Post: Pesquisa gaúcha avança no controle biológico do carrapato bovino

O avanço do carrapato bovino tem preocupado produtores rurais e especialistas em sanidade animal no Rio Grande do Sul. O aumento da resistência aos produtos químicos usados no combate ao parasita e as mudanças climáticas têm agravado o problema nas propriedades gaúchas. Diante desse cenário, uma pesquisa desenvolvida pelo Instituto de Pesquisas Veterinárias Desidério Finamor (IPVDF) aposta no controle biológico aplicado nas pastagens como alternativa para reduzir a infestação nos rebanhos.

A médica veterinária e coordenadora de Defesa Sanitária Animal da Emater/RS-Ascar, Thaís Michel, explica que o trabalho de orientação aos produtores ocorre há mais de uma década em parceria com o IPVDF. Segundo ela, o foco da atuação envolve educação sanitária, capacitações técnicas, acompanhamento em propriedades e ações de monitoramento da resistência dos carrapatos aos carrapaticidas.

De acordo com Thaís, o principal desafio atual é a perda da eficiência dos produtos químicos usados no controle do parasita. “Hoje, praticamente todas as propriedades já apresentam algum grau de resistência aos carrapaticidas. O uso repetido do mesmo princípio ativo e as aplicações fora do período adequado acabam selecionando e potencializando os carrapatos resistentes”, afirma.

Ela destaca que o ciclo do carrapato favorece a rápida multiplicação da infestação. Cada fêmea pode depositar até três mil ovos no solo. Parte do ciclo ocorre no animal, mas a grande infestação se dá nas pastagens, onde os ovos se desenvolvem até o momento em que as larvas voltam a subir no gado.

Segundo a veterinária, o clima também influencia no aumento da população do parasita. Os invernos menos rigorosos e os períodos prolongados de calor reduzem o intervalo natural de controle provocado pelas baixas temperaturas. “O frio intenso costumava interromper o ciclo do carrapato durante o inverno. Hoje, com essa instabilidade climática, esse período ficou menor e favorece a sobrevivência do parasita”, explica.

Outro fator que contribui para a incidência da doença no Estado é o perfil genético dos rebanhos gaúchos. Raças taurinas, predominantes no Sul, apresentam maior suscetibilidade ao carrapato em comparação às raças zebuínas, mais comuns em outras regiões do país. Como estratégia, a orientação técnica inclui o cruzamento genético para aumentar a resistência natural dos animais.

Controle biológico em estudo

Diante da limitação dos métodos tradicionais, o controle biológico passou a ganhar espaço nas pesquisas conduzidas pelo IPVDF. O médico veterinário, pesquisador e diretor do Instituto, José Reck, explica que o método utiliza microrganismos presentes no próprio solo para combater os carrapatos nas áreas de pastagem. “O controle biológico baseia-se no uso de inimigos naturais do parasito. Coletamos microrganismos do solo e identificamos aqueles com capacidade de eliminar os carrapatos, sem causar danos aos bovinos ou às pessoas”, relata.

Após a seleção em laboratório, os fungos e bactérias são multiplicados em larga escala e aplicados nas pastagens em formulação líquida. A proposta é atingir justamente a fase do ciclo em que o carrapato permanece no ambiente, antes de retornar ao animal.

José Reck afirma que a principal diferença em relação ao controle químico está no comportamento evolutivo dos organismos envolvidos. Enquanto os produtos químicos permanecem iguais ao longo do tempo, os microrganismos usados no controle biológico também evoluem, acompanhando as mudanças dos carrapatos. “Quando usamos drogas químicas repetidamente, acabamos selecionando os indivíduos resistentes. Já no controle biológico, microrganismos e carrapatos evoluem juntos”, explica.

Os primeiros resultados obtidos em propriedades acompanhadas pelo IPVDF são considerados promissores. Segundo o pesquisador, áreas tratadas já apresentam redução na quantidade de carrapatos, embora os dados ainda estejam em fase de análise científica.

A expectativa é que a tecnologia possa chegar aos produtores rurais nos próximos anos, por meio de empresas do setor de bioinsumos. “O papel do Instituto é validar a tecnologia. Depois disso, cabe ao setor privado produzir e levar essa solução até o campo”, afirma Reck.

Enquanto a pesquisa avança, a Emater/RS-Ascar reforça junto aos produtores a importância do manejo preventivo, do uso correto dos produtos e da redução de produtos químicos no combate ao carrapato bovino. Para Thaís Michel, a nova tecnologia representa uma possibilidade concreta de mudança no enfrentamento de um problema que se intensifica a cada ano no Estado.

Foto: Arquivo IPVDF

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