Post: Reforma Tributária pode chegar ao preço do carrinho de compras

A Reforma Tributária do consumo começa a sair do debate técnico e entra na formação de preço das empresas.

Em 2025, a carga tributária bruta do governo geral chegou a 32,40% do PIB, segundo o Tesouro Nacional, enquanto uma pesquisa da Confederação Nacional da Indústria mostrou que 77% dos empresários industriais acreditam que o Custo Brasil aumenta os preços finais pagos pelos consumidores.

A combinação ajuda a explicar por que a mudança nos tributos sobre consumo pode chegar ao carrinho de compras nos próximos anos.

Para André Fantoni, especialista em ICMS e Reforma Tributária, professor, estrategista tributário e CEO da Fantoni Assessoria Tributária, empresa especializada em planejamento tributário, auditoria de ICMS, compliance fiscal e recuperação de créditos tributários, o impacto para o consumidor não será uniforme.

Setores com maior volume de insumos tributados e melhor aproveitamento de créditos podem ganhar competitividade.

Já empresas com pouca geração de crédito, margens apertadas ou falhas de cadastro fiscal tendem a enfrentar mais dificuldade durante a transição.

“A Reforma Tributária vai mexer diretamente na forma como as empresas calculam preço, margem e crédito. O consumidor pode não perceber isso de imediato, mas qualquer erro na operação fiscal pode aparecer no preço final do produto ou na perda de competitividade da empresa”, afirma o especialista.

Reforma Tributária entra na rotina das notas fiscais

A partir de 2026, contribuintes passaram a emitir documentos fiscais eletrônicos com destaque da Contribuição sobre Bens e Serviços e do Imposto sobre Bens e Serviços, de acordo com orientação da Receita Federal.

Neste ano, a alíquota do teste é de 1%, formada por 0,9% de CBS e 0,1% de IBS, dentro da fase de adaptação do novo modelo de tributação sobre o consumo.

Segundo o Comitê Gestor do IBS, empresas do regime regular não poderão emitir documentos fiscais eletrônicos sem o preenchimento dos campos relativos ao IBS e à CBS. Todos os documentos deverão conter os novos campos, incluindo a alíquota teste de 1%.

Na avaliação do especialista, esse ponto muda a urgência do tema. “A Reforma Tributária deixa de ser uma pauta distante quando passa a bater na emissão da nota fiscal.

Se o cadastro do produto estiver errado, se a classificação fiscal estiver defasada ou se o sistema não estiver preparado, a empresa pode gerar informação incorreta e tomar decisão comercial com base em número distorcido.”

Crédito tributário pode definir quem ganha margem

O novo sistema busca reduzir a cumulatividade, problema comum no modelo atual, em que tributos se acumulam ao longo da cadeia produtiva.

Na prática, o impacto sobre o preço final dependerá de como cada empresa compra, vende, toma crédito, repassa custo e negocia com fornecedores.

Indústria, atacado, varejo e parte do agronegócio podem ter efeitos diferentes, mesmo quando vendem produtos semelhantes. Uma empresa que consegue aproveitar créditos de forma correta pode ter mais espaço para proteger margem ou reduzir preço.

Outra, com cadeia menos creditável ou gestão fiscal frágil, pode ter menos margem para absorver alterações de carga.

“Não existe uma resposta única para dizer que a Reforma Tributária vai baratear ou encarecer tudo. O efeito depende do setor, do regime, da cadeia de fornecedores, dos créditos disponíveis e da capacidade de repasse. Dois negócios do mesmo segmento podem chegar a resultados muito diferentes”, diz o estrategista.

Preço ao consumidor depende de mais do que imposto

Embora o debate público costume associar reforma tributária a aumento ou queda de preço, Fantoni afirma que a formação do valor final envolve variáveis que vão além da alíquota.

Logística, mão de obra, estoque, concorrência, contratos, prazo de pagamento e poder de compra do consumidor também entram na conta.

Além de apontar que 70% dos empresários industriais veem a carga tributária como o principal problema do Custo Brasil, o levantamento indica que a maioria percebe reflexo direto desses custos no valor pago pelo consumidor.

“Preço não é só imposto. A tributação influencia, mas a decisão final envolve operação, margem, fluxo de caixa e estratégia comercial. A empresa que olhar apenas para a alíquota pode errar. O ponto central é entender como a Reforma Tributária altera a composição do custo”, afirma o CEO.

Empresas precisam revisar sistemas e contratos

Durante a transição, o planejamento tributário passa a ter efeito direto sobre a área comercial.

A recomendação é revisar cadastros fiscais, sistemas de emissão de nota, contratos com fornecedores, classificação de produtos, créditos acumulados, regimes especiais e política de preços.

Segundo o profissional, a adaptação deve envolver contabilidade, jurídico, financeiro, tecnologia e vendas. O risco está em tratar a mudança apenas como obrigação fiscal, quando ela também pode afetar caixa, competitividade e relação com o consumidor.

“A Reforma Tributária exige uma leitura estratégica. Quem se preparar antes poderá simular cenários, proteger margem e evitar repasses desnecessários. Quem deixar para ajustar depois pode descobrir tarde que estava vendendo com preço errado”.

 

Foto: Getty Images

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