O resultado da eleição do último domingo revela muita coisa sobre a esquerda. Nos anos 90, o PT dominava a política no Rio Grande do Sul. A ascensão da sigla começou ainda 1989, quando Porto Alegre elegeu Olívio Dutra, logo depois colocou Tarso Genro no paço municipal . Quatro anos depois, foi a vez de Raul Pont. No Estado, em 98, os gaúchos elegeram Olívio ao governo. Em Gravataí, o petista Daniel Bordignon governou a cidade por quatro anos. Em 1996, os caxienses elegeram Pepe Vargas. Jairo Jorge, em Canoas, Ary Vanazzi em São Leopoldo e Tarcísio Zimmermann em Novo Hamburgo governaram suas cidades. Se dividíssemos o estado por cores de acordo com o partido, a predominância era o vermelho. O PT sabia mobilizar as massas, cativar a militância. Enquanto outros partidos precisavam pagar para ter militantes na rua fazendo campanha, os petistas se engajavam de forma voluntária. De graça, o PT tinha milhares de pessoas pelo país balançando bandeiras, distribuindo santinhos, fazendo o famoso “corpo a corpo’’. O resultado da mobilização era convertido em votos. Seus eleitores realmente acreditavam naquela mensagem, viam no PT uma forma melhor de governar o país. A esquerda aprimorou aquilo que Karl Marx escreveu no final do século XIX: era preciso derrotar a “burguesia” estimulando a luta de classes. O que também serviu para Bolsonaro, mas ao contrário. O famoso “ nós contra eles” sempre esteve na nossa sociedade. Agora, quase três décadas se passaram e o PT nem de longe se parece com o que foi na década de 90. Os brasileiros viveram o escândalo do Mensalão. A corrupção, que o PT sempre combateu, agora ele mesmo praticava. Tudo aquilo que sempre criticou, envolvimento com grandes empresários, propina, presentes caros, como uma caminhonete de luxo importada, agora pesava contra próceres petistas, como Delúbio Soares, Silvinho “Land Rover” Pereira, tudo capitaneado por José Dirceu. Lula sempre negou. E isso tem um preço. Muitos eleitores petistas viram que tudo aquilo que o PT pregava era uma ilusão. Os próprios líderes petistas ignoraram o tamanho da sangria. O partido não conseguiu fazer autocrítica, um exame de consciência para avaliar seus erros. A arrogância subiu à cabeça e isso é letal. Em 2022, Lula derrotou Bolsonaro e voltou ao Planalto, mas não soube avaliar que derrotou um candidato cujo governo era muito mal avaliado. Durante os últimos anos apostou em coisas que não fazem diferença na vida das pessoas que mais precisam, como por exemplo a linguagem de gênero. A dona de casa da periferia está preocupada com a fila do SUS, o valor da passagem de ônibus e se o transporte coletivo vai estar mesmo funcionando no dia seguinte, pois ela precisa estar na patroa às 8h para passar o dia limpando a casa. Ela e as amigas não estão nem aí se serão chamadas de “todes”. A vida delas melhorou, sim, depois da mudança da regra do imposto de renda, os filhos delas acabaram se formar com Prouni, agora o posto de saúde conta com profissionais do programa Mais Médicos. Em contrapartida. não se sentem representadas, não se sentem seguras e acham que o PT não é mais a solução. Nesse vácuo, surgem outras siglas que oferecem pouco, mas se conectam com esse público carente. Oferecem coisas que o PT não foi capaz de entregar. Agora a faxineira encontrou um porto seguro na religião. Quando vai no culto, ela encontra uma palavra de conforto, aquilo que o partido dela não oferece. Outro dia, ela foi assaltada na parada de ônibus. Ela quer alguém que faça algo pela segurança mas não vê no PT uma forma de mudar isso. Enquanto a esquerda não avaliar seus erros para mudar o rumo, vai continuar colecionando derrotas para aqueles que prometem entregar.

Últimas Notícias