A cada eleição presidencial, uma questão volta ao centro do debate: o Brasil poderá mudar sua posição no cenário internacional após a escolha de um novo governo?
A resposta interessa não apenas aos eleitores, mas também a investidores, governos estrangeiros, empresas exportadoras, organismos multilaterais e parceiros comerciais do país.
O Brasil ocupa uma posição estratégica na economia global. É integrante do G20, MERCOSUL e BRICS, além de participar de organizações como a Organização das Nações Unidas (ONU) e a Organização Mundial do Comércio (OMC). O país também está entre os principais exportadores mundiais de alimentos, minério de ferro, celulose, café, carne bovina, soja e açúcar.
Além disso, as reservas brasileiras de minerais críticos ganharam importância diante da transição energética e da expansão de setores ligados à tecnologia.
Apesar desse cenário, especialistas alertam que uma mudança de governo não significa, necessariamente, uma ruptura na política externa.
Para Rodrigo Bueno Prestes, advogado especializado em Direito Internacional Econômico e pesquisador das relações entre MERCOSUL e União Europeia, um novo governo pode alterar prioridades e estratégias, mas precisa respeitar compromissos assumidos anteriormente pelo Estado brasileiro.
“É natural que governos imprimam prioridades diferentes à política externa. O que muda são as estratégias, a intensidade das negociações e os temas considerados prioritários. No entanto, tratados internacionais, compromissos multilaterais e obrigações assumidas pelo Estado brasileiro não deixam de existir com a mudança de um governo.”
O que pode mudar com um novo governo
A política externa é uma das áreas em que diferentes governos podem adotar estratégias distintas. A escolha de parceiros prioritários, a intensidade das negociações comerciais, a atuação em organismos internacionais e determinadas posições diplomáticas podem ser modificadas de acordo com as prioridades de cada administração.
O Brasil, no entanto, mantém uma ampla rede de relações diplomáticas e compromissos internacionais construídos ao longo de décadas.
Segundo dados do Ministério das Relações Exteriores, o país mantém relações diplomáticas com praticamente todos os países reconhecidos internacionalmente e participa de dezenas de organizações multilaterais.
Para Prestes, essa estrutura estabelece uma diferença entre as decisões políticas de um governo e os compromissos assumidos pelo Estado brasileiro.
“As eleições definem governos, mas não substituem o Estado. Existe uma diferença importante entre escolhas políticas e compromissos jurídicos internacionais. O Direito Internacional foi desenvolvido justamente para oferecer previsibilidade às relações entre os países, independentemente das alternâncias democráticas de poder.”
Relações comerciais pesam nas decisões
A estabilidade das relações internacionais também tem impacto direto na economia brasileira.
A China é atualmente o principal parceiro comercial do Brasil, enquanto a União Europeia permanece entre os principais parceiros econômicos do país. As relações envolvem setores como agricultura, mineração, indústria e serviços.
A dimensão desses vínculos faz com que mudanças na política externa sejam avaliadas também sob a perspectiva comercial.
Nos últimos anos, o cenário internacional ficou mais complexo com a guerra na Ucrânia, a disputa comercial entre Estados Unidos e China, a busca por segurança energética e a corrida por minerais críticos.
Também ganharam espaço conceitos como segurança econômica, autonomia estratégica e resiliência das cadeias produtivas.
Na avaliação de Prestes, esse contexto ampliou a importância do Brasil no cenário internacional.
“Hoje, a posição internacional do Brasil não depende apenas de sua política externa. Ela também está relacionada à capacidade de oferecer estabilidade institucional, segurança jurídica e previsibilidade para investidores e parceiros comerciais.”
MERCOSUL e União Europeia
Um dos exemplos dessa relação entre política externa, comércio e geopolítica é o Acordo MERCOSUL-União Europeia.
Após mais de duas décadas de negociações, o acordo passou a ser analisado não apenas pela possibilidade de redução de tarifas, mas também como instrumento de diversificação de mercados e fortalecimento das cadeias produtivas.
Para o especialista, as mudanças no cenário internacional alteraram a forma como o acordo é percebido.
“O texto do Acordo praticamente permaneceu o mesmo. O que mudou foi o mundo. A forma como Europa e MERCOSUL enxergam essa parceria hoje é completamente diferente daquela existente quando as negociações começaram.”
Investidores observam estabilidade
As eleições também são acompanhadas pelo mercado internacional. Empresas estrangeiras que avaliam investimentos de longo prazo costumam considerar fatores como estabilidade institucional, segurança jurídica, respeito aos contratos, previsibilidade regulatória e relações diplomáticas.
Segundo Prestes, a análise vai além das propostas apresentadas durante a campanha eleitoral.
“Investidores não analisam apenas programas de governo. Eles procuram compreender se o ambiente institucional continuará oferecendo condições para planejamento de longo prazo. Previsibilidade continua sendo um dos ativos mais importantes de qualquer economia.”
Continuidade no MERCOSUL
Para o especialista, independentemente do resultado eleitoral, o MERCOSUL deve continuar sendo um dos principais instrumentos de inserção internacional do Brasil.
“Independentemente do resultado eleitoral, o MERCOSUL continuará sendo um dos principais instrumentos de inserção internacional do Brasil. O desafio está em fortalecer sua capacidade de responder às transformações da economia global, ampliando integração regional, segurança jurídica e competitividade internacional.”
Nesse sentido, uma mudança de governo pode redefinir prioridades diplomáticas, mas não elimina a estrutura de compromissos internacionais construída pelo país.
“As eleições podem redefinir prioridades diplomáticas. Mas o Brasil continua inserido em uma rede complexa de tratados, organizações internacionais, compromissos multilaterais e relações econômicas construídas ao longo de décadas. A política muda. As instituições permanecem. E é justamente essa continuidade que garante credibilidade às relações internacionais.”
Em um cenário em que geopolítica, comércio exterior e segurança econômica estão cada vez mais conectados, o resultado das urnas representa o início de uma nova etapa de governo, mas não um recomeço das relações internacionais brasileiras. Os próximos passos serão definidos pela combinação entre novas prioridades políticas e compromissos jurídicos, econômicos e diplomáticos já estabelecidos.
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