Gestão apresentou, nesta terça-feira (14), dados alarmantes sobre suicídios e tentativas, além de outras estatísticas, e pontuou ações que já começaram e se intensificarão nas próximas semanas
O maior Cuidado em Saúde Mental do Rio Grande do Sul, que ocorrerá em Caxias do Sul, teve lançamento na tarde desta terça-feira (14) pela Prefeitura, por meio da Secretaria Municipal da Saúde (SMS). A apresentação ocorreu na Câmara Municipal e está gravada nas plataformas oficiais do Legislativo.
Em sua fala, o secretário municipal da Saúde, Rafael Bueno, apresentou os motivos do mutirão de saúde mental e as principais propostas. Em seguida, trouxe dados alarmantes sobre as listas de espera, a partir de um levantamento minucioso feito na SMS. Na Psicoterapia Infantil, 1.593 aguardam, sendo que na adulta são 3.287, totalizando 4.880. Já no caso da Neurologia Infantil, são 4.651 e 4.973 adultos, chegando a 9.624 a fila. Na Psiquiatria Infantil, são 710 e 3.545 adultos, somando 4.255.
Os usuários que aguardam há mais tempo estão na psiquiatria infantil (junho de 2025) e adulto (janeiro de 2024); na psicoterapia infantil (junho de 2024) e adulto (abril de 2024). Já no na neurologia infantil, o mais antigo é de março de 2023 e, na adulto, outubro de 2022.
Na situação dos leitos psiquiátricos, há 143 disponíveis em Caxias do Sul, sendo na Clínica Paulo Guedes (100), no Hospital Virvi Ramos (20), na Clínica de Repouso (15) e no Hospital Geral (8 leitos). Em 2025, a média ficou em 91% de ocupação.
Um dos dados mais graves tratados pelo secretário da Saúde foi na questão dos suicídios e tentativas no Município, em 2025. Estatísticas da SMS apontam que 277 pessoas tiraram a vida na cidade desde 2021. As tentativas chegaram a 469 casos, sendo 325 mulheres e 144 homens. Entre crianças e adolescentes, foram 126 tentativas, chegando a quase 27% do total.
Outra situação alarmante está relacionada aos atendimentos realizados apenas pelo Serviço Móvel de Urgência e Emergência (SAMU), que não se refere, necessariamente a casos de tentativas de suicídio. Foram 2.473 atendimentos psiquiátricos no ano passado, ou em média sete casos por dia. O registro é que a maioria é de homens (53%) e 75% entre 19 e 60 anos. Os maiores casos ocorreram na Zona Norte (29%) e Oeste (28%). As crises de ansiedade e pânico lideraram as ações realizadas pelo SAMU, com 439 situações, seguidos pelos surtos psicóticos (363).
O secretário também lembrou dos diagnósticos que foram feitos a partir dos dados alarmantes, o que afeta boa parte da população, ações tomadas, parcerias que foram firmadas e seguirão sendo executadas em diversas frentes. Entre as ações práticas, estão as emendas já buscadas com os deputados Daiana dos Santos (R$ 500 mil), Denise Pessôa (R$ 440 mil) e Lucas Redecker (R$ 400 mil), além de contratos com a UCS, FSG, Círculo Saúde, Instituto Amor em Cuidar e Clínica de Repouso.
Citou a descentralização dos psicólogos, que passaram de dois para 10 nos atendimentos nos territórios (UBSs), melhorando e otimizando o trabalho também visando a redução das filas de psicoterapia.
Por fim, também comentou sobre as parcerias firmadas:
“Estamos em busca de mais emendas parlamentares com apoio de vereadores, elaboração de estratégias para investimentos e otimizações, projetos junto ao Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente (Comdica), sobre prevenção ao suicídio, ações com o Judiciário e o Ministério Público, readequação e remanejo de servidores treinados e ações voltadas na melhoria da saúde mental em todas as esferas de governos, empresas, ONGs e demais entidades.”
O Prefeito Adiló Didomenico falou em seguida. “O que me preocupa e chama a atenção, secretário Rafael, é esse número que estamos anunciando aqui, infelizmente. Se a sociedade não nos ajudar, imprensa… muitas pessoas vão faltar. Essa é a estatística hoje. Então eu faço um apelo, precisamos mudar isso. Se as pessoas tivessem mais cuidado e responsabilidade, a fila já estaria zerada, só com os que faltaram. Porque quando alguém marca e não vem, não é só um, é dois, pois ele tira a vaga de outro. Na história do Rio Grande do Sul, esse aqui é o maior mutirão de saúde mental já realizado, isso vai ficar na história. É algo tão pontual, mas que hoje, mais do que nunca, a saúde mental tem que ser olhada e observada. Adoecer mentalmente causa prejuízos sérios ao longo do tempo, algumas vezes inclusive irreversíveis, afetando o ensino, a família, o trabalho. É uma doença que causa problemas em todo o seu ambiente, não apenas a pessoa que sofre. Por isso que é tão importante esse mutirão”, ressaltou o chefe do Executivo.
Na sequência, pronunciou-se a defensora pública Letícia Ana Basso, que trata da área da saúde. “Quero parabenizar que dentro da saúde mental está sendo tomada essa iniciativa, mas sabemos ainda que há bastante problemas pra enfrentar dentro dessa realidade. A Defensoria Pública conhece essa dificuldade de perto, são centenas, se não milhares de pessoas no Estado todo que atendemos, que batem à nossa porta e buscam a concretização desses direitos. A gente vê de perto essa angústia, sofre a dor da população, como o secretário disse… Uma iniciativa como essa é fundamental, quando o poder público encontra uma saída de parceria com a sociedade civil e instituições comprometidas, ela encontra caminhos pra resolver isso de forma administrativa e isso é muito mais do que reduzir uma fila, é concretizar um direito”, discursou.
Após, a promotora de Justiça Fernanda Soares. “Nós, no dia a dia, como promotores de justiça, atuando não só diretamente na área da saúde, mas nas mais diversas áreas da infância e juventude, dos idosos e do atendimento público em geral, visualizamos essa carência de uma atenção mais próxima dos indivíduos nessa área de saúde mental. É muito importante a conscientização das pessoas, como ressaltou o prefeito, no sentido de não faltar, de toda a sociedade aderir a essa iniciativa. Eu percebo uma grande resistência e um grande preconceito das pessoas em relação à área de saúde mental… Esta é uma oportunidade de ter um acompanhamento em saúde de mental que tanta gente gostaria de estar neste lugar. Então que se possa tratar essas questões com mais leveza”, destacou.
Diretor da Clínica de Repouso, o psiquiatra Rimon Hauli, ressaltou a importância das parcerias público-privadas. “Junto com o setor público é um dos momentos sublimes, poder retribuir tudo o que o povo de Caxias nos trouxe. Todos nós temos que abraçar a causa da população mais necessitada. Esse é o momento, com todos esses dados aí. E está no momento também de nós não ficarmos olhando e só a Prefeitura fazer…Mas também participar junto, abraçar essa causa da saúde mental. Esse é o momento de contribuir juntos. Esse programa de valorizar a saúde mental é um momento ímpar de todos nós”.
Também compuseram a mesa principal a presidente da Comissão de Saúde da Câmara Municipal, vereadora Estela Balardin, que abriu o evento, o diretor do Instituto Amor em Cuidar, Nikolas Hauli, o neurologista Marcelo Frigeri e a presidente do Conselho Municipal de Saúde, Samanta Nascimento. O frei Jaime Bettega se pronunciou com palavras de esperança aos presentes. Autoridades locais, servidores da SMS e comunidade também marcaram presença no evento.
Foto: Gisele Nozari







