Mostra a sua que eu mostro a minha.

Começo a coluna com um desafio. Você tem, já teve ou em algum momento da vida vai ter uma lista.

Eu tenho várias, assim como tenho uma relação de amor e ódio com elas.

Trabalhei numa empresa americana que obrigava os funcionários (independente do cargo) a preencher “foguetinhos” diários. Era um sistema de lista em forma de foguete que um consultor coach implantou. Todos os dias, em cada setor, antes do almoço e antes do final do dia, a gente lia e ouvia uma lista das tarefas individuais que haviam ou não sido cumpridas, o porquê do sim ou não, quando seria cumprida e o que iria para o foguetinho do dia seguinte. A base do foguete eram tarefas complexas, o miolo as gerais e o bico as urgentes e que deveriam sumir magicamente na estratosfera delirante do CEO. Eu conto ou eu conto? Virou um inferno, foguetinhos de jardim de infância, arquivos gigantescos impressos na pasta de cada funcionário no RH e uma peeeerca de tempo que fez das minhas listas, que antes eram prazerosas, um tormento. Olhando pra trás, fico entre o riso nervoso e a incredulidade.

As listas pessoais, que faço pra lembrar de coisas que meu HD interno sobrecarregado não processa mais, são prazerosas quando elimino uma tarefa, mas também muito cruéis comigo e complexas. Nunca acaba e mistura tarefas que vão de comprar cola super bonder a reformar a casa e o mundo.

Listas são úteis, são a lembrança de tarefas importantes ou apenas indicações. Um paradoxo tão necessário quanto complexo. Se era tão importante, como podemos esquecer? E como não criar um mecanismo de lembrança quando perdemos um compromisso ou tarefa por esquecimento ou sobrecarga?

Nas minhas listas pessoais favoritas estão as de filmes, séries, livros, música e lugares no mundo. Não dou conta e não carrego a culpa de saber que ela está sempre aumentando e nem vai ser finalizada, nunca.

Tem as listas traumáticas, do mal, que fazem bullying. Lembro quando morei durante 1 ano numa cidade do interior, onde quase todo mundo se conhecia e o grau de separação entre as pessoas era de 1 ou 2, no máximo. A fofoca rolava solta, até que começou a moda das listas. Listas de quem traía. Lista de quem era homossexual. Lista de quem tinha segredos ou tinha feito procedimentos estéticos. Enfim, um bullying impresso e não auditável, porque naquela época as listas eram anônimas. Não importava se quem estava listado era o que se dizia, importava rir de escolhas ou da vida pessoal alheia. Era uma ‘brincadeira’ bullying de extremo mau gosto, e num determinado momento evoluíram na maldade e passaram a ser usadas também pra falar maldosa e falsamente de concorrentes nos negócios.

Corta daquela década de 80 pra hoje. Brasil, 2026, mundo pós-apocalíptico-eleitoral, com ânimos acirrados e resultado que, democraticamente, elegeu um dos candidatos. E eis que as listas voltam a circular, dessa vez digitalmente, nada anônimas, mas com o mesmo bullying, mau gosto e irresponsabilidade.

Listas que apesar de incluírem cara, @ e motivo, são no conteúdo mais antiquadas e rancorosas do que as de antigamente.

Boicote a locais/comércio/indústrias, demissão de funcionários e sabotagem na prestação de serviço se o listado for do partido oposto. Listas contemporâneas com mentalidade pré-histórica, que visam prejudicar pessoas que apoiaram um candidato diferente de quem criou a lista.

Sobre isso, só posso dizer: maaaá vão carpir um lote, vão agir como pessoas racionais e adultas.

Ganhar e perder são sim dois lados da mesma moeda, e aprender a perder, apesar de dolorido, faz parte da democracia.

Se sentir uma vontade incontrolável de fazer uma lista, comece com uma de atitudes que podem fazer você, sua família e sua comunidade melhorar; mas lembre-se, com ações e não palavrões ou boicote.

Se você acha que dá muito trabalho, deixe isso para quem realmente se importa e comece uma lista de supermercado, depois vá aumentando para uma lista de livros _ pra ler, não pra boicotar Estática, até chegar a maturidade de listas relevantes de políticas públicas para a coletividade e não uma de raivas individuais.

Em tempo: Se você, individualmente, não quiser consumir, contratar, frequentar um local pelo posicionamento politico de alguém, você tem todo direito. Criar listas de boicote, especialmente de pequenos negócios, apenas pela posição politica destes e não pela qualidade do serviço ou produto, requer que você frequente algumas aulas de história, legislação* ou terapia.

* A divulgação de listas para boicotar comerciantes e profissionais por suas posições políticas pode gerar responsabilização civil e criminal, especialmente quando envolve ameaças, intimidação ou perseguição reiterada. Fonte: https://www.migalhas.com.br/quentes/467452/listas-de-boicote-a-comerciantes-podem-configurar-crime

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