Post: QUINZE QUILOS DE PATRIMÔNIO CULTURAL IMATERIAL 

Não engordei, incorporei cultura digestiva ao patrimônio pessoal

Pensa numa pessoa que não comia frituras, moderava muito nos carboidratos e fazia pequenas refeições ao dia, geralmente com frutas, verduras, saladas e muitos frutos do mar.

Um dia essa pessoa vai de mala, tarrafa e cuia morar na Serra Gaúcha, pra ser mais exata, em Caxias do Sul.

Muitos choques vivenciais à parte com as novas culturas sendo experimentadas, até o dia em que a pessoa sobe na balança, e o choque é de realidade mesmo.

Quinze quilos de puro prazer culinário adicionados ao corpo, foi o resultado.

Não vou culpar os agnolines, que descongelaram afogados naquele brodo suculento de especiarias, frango e carne com osso, servido com crem e queijo parmesão ralado. Não, eles são apenas a ponta do iceberg dessa história deliciosa.

Os galetos marinados em sálvia e outros temperos, assados ou grelhados, não tem as calorias necessárias para tanta oscilação da balança, mesmo sendo devorados em quantidade industrial, com aquela crosta crocante e cheiro inconfundível de cozinha italiana.

No alto da lista de suspeitos, a polenta frita e o macarrão com molho de moela. Saborosos, calóricos, consistentes. A polenta dourada de casca firme e miolo mole, às vezes como um kinder ovo, cheio de queijo derretido surpresa por dentro. E o macarrão, caseiro e al dente, besuntado naquele molho vermelho com partes de moela macia. Impossível esses dois não terem contribuído para o crime.

Mas eis que chega a notícia de que o X e o Bauru de Caxias do Sul foram reconhecidos pelo governo do Rio Grande do Sul como patrimônio histórico e cultural. Sim, acareação feita e suspeitos reconhecidos e enquadrados pela Lei Nº 16.478 do Deputado Burigo.

Os meliantes culinários agem emparceirados, viciando o usuário comilão aos poucos e alternadamente. Um dia você sente a vontade incontrolável de comer aquele Xizão farto, com maionese verde e fritas. No outro, pra variar, apetece um Bauru, o filé dos filés, com molho vermelho e verde e muito capricho na confecção, porque se não for bom, aqui não se estabelece !!

Ao final da minha investigação, descobri que a culpada era eu, que sendo nova na cidade resolvi comer tudo-ao-mesmo-tempo-agora, incluindo os queijos, vinhos, grostoli, torteis, sopa imperial e sagu com creme.

Não carrego nenhuma grama de arrependimento nos quilos adquiridos, com quem já criei uma memória afetiva.

E sobre o vídeo da prefeitura com as frutas e as estrelas-patrimônio-imaterial, não sei o que dizer, mas isso não interessa, porque afinal a gente veio aqui pra comer, não pra julgar.

Ilustração: Iotti

 

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