Post: El Niño pode ser o mais intenso desde 1950 e acende alerta para infraestrutura e planejamento no Brasil

O Brasil entra em uma nova temporada de atenção aos efeitos do El Niño. O fenômeno, confirmado pelo Instituto Nacional de Meteorologia (INMET) em junho, pode persistir até março de 2027 e atingir uma intensidade considerada muito forte. Dados baseados em projeções da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) indicam mais de 90% de probabilidade de um El Niño muito intenso nos próximos meses, com possibilidade de superar os registros anteriores da série histórica iniciada em 1950.

A previsão coloca em evidência a necessidade de preparação de cidades, empresas e gestores de infraestrutura para um período marcado por maior variabilidade de temperaturas, chuvas e disponibilidade de água. No Brasil, os impactos do fenômeno não são uniformes e podem incluir aumento das precipitações em algumas regiões, períodos mais secos em outras e temperaturas acima da média em grande parte do território.

Segundo o INMET, a previsão para os próximos meses aponta temperaturas superiores à média em diferentes áreas do país, com desvios que podem chegar a 2 °C em partes do Norte e do Centro-Oeste. A combinação de calor prolongado e alterações no regime de chuvas pode aumentar a pressão sobre sistemas de abastecimento, drenagem, energia e climatização.

Cidades precisam considerar diferentes cenários

Os efeitos do El Niño não se resumem a mais chuva ou mais calor. As alterações na circulação atmosférica podem produzir condições distintas entre as regiões brasileiras, o que exige planejamento capaz de lidar simultaneamente com diferentes tipos de risco.

No Sul, por exemplo, o fenômeno costuma estar associado a maior ocorrência de chuva, enquanto áreas do Norte e do Nordeste podem enfrentar períodos mais secos. Ao mesmo tempo, temperaturas elevadas podem aumentar a demanda por água e energia em diversas localidades.

Para as cidades, o cenário reforça a importância de incorporar informações climáticas às decisões sobre drenagem, ocupação do solo, abastecimento, mobilidade, habitação e localização de equipamentos públicos.

Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que 5.348 dos 5.570 municípios brasileiros, o equivalente a 96%, declararam possuir algum dispositivo de drenagem e manejo de águas pluviais em 2023. Apesar da ampla presença desse tipo de estrutura, apenas 24,5% dos municípios informaram utilizar soluções baseadas na natureza como estratégia de drenagem.

Essas alternativas podem contribuir para aumentar a retenção de água, reduzir a velocidade do escoamento e diminuir a pressão sobre sistemas convencionais. Entre os municípios que não adotam essas soluções, o principal obstáculo apontado foi financeiro ou orçamentário.

A preparação, portanto, não depende apenas da existência de infraestrutura, mas também de sua capacidade de responder a eventos climáticos mais extremos e variáveis.

Calor aumenta pressão sobre energia e climatização

A elevação das temperaturas também deve ampliar a utilização de aparelhos de ar-condicionado e ventiladores, aumentando a demanda por eletricidade. Quanto maior a temperatura externa, maior tende a ser o esforço necessário para manter os ambientes climatizados, fazendo com que os equipamentos permaneçam ligados por períodos mais longos.

A Empresa de Pesquisa Energética (EPE) já apontou temperaturas acima da média, ondas de calor, clima seco e maior utilização de aparelhos de climatização entre os fatores associados ao aumento do consumo residencial de energia no primeiro trimestre de 2026. No setor comercial, as altas temperaturas também contribuíram para ampliar o uso de sistemas de climatização.

O impacto pode ser ainda maior em locais que dependem de refrigeração contínua, como hospitais, escolas, indústrias, centros comerciais, data centers e prédios públicos.

De acordo com Patrick Galletti, engenheiro mecatrônico, pós-graduando em Engenharia de Climatização e CEO do Grupo RETEC, a possibilidade de períodos mais quentes exige que empresas e gestores antecipem a manutenção dos equipamentos.

“É comum vermos equipamentos colapsarem justamente nas ondas de calor, quando são mais necessários. Isso não é coincidência, é falta de planejamento e revisão constante”, afirma.

Equipamentos antigos, sistemas subdimensionados, filtros obstruídos e manutenção atrasada podem aumentar o consumo de energia e elevar o risco de falhas durante os períodos de maior demanda.

“A climatização não pode mais ser vista como acessório. É uma infraestrutura essencial e deve ser tratada com planejamento, manutenção e tecnologia. O custo de não investir nisso é muito maior a longo prazo”, acrescenta Galletti.

Entre as medidas recomendadas estão a revisão preventiva dos equipamentos, limpeza e substituição de filtros, avaliação da capacidade instalada, verificação dos sistemas de refrigeração e acompanhamento do consumo energético. Tecnologias de automação, sensores de ocupação e controle independente por ambientes também podem ajudar a reduzir desperdícios e evitar sobrecarga.

Planejamento pode reduzir impactos

Além das medidas emergenciais, especialistas defendem que as projeções climáticas sejam incorporadas ao planejamento de longo prazo. Obras de drenagem, loteamentos, avenidas, escolas e equipamentos públicos permanecem em funcionamento por décadas e, por isso, precisam considerar as condições climáticas que poderão enfrentar no futuro.

O Brasil já possui ferramentas para apoiar esse processo. O AdaptaBrasil reúne projeções climáticas e indicadores de risco capazes de apontar ameaças e possíveis impactos em diferentes territórios. As informações também são utilizadas em iniciativas voltadas ao fortalecimento da capacidade de adaptação dos municípios.

O desafio está em transformar os dados disponíveis em decisões concretas de planejamento e investimento. Isso envolve considerar, de maneira integrada, riscos de enchentes, secas e ondas de calor e seus efeitos sobre água, energia, infraestrutura, mobilidade, habitação e serviços públicos.

A possibilidade de um El Niño de intensidade excepcional reforça a importância dessa preparação. Mais do que responder aos eventos depois que eles acontecem, cidades e organizações podem utilizar as previsões disponíveis para antecipar vulnerabilidades, revisar estruturas e direcionar investimentos.

Com o fenômeno previsto para atravessar a primavera e o verão de 2026/2027, a preparação antecipada pode ajudar a reduzir falhas, desperdícios e prejuízos provocados por um cenário de maior instabilidade climática.

 

Foto: Reprodução/Mundo Logística

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