Romance de Vinicius Damasceno acompanha a trajetória de um jovem nascido na periferia e questiona os limites entre escolha, responsabilidade e contexto social
Em Nascer é uma Catástrofe, seu primeiro livro, o escritor Vinicius Damasceno conduz o leitor por uma história marcada por perdas, afetos, violência, abandono e escolhas difíceis. A trajetória de Igor, protagonista do romance, levanta uma questão central: até que ponto somos responsáveis pelos caminhos que seguimos quando as condições de partida são tão desiguais?
Ambientada em uma realidade urbana atravessada pela pobreza e pela falta de oportunidades, a narrativa apresenta a desigualdade não apenas como pano de fundo, mas como uma força que influencia relações, decisões e destinos. Ao acompanhar Igor desde a infância até a vida adulta, o leitor encontra um personagem moldado por um território onde escassez, medo e violência fazem parte do cotidiano.
Com linguagem direta e acessível, Damasceno preserva a identidade cultural de seus personagens sem recorrer à caricatura ou à romantização da miséria. A obra também evita respostas fáceis: não busca absolver as escolhas de Igor, mas ampliar a compreensão sobre as circunstâncias que as antecedem.
“Durante 20 anos de trabalho voluntário em uma ONG, convivi de perto com realidades sociais duras, muitas vezes invisíveis para grande parte da sociedade. A obra traz uma ficção sobre desigualdade, identidade, pertencimento e o preço humano de nascer à margem.” Diz o autor.
O sistema prisional também ocupa um lugar importante na narrativa. O cárcere surge não apenas como consequência das escolhas do protagonista, mas como um espaço de reflexão, no qual Igor revisita a própria história e tenta compreender a fronteira entre aquilo que lhe foi imposto e aquilo que decidiu fazer.
Pobreza, abandono, violência cotidiana, ausência de oportunidades e encarceramento são abordados a partir da experiência humana. Em vez de transformar seus personagens em números ou estatísticas, o romance procura revelar as pessoas que existem por trás dessas questões sociais.
A ideia para o livro surgiu durante um momento de terapia, quando o autor revisitou sentimentos, dúvidas e inquietações acumulados ao longo da vida. A experiência de duas décadas de trabalho voluntário também foi fundamental para a construção da obra e para o olhar lançado sobre realidades frequentemente ignoradas.
“Eu não busco explicar a dor dos personagens: eu quero aproximá-la do leitor. Como quem acende uma luz pequena num corredor escuro e pergunta, em silêncio: até quando passarei reto? Até quando a sociedade vai passar reto?” — Vinicius Damasceno
Nascido em São Paulo, Damasceno é pai de Clara e Benício e casado com Vanessa. Construiu sua carreira na área de tecnologia, chegando a ocupar posições de liderança em gestão de TI. Atualmente, atua como CIO e presta serviços de consultoria e gestão por meio da Dunker IT.
Foi, porém, fora do ambiente corporativo que encontrou algumas das experiências que atravessariam sua escrita. Durante anos, levou comida a pessoas em situação de rua nas madrugadas do centro de São Paulo e participou de visitas a famílias da Vila Brasilândia. O contato direto com essas realidades ampliou seu olhar para questões que dificilmente cabem em números, relatórios ou indicadores.
Nascer é uma Catástrofe nasce justamente desse contraste. De um lado, o universo da tecnologia, da eficiência e das métricas; de outro, a fome, o abandono e as pessoas que permanecem invisíveis para grande parte da sociedade.
Na trajetória de Igor, Vinicius Damasceno reúne essas contradições para discutir culpa e contexto, responsabilidade e abandono, afeto e brutalidade. Mais do que oferecer respostas, o romance convida o leitor a questionar as condições que antecedem cada escolha — e o quanto a sociedade está disposta a enxergar aqueles que costumam permanecer fora do quadro.
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