A prevenção do câncer não depende de uma única escolha. Hoje a ciência já sabe que o estilo de vida, incluindo a prática regular de atividade física, pode desempenhar um papel importante na redução do risco e fazer parte de uma rotina de prevenção.
Caminhar, pedalar, dançar, nadar, fazer musculação ou passar menos tempo sentada podem contribuir para reduzir o risco de alguns tumores, além de beneficiar o coração, os ossos e os músculos.
Entre os cânceres com evidências mais consistentes de redução de risco pela atividade física estão os de mama, endométrio, o revestimento interno do útero, e cólon, parte do intestino grosso.
Segundo o Instituto Nacional de Câncer, o INCA, o movimento ajuda a equilibrar os níveis hormonais, fortalece as defesas do organismo, reduz o tempo de trânsito dos alimentos pelo intestino e contribui para a manutenção do peso corporal.
O câncer faz parte de um contexto maior de saúde. Segundo a Organização Mundial da Saúde, as doenças crônicas não transmissíveis responderam por 75% das mortes globais não relacionadas à pandemia da COVID-19.
Doenças cardiovasculares, câncer, doenças respiratórias crônicas e diabetes concentram 80% das mortes prematuras por esse grupo.
Essas condições compartilham fatores de risco relacionados ao estilo de vida que podem ser modificados, como inatividade física, tabagismo, alimentação inadequada e consumo nocivo de álcool.
É nesse contexto que Fernanda Catena, médica ortopedista com formação em Nutrologia Esportiva, chama atenção para o papel do exercício.
“Não é estética nem performance, mas qualidade de vida e prevenção das doenças que mais causam mortes”, avalia.
A atividade física ajuda a reduzir o risco de doenças cardiovasculares, diabetes e alguns tipos de câncer e também traz benefícios para a saúde cerebral. Isso não significa que quem se exercita estará protegido da doença.
O câncer não tem causa única e envolve fatores como idade, genética, histórico familiar, tabagismo, consumo de álcool, excesso de gordura corporal e exposições ambientais. O exercício também não substitui o rastreamento recomendado, a investigação de sintomas ou o tratamento.
O que os estudos mostram
Em 2016, uma pesquisa publicada no JAMA Internal Medicine analisou informações de 1,44 milhão de adultos e encontrou menor incidência de 13 dos 26 tipos de câncer avaliados entre os participantes mais ativos no tempo livre.
O câncer de mama estava entre eles, com redução relativa de 10% na comparação entre os grupos com níveis mais altos e mais baixos de atividade física.
Uma revisão sistemática publicada em 2019 reforçou essa relação. Após analisar 45 relatórios que reuniam centenas de estudos epidemiológicos e milhões de participantes, os pesquisadores encontraram evidências fortes de associação entre maior atividade física e menor risco de câncer de bexiga, mama, cólon, endométrio, adenocarcinoma de esôfago, rim e estômago. As reduções relativas ficaram, em geral, entre 10% e 20%.
Os estudos identificam associações e não permitem afirmar que o exercício, sozinho, seja responsável pelas diferenças observadas.
Os percentuais também não representam o risco individual de cada pessoa, que depende de idade, histórico familiar e outros fatores.
Os benefícios da atividade física também aparecem em pesquisas com pessoas que já receberam o diagnóstico. Um estudo publicado em fevereiro de 2026 no JAMA Network Open avaliou 17.141 pessoas com câncer de bexiga, endométrio, rim, pulmão, cavidade oral, ovário ou reto.
Níveis mais elevados de atividade física moderada ou vigorosa após o diagnóstico foram associados a menor mortalidade por câncer entre pessoas com tumores de bexiga, endométrio, pulmão e ovário.
Entre pessoas com câncer de pulmão e reto, passar a cumprir as recomendações de atividade física depois do diagnóstico também foi associado a menor mortalidade, mesmo entre aquelas que eram inativas anteriormente.
A pesquisa foi observacional e, portanto, não prova que o exercício tenha sido o único responsável pelo resultado. Ainda assim, acrescenta evidências sobre a relação entre atividade física e saúde após o diagnóstico.
Para Fernanda, esse papel também se relaciona ao conceito de longevidade estrutural, que considera a preservação do sistema musculoesquelético parte da estratégia para viver mais tempo com força, mobilidade e autonomia.
Segundo ela, viver mais tempo e melhor também passa por manter um sistema musculoesquelético forte.
“Então, o exercício entra como um componente essencial da longevidade estrutural”, afirma.
A atividade física pode fazer parte do plano de cuidado de quem teve câncer, mas não substitui cirurgia, medicamentos, quimioterapia ou radioterapia.
Durante e depois do tratamento, o tipo de exercício, a intensidade e a frequência devem respeitar a condição clínica e ser discutidos com a equipe responsável.
Como começar
Não é preciso começar pela academia. Caminhar até o trabalho, usar escadas, passear com o cachorro, pedalar, dançar, nadar ou fazer atividades ao ar livre também contam. Para quem está parado há muito tempo, a orientação é começar com períodos menores e aumentar aos poucos a frequência e a intensidade.
Como referência, a Organização Mundial da Saúde recomenda que adultos acumulem de 150 a 300 minutos semanais de atividade aeróbica moderada ou de 75 a 150 minutos de atividade vigorosa.
Exercícios de fortalecimento dos principais grupos musculares devem fazer parte da rotina em pelo menos dois dias da semana.
Antes de definir um plano, Fernanda recomenda entender o ponto de partida e qual função a pessoa deseja preservar.
Viajar, subir e descer escadas, carregar as próprias compras ou continuar a praticar um esporte são exemplos que ajudam a identificar o que o corpo precisa sustentar ao longo do tempo.
O cuidado também não deve se concentrar apenas na gordura corporal ou nas mudanças percebidas no espelho. Músculos e ossos fortes ajudam a preservar a mobilidade e autonomia durante o envelhecimento.
Quem tem doença crônica, limitação de movimento, dor ou mal-estar pode precisar de orientação para adaptar a prática.
Durante ou depois do tratamento contra o câncer, as condições individuais também precisam fazer parte dessa decisão.
A atividade física não elimina o risco de câncer ou de outras doenças, mas integra as estratégias de prevenção e ajuda a preservar a força, mobilidade e autonomia ao longo da vida.
Foto: Magnific




