Atacante inglês do Arsenal, Bukayo Saka, conquistou o prêmio Sócrates, entregue na cerimônia da Bola de Ouro, que ocorreu nesta segunda-feira (26) em Londres, como reconhecimento de seu trabalho à frente da fundação Big Shoe e outras ações humanitárias.
O jogador e sua família mantêm parcerias com diversas organizações beneficentes, entre elas a Big Shoe, em iniciativas de longo prazo voltadas à assistência médica e ao apoio humanitário de crianças e famílias em situação de vulnerabilidade, tanto em Londres quanto em outras partes do mundo.
Entre as ações custeadas pelo atacante do Arsenal estão a construção de moradias e a disponibilização de abrigos temporários para famílias que perderam suas casas após os terremotos que atingiram a Turquia e o Marrocos. Além disso, Saka contribuiu para que mais de 100 crianças no continente africano tivessem acesso a cirurgias capazes de transformar suas vidas, procedimentos que dificilmente poderiam pagar por conta própria.
O que é o prêmio Sócrates?
Em 2022, a revista France Football criou o Prêmio Sócrates, em homenagem a um dos maiores ídolos da torcida corinthiana. A premiação é concedida a jogadores envolvidos em causas sociais e projetos.
Dessa maneira, a premiação valoriza ações voltadas à inclusão social, à preservação ambiental e ao apoio de populações em situação de extrema vulnerabilidade, incluindo pessoas afetadas por conflitos. A escolha do vencedor fica a cargo de um júri composto por Raí, ex-jogador do São Paulo e da seleção brasileira, irmão mais novo de Sócrates, além de representantes da revista France Football e dirigentes da organização Peace and Sport, que promove iniciativas de desenvolvimento e construção da paz por meio do esporte.
Quem foi Sócrates para o futebol e para a democracia?
Nos anos 60, Sócrates presenciou uma cena que marcou sua vida, ao ver o pai, que sempre foi tão apaixonado pela literatura, queimando seu acervo pessoal de livros. O que motivou o ato era o início do golpe de Estado no Brasil, que instauraria uma ditadura militar no país, regime que duraria mais de duas décadas. Com receio da censura e perseguição que a família poderia sofrer, o pai se desfez de diversos livros para proteger a família e o emprego. Desde muito jovem, Sócrates vivenciou causas sociais e recebeu incentivo da sua família para estudar.
Iniciou sua carreira no futebol em Ribeirão Preto.
Por meio do jogo, suas convicções ideológicas, centradas na igualdade e na democracia, continuaram se desenvolvendo:
“O futebol é muito democrático. Desde garoto, eu estava envolvido com esse jogo, mesmo sem nunca ter pensado em me tornar profissional. Então, convivia com pessoas de situações sociais e níveis educacionais completamente diferentes. Você está ao lado da realidade. Conviver com a realidade foi uma experiência que o futebol me proporcionou.”(Grandes Momentos do Esporte – TV Cultura)
Conciliava os jogos com o estudo fora dos campos, realizou um acordo com o Botafogo-Sp, para que pudesse faltar a alguns treinos e continuar estudando. Nesse período, ele se formou em medicina pela Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, da Universidade de São Paulo (FMRP-USP).
Após se formar, o clube ofereceu uma proposta de salário muito maior do que ganharia na sua área de atuação como médico e decidiu seguir como jogador de futebol. Sócrates sempre destacou que a decisão foi uma questão prática e que sua verdadeira paixão é a busca pelo conhecimento e a medicina. Na temporada de 77 se destacou, marcando 67 gols em 172 partidas e em 1978 foi transferido para o Corinthians.
Foi no clube alvinegro que se consolidou o legado como uma figura marcante dentro e fora de campo de Sócrates. Em sua passagem de seis anos pelo time, marcou 150 gols em 269 partidas e conquistou três títulos do Campeonato Paulista.
Fora do campo, seu impacto foi muito maior.
Depois de uma péssima temporada no Brasileiro de 1981, o time percebeu que precisava de uma mudança para buscar o melhor desempenho no próximo ano. Dessa forma, ocorreu a substituição do presidente que antes era Vicente Matheus e passou a ser Waldemar Pires, que acreditava no diálogo com os jogadores para resolver os problemas do clube. O sociólogo Adilson Monteiro Alves, foi nomeado pelo presidente como diretor de futebol do time.
Pires priorizava ouvir os jogadores e funcionários, alguns se destacavam pela forte consciência social e por serem politicamente ativos, como o Wladimir Casagrande, Zenon e Sócrates, que se tornaram líderes simbólicos do grupo. Com essa mudança uma revolução começou a nascer dentro do Corinthians.
Foi nesse contexto que surgiu a conhecida Democracia Corinthiana, considerada um dos movimentos ideológicos mais marcantes da história do futebol brasileiro e de grande relevância no cenário mundial, ao transformar o campo em um espaço de luta, consciência e liberdade.
Um de seus principais fundamentos era a luta pela garantia dos direitos dos jogadores e por uma maior participação dos atletas nas decisões do clube.
Sócrates, sempre defendeu a importância dos direitos sem deixar de reconhecer a posição privilegiada que os jogadores possuem na sociedade. Porém não aceitava a ideia de que o jogador de futebol deveria ser apenas uma peça de uma engrenagem, sem ter direito a palavra e de ser ouvido. Para ele, o atleta era muito mais do que um corpo a serviço do espetáculo: era um indivíduo com voz, pensamento e poder de decisão. Ao lado de Pires e Alves, o ídolo corintiano ajudou a construir um movimento que pretendia devolver aos jogadores e aos demais funcionários do clube algo essencial: o direito de participar das escolhas que moldavam suas próprias vidas.
Foi assim que a democracia deixou de ser apenas um ideal e passou a fazer parte do cotidiano do Corinthians. Jogadores, comissão técnica e funcionários começaram a dividir as decisões, discutindo desde contratações até horários e normas de concentração. Tudo era submetido à votação, e cada voz tinha o mesmo peso. O voto do treinador valia tanto quanto o de um jogador ou o do roupeiro. Dentro daquele ambiente, a hierarquia tradicional cedia espaço ao diálogo, e a autoridade já não era sinônimo de poder absoluto.
No futebol brasileiro da época, acostumado a estruturas rígidas e relações de comando, aquela experiência representava uma ruptura. Mas a Democracia Corinthiana não se limitou aos muros do clube. Em um Brasil ainda submetido à ditadura militar, o movimento encontrou no futebol uma forma de expressar anseios que ultrapassavam o esporte.
A experiência democrática do clube refletia, em muitos aspectos, o desejo de milhões de brasileiros que sonhavam em recuperar o direito de escolher seus representantes. Sócrates e seus companheiros compreenderam a dimensão daquele momento e fizeram questão de levar a mensagem para além das arquibancadas.
Em meio à mobilização popular pela redemocratização, os jogadores passaram a entrar em campo com camisas que estampavam a expressão Democracia Corinthiana e palavras de ordem como Diretas Já, movimento que reivindicava eleições diretas para a Presidência da República. A camisa alvinegra, então, carregava mais do que as cores de um clube: transformava-se em símbolo de resistência e esperança.
A postura provocou o descontentamento do regime militar, que ameaçou reagir e intervir. Ainda assim, o Corinthians não recuou. E o sucesso esportivo contribuiu para ampliar o alcance de sua mensagem. Com as conquistas do Campeonato Paulista de 1982 e 1983, o time demonstrou que a liberdade de participação e a responsabilidade coletiva podiam caminhar lado a lado com a competitividade e a busca por títulos.
Na decisão de 1983, contra o São Paulo, no Morumbi, os corintianos entraram em campo carregando uma faixa que sintetizava o espírito do movimento: “Ganhar ou perder, mas sempre com democracia”. A frase traduzia uma convicção que ultrapassava o resultado de uma partida. Mais importante do que vencer a qualquer custo era defender o direito de decidir, participar e existir sem submissão.
A repercussão do movimento também foi impulsionada pelo trabalho de comunicação e marketing, conduzido em grande parte pelo publicitário Washington Olivetto, recém-chegado ao clube naquele período. A estratégia ajudou a fortalecer a imagem do Corinthians, ampliar sua projeção internacional e contribuir para as finanças da instituição, ao mesmo tempo que tornava a experiência conhecida para além das fronteiras brasileiras.
O movimento deixou como legado a demonstração de que o futebol, tantas vezes tratado apenas como entretenimento, pode se transformar em instrumento de reflexão, participação política e transformação social.
Em um país que ainda lutava para recuperar a própria voz, o Corinthians encontrou uma maneira de falar. E, por meio de seus jogadores, mostrou que a democracia também podia entrar em campo.
Lista de vencedores do Prêmio Sócrates
- 2022 – Sadio Mané: Venceu pelas amplas contribuições beneficentes no Senegal, incluindo o financiamento de um hospital e de uma escola em Bambali, sua cidade natal, além do apoio a diversos projetos sociais voltados à saúde e à educação.
- 2023 – Vinícius Júnior: Venceu pelo trabalho de combate ao racismo e pela promoção de iniciativas educacionais no Brasil, principalmente por meio do Instituto Vini Jr., que busca reduzir a exclusão digital nas escolas públicas e oferecer soluções pedagógicas inovadoras.
- 2024 – Jennifer Hermoso: Venceu pelo trabalho contra o abuso sexual, em especial por ter chamado a atenção para o tema depois de ser beijada na boca, sem consentimento, pelo então presidente da Federação Espanhola, Luis Rubiales.
- 2025 – Fundação Xana (Luis Enrique): Venceu pelo compromisso com o apoio a crianças gravemente doentes e suas famílias, oferecendo assistência médica, financeira e psicológica.
Foto: Irmo Celso



