernández, Milei conseguiu uma forte desaceleração da inflação e um ajuste fiscal. A inflação anual caiu de 211,4% em 2023 – quando desvalorizou o peso pela metade – para 31,5% em 2025, e a Argentina registrou superávit fiscal por dois anos consecutivos pela primeira vez desde 2008.
Mas o ajuste teve custos significativos: queda do consumo, abertura às importações e o fechamento de mais de 21.000 empresas em dois anos, com uma perda estimada de 300.000 empregos, segundo fontes sindicais. A economia do país cresceu 4,4% em 2025, impulsionada pela agricultura e pela intermediação financeira, enquanto a indústria manufatureira e o comércio, dois dos setores que mais geram empregos, contraíram.
Milei “faz as coisas bem, mas para um setor, e não se importa se isso queima outro setor”, afirmou Emanuel, de 29 anos, que trabalha para uma empresa de energia. “O problema é quando é a maioria que ele deixa em situação ruim”, disse à AFP.







