Post: Câncer de pulmão causa mais de 32 mil mortes por ano e estudos mostram desigualdade no acesso ao tratamento no Brasil

O Brasil deverá registrar cerca de 35.380 novos casos de câncer de pulmão por ano entre 2026 e 2028, segundo estimativas do Instituto Nacional de Câncer (INCA). Em 2025, a doença provocou 32.113 mortes no país.

Apesar dos avanços no diagnóstico e no tratamento, estudos brasileiros mostram diferenças importantes no acesso à assistência.

Entre oncologistas da saúde suplementar, 93,9% relatam acesso ao teste para identificação da alteração no gene ALK, ante 43,9% dos profissionais que atuam no Sistema Único de Saúde (SUS).

Entre pacientes com essa alteração molecular, 53,9% dos atendidos na saúde suplementar receberam terapia-alvo como primeira linha de tratamento, percentual que caiu para 22,2% no SUS.

As desigualdades ao longo da jornada do paciente são o tema central das ações promovidas pelo Grupo Brasileiro de Oncologia Torácica (GBOT) durante o Agosto Branco 2026, campanha nacional de conscientização sobre o câncer de pulmão.

A entidade chama atenção para barreiras que envolvem prevenção, rastreamento, diagnóstico precoce, testes moleculares, cirurgia, radioterapia e terapias sistêmicas e que ainda dificultam a redução da mortalidade pela doença no Brasil.

O câncer de pulmão é o terceiro tipo de câncer mais frequente entre os homens e o quarto entre as mulheres no país. No mundo, permanece como a principal causa de morte por câncer, com aproximadamente 1,8 milhão de óbitos anuais. 

Embora o tabagismo continue sendo o principal fator de risco, reduzir a mortalidade depende também do rastreamento de pessoas de alto risco, do diagnóstico oportuno, da realização de testes moleculares capazes de identificar alterações genéticas específicas do tumor, do encaminhamento rápido para equipes especializadas e do acesso às diferentes modalidades terapêuticas disponíveis, como cirurgia, radioterapia, quimioterapia, imunoterapia e terapias-alvo.

De acordo com o oncologista clínico Vladmir Cordeiro de Lima, presidente do Grupo Brasileiro de Oncologia Torácica (GBOT), discutir acesso significa considerar toda a trajetória do paciente, e não apenas a disponibilidade de medicamentos.

“A discussão sobre acesso abrange toda a jornada do paciente. Ela começa pela educação da população e dos médicos, passa pela prevenção e pelo rastreamento, pelo diagnóstico precoce e correto, até a definição do tratamento mais adequado para cada pessoa. Quando qualquer uma dessas etapas falha, o resultado é comprometido”, afirma.

Acesso à informação, tabagismo e outros fatores de risco

Embora o controle do tabagismo continue sendo a medida mais importante para prevenir a doença, especialistas destacam que o conhecimento científico acumulado nas últimas décadas ampliou significativamente a compreensão sobre os fatores capazes de influenciar a mortalidade.

Além de fortalecer as políticas de controle do tabaco, é necessário ampliar a informação sobre outros fatores de risco, como a exposição ocupacional a agentes carcinogênicos, a poluição atmosférica, o radônio e a fumaça proveniente da queima de combustíveis utilizados no preparo de alimentos.

Segundo o GBOT, também é fundamental garantir que pessoas com maior risco de desenvolver a doença tenham acesso a programas estruturados de rastreamento e que pacientes com suspeita clínica consigam realizar rapidamente exames de imagem, obter confirmação diagnóstica e ser encaminhados para centros especializados.

Esse cenário ganha importância porque o câncer de pulmão costuma permanecer silencioso nas fases iniciais.

Em muitos casos, sintomas como tosse persistente, falta de ar, dor no peito, rouquidão ou perda de peso inexplicada surgem apenas quando a doença já está localmente avançada ou metastática, reduzindo as possibilidades de tratamento com intenção curativa.

Por isso, ampliar o acesso ao diagnóstico precoce representa uma das estratégias com potencial para reduzir a mortalidade.

Acesso ao rastreamento

O diagnóstico precoce é uma das estratégias para reduzir a mortalidade por câncer de pulmão, mas sua implementação ainda representa um desafio no Brasil.

Estudos internacionais demonstraram que o rastreamento com tomografia computadorizada de baixa dose pode identificar tumores em fases iniciais em pessoas com alto risco de desenvolver a doença, quando as possibilidades de tratamento com intenção curativa são significativamente maiores.

De modo geral, são consideradas de alto risco pessoas com idade entre 50 e 80 anos, que fumam atualmente ou deixaram de fumar há menos de 15 anos e apresentam carga tabágica de pelo menos 20 maços-ano.

Essa medida corresponde, por exemplo, ao consumo de um maço de cigarros por dia durante 20 anos ou de dois maços por dia durante dez anos.

A adoção do rastreamento organizado entrou na agenda da saúde pública brasileira. Em julho deste ano, o Ministério da Saúde anunciou um projeto-piloto para avaliar a implementação dessa estratégia no Sistema Único de Saúde.

A iniciativa prevê a realização de tomografia computadorizada de baixa dose em pessoas elegíveis e deverá subsidiar a construção de uma política pública voltada à detecção precoce da doença.

O GBOT avalia que a medida representa um avanço importante, mas precisa ser acompanhada pela organização de toda a linha de cuidado.

Segundo a entidade, detectar um tumor precocemente só produz impacto na mortalidade quando o paciente consegue realizar rapidamente os exames complementares, obter a confirmação diagnóstica e iniciar o tratamento em tempo oportuno.

Acesso pós-diagnóstico

Os avanços científicos ampliaram as possibilidades de tratamento do câncer de pulmão. Com a incorporação da medicina de precisão, a escolha da terapia passou a considerar não apenas o tipo histológico e o estágio da doença, mas também alterações moleculares presentes no tumor, permitindo uma abordagem mais individualizada para parte dos pacientes.

Essa estratégia depende do acesso aos testes moleculares, responsáveis por identificar alterações em genes como EGFR, ALK, ROS1, BRAF, RET, MET, KRAS e NTRK, fundamentais para indicar terapias-alvo capazes de atuar especificamente sobre essas alterações.

Para muitos pacientes, esses tratamentos proporcionam maior controle da doença, melhor qualidade de vida e aumento da sobrevida.

Na prática, diferentes estudos têm documentado desigualdades no acesso aos testes moleculares e às terapias-alvo entre pacientes atendidos pelo SUS e pela saúde suplementar.

Estudo nacional publicado em junho no JCO Global Oncology revelou que 93,9% dos médicos da saúde suplementar relataram ter acesso aos testes para identificação da alteração no gene ALK, percentual que cai para 43,9% entre os profissionais que atuam no SUS.

Entre as principais barreiras estão a limitação da infraestrutura diagnóstica, a dificuldade de reembolso e, muitas vezes, a necessidade de iniciar rapidamente o tratamento antes da conclusão da investigação molecular.

Outro estudo do mesmo grupo mostrou que essas dificuldades vão além do gene ALK. Muitos oncologistas brasileiros ainda encontram obstáculos para solicitar o perfil genômico amplo (Comprehensive Genomic Profiling – CGP), exame que permite identificar simultaneamente diversas alterações moleculares importantes para a definição do tratamento.

Alto custo, limitações de cobertura pelos sistemas de saúde, dificuldades logísticas e quantidade insuficiente de material obtido nas biópsias estão entre os principais entraves relatados.

As consequências dessas barreiras também aparecem nos resultados do tratamento. Em outro estudo publicado este ano no JCO Global Oncology, pesquisadores do GBOT compararam pacientes com câncer de pulmão de não pequenas células com alteração no gene ALK atendidos pelo SUS e pela saúde suplementar.

Enquanto 53,9% dos pacientes da saúde suplementar receberam terapia-alvo como tratamento de primeira linha, o percentual foi de 22,2% entre os usuários do SUS.

As diferenças também se refletiram na sobrevida. Após três anos de acompanhamento, 87,2% dos pacientes da saúde suplementar permaneciam vivos, contra 61,4% daqueles tratados no sistema público.

O estudo mostrou ainda que os usuários do SUS enfrentam intervalos maiores entre o surgimento dos sintomas, o diagnóstico e o início do tratamento.

Um estudo farmacoeconômico brasileiro, publicado em 2019, chegou à mesma conclusão sob outra perspectiva.

A análise estimou que a falta de acesso a inibidores de tirosina quinase para pacientes com alterações no gene EGFR resulta em anos de vida potencialmente perdidos e apontou que ampliar a oferta dessas terapias no SUS poderia trazer benefícios clínicos e econômicos ao sistema de saúde.

Conforme explica a oncologista clínica Samira Mascarenhas, primeira autora de um dos estudos e presidente eleita do GBOT, garantir o acesso aos testes moleculares tornou-se uma etapa indispensável da assistência ao paciente com câncer de pulmão.

“Hoje, conhecer o perfil molecular do tumor é parte fundamental do tratamento. Sem esse diagnóstico, muitos pacientes deixam de receber terapias capazes de proporcionar maior controle da doença, melhor qualidade de vida e aumento da sobrevida”, afirma.

As barreiras persistem em diferentes fases da doença

As barreiras de acesso também se manifestam em diferentes fases da doença. Um estudo brasileiro sobre o atraso no início do tratamento identificou intervalos importantes entre o aparecimento dos primeiros sintomas, a confirmação do diagnóstico e o início da terapia, reforçando a necessidade de reduzir o tempo de espera ao longo de toda a linha de cuidado.

Essas desigualdades também foram observadas em pacientes com câncer de pulmão localmente avançado. Um estudo multicêntrico conduzido pelo GBOT e pelo LACOG mostrou que usuários do Sistema Único de Saúde enfrentam maior demora para iniciar o tratamento e apresentam piores resultados quando comparados aos pacientes da saúde suplementar.

Segundo os autores, reduzir essas diferenças representa uma oportunidade concreta para melhorar os desfechos do tratamento no país.

As disparidades se repetem entre pacientes com metástases cerebrais. Um estudo publicado no JCO Global Oncology verificou que pacientes atendidos em instituições públicas chegavam ao diagnóstico com doença mais avançada, apresentavam tumores maiores, realizavam menos exames de ressonância magnética e tinham acesso mais limitado à radiocirurgia.

Como consequência, o tempo de vida após o diagnóstico foi, em média, cerca de duas vezes menor entre os pacientes tratados no sistema público do que entre aqueles atendidos na saúde suplementar.

Os resultados reforçam achados de outras pesquisas nacionais que também identificaram atrasos entre o aparecimento dos primeiros sintomas, a confirmação diagnóstica e o início do tratamento, indicando que reduzir o tempo de espera continua sendo um dos principais desafios para melhorar o prognóstico dos pacientes brasileiros.

Acesso à inovação

O desenvolvimento de terapias-alvo, imunoterápicos e outras estratégias da medicina de precisão ampliou as possibilidades de tratamento do câncer de pulmão.

Entretanto, fazer com que essas inovações cheguem aos pacientes continua sendo um desafio. Um estudo publicado no Journal of Cancer Policy em junho deste ano mostrou uma diferença expressiva no número de novos medicamentos oncológicos aprovados entre 2020 e 2024.

Nesse período, a agência reguladora norte-americana (FDA) aprovou 73 novos medicamentos oncológicos, enquanto a Agência Europeia de Medicamentos (EMA) aprovou 56 e a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), 18.

A análise identificou ainda atraso de 353 dias nas aprovações brasileiras em relação ao FDA e de 336 dias em relação à EMA.

As consequências desses atrasos podem ser mensuradas. Um estudo brasileiro publicado em 2025 estimou que a indisponibilidade do amivantamabe no SUS pode resultar em mortes prematuras e perda de anos de vida entre pacientes com câncer de pulmão elegíveis ao tratamento, evidenciando o impacto que a demora na incorporação de novas tecnologias pode ter sobre a população.

Outro estudo brasileiro sobre o financiamento do tratamento do câncer de pulmão no SUS mostrou que os valores reembolsados pelo sistema público para o tratamento da doença avançada não acompanham os custos reais da assistência.

Segundo os autores, essa defasagem compromete a incorporação de novas tecnologias e representa outra barreira para ampliar o acesso dos pacientes às terapias inovadoras.

Já a análise dos desafios para a implementação da medicina de precisão no SUS, publicada em 2025, concluiu que superar essas desigualdades requer a aprovação de novos medicamentos acompanhada do fortalecimento da infraestrutura de diagnóstico molecular, da ampliação da disponibilidade de laboratórios especializados, da organização dos fluxos assistenciais e da aceleração da incorporação de tecnologias ao sistema público.

 

Foto: diego_cervo

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