O mercado de apostas online voltou ao centro do debate no Brasil em meio ao aumento do endividamento das famílias e à preparação de uma Medida Provisória pelo Governo Federal para restringir a atuação de plataformas de bets e cassinos online.
Um estudo conduzido pelo economista Sérgio Firpo, professor universitário e pesquisador encontrou uma relação entre o início das apostas e a piora da situação financeira dos consumidores. A pesquisa comparou pessoas que fizeram a primeira aposta a partir de janeiro de 2025 com consumidores que nunca gastaram dinheiro em plataformas de apostas.
Doze meses após a primeira aposta, a inadimplência era 20% maior entre os apostadores. Considerando especificamente as faturas atrasadas do cartão de crédito, a diferença chegou a 38,7%.
O levantamento também aponta que, para um em cada dez apostadores, pelo menos 20% do dinheiro que sai da conta é destinado a jogos de azar. Nos seis primeiros meses após o início das apostas, 82,5% dos jogadores não receberam nenhum recurso de volta das plataformas. Já 90,8% transferiram mais dinheiro para as bets do que receberam delas no período.
Os consumidores mais jovens são os que destinam uma parcela maior da renda às apostas e também estão entre os mais afetados pelo aumento do endividamento, segundo a pesquisa.
Mercado de apostas
As apostas online ganharam escala no país nos últimos anos. Segundo dados do Banco Central, cerca de 25 milhões de brasileiros utilizam plataformas de apostas. O fluxo financeiro movimentado pelo setor chegou a ser estimado em até 30 bilhões de reais por mês em 2026.
Ao mesmo tempo, a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), da Confederação Nacional do Comércio (CNC), apontou que 82% das famílias brasileiras declararam ter algum tipo de dívida em julho e agosto de 2026. O percentual supera os 80,9% registrados em abril e representa o maior nível da série histórica recente, conforme os dados apresentados no levantamento.
Para o especialista de negócios Marco Afonso, o impacto das apostas pode ultrapassar o dinheiro diretamente destinado às plataformas.
“Os números mostram que não se trata apenas do dinheiro perdido nas apostas, mas de um efeito que pode se estender para outras áreas da vida financeira. O aumento da inadimplência, dos atrasos no cartão e a redução do limite de crédito indicam que o impacto das bets pode comprometer a capacidade de pagamento do consumidor no médio ou longo prazo”, afirma.
Afonso também aponta que o comprometimento da renda com apostas pode reduzir a margem disponível para despesas do dia a dia e imprevistos.
“Quando uma parcela relevante da renda passa a ser direcionada às apostas, o consumidor reduz sua margem para lidar com despesas recorrentes e imprevistos, podendo facilitar o endividamento”, explica.
Governo prepara novas medidas
O Governo Federal vem ampliando as restrições ao setor de apostas. Entre as medidas já adotadas está a proibição do uso de cartões de crédito e de benefícios sociais, como o Bolsa Família, para realizar apostas em plataformas autorizadas.
Agora, o governo prepara uma Medida Provisória que pode alterar novamente as regras para o funcionamento das bets e dos cassinos online no país.
O avanço das apostas também passou a ser acompanhado pelo Banco Central devido ao volume de recursos movimentado pelo setor e aos possíveis efeitos sobre o orçamento das famílias.
Para Afonso, o comprometimento crescente da renda com apostas pode dificultar a recuperação financeira de consumidores que já possuem dívidas.
“Renegociar dívidas é importante, mas recuperar o controle financeiro exige também rever hábitos de consumo e estabelecer limites claros para o uso do dinheiro. No caso das apostas, tentar recuperar perdas com novas apostas pode aprofundar o desequilíbrio financeiro”, afirma.
Foto: Magnific/ banco de imagens



