Spoilers lhe aguardam neste texto.
O fim da Era do Bronze pode ser definido como traumático. Gregos, Hititas, Egípcios, entre outros povos do Mediterrâneo, sucumbiram, praticamente ao mesmo tempo, por motivos ainda debatidos por historiadores.
Textos egípcios da época culpam o Povo do Mar. Invasores sem nome ou etnia, pois ninguém sabe quem eles foram, que causaram uma série de ataques brutais e violentos. Os gregos foram, talvez, os mais afetados.
A Grécia entrou num colapso que durou séculos. O comércio a longa distância foi extinto, palácios e fortalezas viraram cinzas, a economia centralizada deixou de existir, foi o fim da arquitetura, da elegante arte com afrescos e ouro, e a escrita Linear B foi erradicada.
A Grécia voltaria a ter uma escrita séculos depois, graças aos fenícios.
Portanto, a tradição oral teve um papel vital na cultura deste povo. As grandes histórias dos gregos só sobreviveram graças aos Aedos. Esses bardos gregos cantaram os grandes contos e histórias em banquetes, festas religiosas e ao redor de fogueiras por quase 400 anos até que elas pudessem ser registradas em palavras.
Graças a esses poetas, o mundo conheceu o relato épico de Odisseu e sua angustiante volta para casa após a Guerra de Troia. Apesar de ter seu compilador definitivo na figura de Homero, foi graças a estes poetas, com trejeitos de cantores, que o conto não se perdeu.
E graças a Homero, o conto escrito, compilado em 24 livros, sobreviveu por mais de 3.000 anos e virou tema de estudo em academias. E foi numa dessas academias, a University College London (UCL), que um jovem Christopher Nolan foi severamente impactado pela Odisseia.
Antes de ser o diretor de cinema agraciado com o Oscar, Nolan foi um jovem obcecado por cinema, tendo como seu filme favorito da infância o clássico “2001: Uma Odisseia no Espaço”. Sim, bem peculiar, mas que já indicava o tipo de diretor que Nolan seria.
Durante o curso de Literatura Inglesa, Christopher leu, pela primeira vez, o livro que seria base para todo o seu estilo de direção. A Odisseia é um conto épico, grandioso, beirando a megalomania, sobre memória, entre muitos temas, contado de forma não linear. E isso é basicamente um resumo da filmografia de Christopher Nolan.
Memento, Batman Begins, O Grande Truque, Oppenheimer, Interestelar são exemplos perfeitos disso. Filmes gigantescos, onde histórias épicas são contadas, em linhas do tempo bagunçadas, tratando sobre como a memória das pessoas lida com seus traumas, eventos e atos.
Ou seja, Christopher Nolan era o diretor perfeito para pôr na tela dos cinemas o que os Aedos e Homero lutaram séculos para preservar.
E essa história está no radar de Nolan há muito mais tempo do que se imagina.
Quando o estúdio Warner estava querendo tirar do papel o filme “Troia”, sim, aquele com Brad Pitt, Nolan foi um dos diretores sondados para o projeto. Mas, para o bem de todos, isso não aconteceu. O escolhido foi Wolfgang Petersen, do clássico da década de 1980, “A História Sem Fim”. E isso foi ótimo, pois Petersen teve um grande épico no seu currículo, e Nolan pôde fazer o filme que mudaria a sua carreira, o já citado Batman Begins.
Mas a ideia não saiu da cabeça do diretor.
Nas minhas pesquisas, eu não achei nada sobre o próprio Nolan falar que estava esperando o momento certo da sua carreira para filmar a Odisseia, mas eu intuo que isso aconteceu.
O seu filme anterior, Oppenheimer, foi um sucesso absoluto de público, crítica e premiações, arrematando sete Oscars, entre eles o de melhor diretor e o de melhor filme do ano. Esse nível soberbo de êxito colocou Nolan no topo.
Hoje, Nolan é o diretor mais disputado entre os atores de renome. Seu status lembra o de Steven Spielberg nos anos 1980 e 1990: ao anunciar um filme novo, os atores mais renomados do momento disputam um papel quase que no tapa. Notem o elenco de Odisseia: intérpretes de personagens coadjuvantes são protagonistas de franquias bilionárias. Né, Tom Holland e Zendaya?
Eu acho que esse status deu a Nolan a confiança de filmar o livro que mudou a sua vida da forma que lhe parecia a mais correta. E ele não poupou esforços para fazer isso. Odisseia é o primeiro filme totalmente filmado em IMAX, tecnologia difícil de usar pelo tamanho e barulho que as câmeras fazem. Nolan filmou o máximo que pôde em locações reais e usou o máximo de efeitos práticos que as suas ideias permitiram.
Claro, características comuns ao estilo de Nolan fazer os seus filmes estão presentes. Como o realismo. Nolan não faz versões açucaradas e interpretadas dos deuses. Eles são vistos e interpretados como eram pelos gregos antigos: Zeus está nos relâmpagos, Poseidon vive nas tempestades brutais. A única diferença é Atena. Aqui, a Deusa da sabedoria ajuda Sinon a escancarar a crueldade do protagonista.
Nolan queria honrar o conto o máximo possível. Lógico, modificações foram necessárias, mas até isso impacta a história imortalizada por Homero e em como nós somos apresentados a ela no filme.
O diretor fez questão de usar a edição de 2017, traduzida e adaptada por Emily Wilson. Nesta edição, a autora utiliza o inglês moderno (seu idioma natal), a linguagem mais coloquial possível. E isso é genial por um motivo muito simples: por séculos, a Odisseia foi contada através de uma linguagem rebuscada e formal. Séculos de domínio cultural elitizado transformaram o conto em algo destinado a intelectuais e catedráticos.
O que não poderia estar mais afastado da obra original.
Ao usar o inglês que é falado no cotidiano, Emily Wilson devolveu a Odisseia para o povo comum, que sempre foi o público-alvo dessa história.
Nolan representa isso na figura do rapper Travis Scott, que interpreta um Aedo. Sim, amigos: o rap é extremamente próximo da Odisseia, pois reflete e conta histórias de pessoas comuns. Scott é a voz que narra os feitos de Odisseu dentro da própria casa do herói, Ítaca.
Outra escolha do diretor foi acentuar um tema que ficou um pouco mais escondido na obra original.
E aqui entramos de vez no filme de Christopher Nolan.
A Odisseia é o tipo de obra que trabalha uma série de assuntos em um único exemplar, e Nolan optou por dar atenção a dois que lhe são caros: a memória e o que ela pode causar nas pessoas. Nolan transforma Odisseu em um sobrevivente marcado pelos horrores que cometeu, em dez anos de uma guerra que só existiu por causa da vaidade dos homens.
Nós acompanhamos o que acontece com uma pessoa quando a sua memória é boa demais para ignorar os horrores e traumas que sofreu.
O Odisseu do filme é afetado pelo estresse pós-traumático muito comum em soldados modernos. O que aflige o protagonista de Nolan não é o que fizeram a ele, e sim o que ele impôs aos outros. E um símbolo disso é o Cavalo de Troia, maior façanha de Odisseu.
Os personagens de Homero e de Nolan são guiados pelo princípio da xênia, a Lei de Zeus. Essa lei dita que um anfitrião deve tratar bem um estranho que bate à sua porta, pois este pode ser um deus disfarçado.
Para os gregos antigos, a xênia era a lei máxima.
Penélope, interpretada por Anne Hathaway, está em chamas nesse ano, suporta os seus vários pretendentes, homens oportunistas e aproveitadores que estão de olho no reino de seu marido, para não quebrar esta lei. Telêmaco, interpretado por Tom Holland, é recebido por Menelau, Jon Bernthal, mais um que está tendo um excelente ano, para falar de uma guerra que machuca seu ego por causa dessa lei.
Mas o ponto de discórdia nesse padrão é o próprio Odisseu.
Todos nós sabemos a história: Odisseu, num vislumbre de genialidade concedido pela Deusa Atena, cria uma forma de o exército grego adentrar os portos de Troia.
O que nós nunca tínhamos visto, e coube a Nolan a tarefa de explorar isso, é que o Cavalo de Troia é uma traição cruel, malévola e hipócrita ao princípio da xênia. Odisseu cria uma jogada suja, na forma de um tributo à Deusa Atena, Deusa cultuada por gregos e troianos, para adentrar os portões da cidade.
O Cavalo de Troia, famoso por ser um ato de genialidade e estratégia militar, na verdade, não passa de uma artimanha covarde que profana a cultura de uma nação inteira.
A artimanha de Odisseu causa o massacre cruel de uma civilização inocente, presa numa guerra que só existe por causa do ego de homens que se acham senhores do destino de outros.
E é nesse ponto que eu explico o meu título: quando eu assisti ao filme A Paixão de Cristo, dirigido por Mel Gibson, eu fiquei impactado pelo que o diretor havia feito. Pela primeira vez eu estava vendo um filme que colocava em tela o que estava em texto: o quão brutal foi o ato da crucificação.
A violência mostrada por Gibson não é gratuita: chicotadas com ganchos de ferro nas pontas, bordoadas com madeira maciça, pregos nas mãos e nos pés, coroa de espinhos, nada disso é sutil, é tortura na sua essência mais dantesca.
Mel Gibson foi o único roteirista e diretor que nos fez sentir o que Jesus passou. E Nolan faz o mesmo em seu filme.
Existem muitos filmes sobre a Queda de Troia, quase tantos quantos sobre a Crucificação de Jesus, mas, pela primeira vez, nós sentimos a dor da cidade morrendo.
Nolan explora o massacre de Troia sem romantismo ou glória: é brutal, violento, mesquinho e hediondo. Mulheres, crianças, idosos e soldados são mortos porque um príncipe egoísta leva a esposa de um rei vil, irmão de um rei ganancioso que só quer a oportunidade de controlar as rotas de comércio, para a sua cidade. E a pior parte, nós escutamos os seus últimos gritos.
O som da comemoração do exército grego, tão comumente retratado como uma música épica e triunfal, aqui é retratado pelo grito de horror das vítimas da cidade caída.
Nolan mostra o real resultado da guerra, tanto na figura das vítimas quanto dos algozes. Odisseu sabe o que fez e sabe o porquê de a sua volta para casa ser uma punição.
Nolan dá a sua versão para a resposta da pergunta: “quem é o Povo do Mar”. Odisseu faz parte desse povo. Odisseu e seus soldados, brutalizados pela batalha, vão de ilha em ilha matando e roubando. Polifemo, Calipso, Circe são metáforas e reflexos para o comportamento do protagonista. Como você espera ser bem-vindo, se o seu ato mais famoso é o responsável pela morte da nossa lei mais sagrada?
A resposta dessa pergunta vem quando Odisseu finalmente aporta em Ítaca e percebe que seu ato está vitimando todos os que ele alegou estar protegendo, pois A Odisseia sempre foi um relato do fim da Era do Bronze, que, como eu disse, só pode ser resumido como “traumático”.
Christopher Nolan nos entregou o evento cinematográfico do ano, até o momento. Odisseia é o tipo de filme que vira referência do gênero em que está inserido. Só resta uma pergunta: o que Nolan está guardando na sua manga?



