Post: Pioneira do graffiti paulista, Nenesurreal ocupa o Museu das Favelas em mostra que desafia a lógica do etarismo nas artes visuais

O Museu das Favelas, instituição da Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas do Estado de São Paulo, gerido pelo Instituto de Desenvolvimento e Gestão (idg), anuncia a abertura da exposição ‘Antes de Surreal, Nene’. Como a primeira mostra individual dedicada à trajetória da artista visual, grafiteira, educadora e articuladora comunitária Nenesurreal, de 59 anos, a exposição abre ao público no dia 27 de outubro, a partir das 14h, ampliando a presença da artista na instituição após o impacto de sua participação na exposição Imaginação Radical: 100 anos de Frantz Fanon e consolidando um marco de reparação e referência geracional nas artes visuais.

Refletindo a trajetória e a diversidade técnico-poética de Nene, a mostra apresenta um rico acervo multidisciplinar. Dentre as obras em destaque, encontram-se as emblemáticas “Cabeçudas”, representações de cabeças sem feições demarcadas que rejeitam clichês de dor ou superforça, reivindicando o direito à autonomia e ao futuro. O público também poderá conferir obras em telas inéditas, além de esculturas elaboradas em concreto e aço cirúrgico. Em trabalhos tridimensionais, a artista ressignifica materiais hospitalares acumulados ao longo dos mais de 20 vinte anos em que atuou como instrumentadora cirúrgica.

Com pesquisa e curadoria de Jairo Malta, a mostra revisita mais de três décadas da trajetória de Nenesurreal, marcada por experiências com o pixo e o graffiti desde a adolescência e pela retomada de sua atuação em 1996. Em diálogo com narrativas que consagraram nomes como Alex Vallauri, a exposição amplia o olhar sobre a arte urbana paulistana ao destacar o protagonismo das mulheres negras e os vínculos da artista com o Hip Hop da Grande São Paulo e a Casa do Hip Hop de Diadema. Documentada em pesquisas acadêmicas e representada no acervo da Pinacoteca Municipal de Mauá, sua produção articula graffiti, práticas têxteis e escultura como formas de sobrevivência, transmissão de saberes, memória e afirmação política.

A ocupação do Museu das Favelas por Nenesurreal atua como um ato de soberania e legitimação do direito de existência das produções periféricas no ecossistema das artes visuais.

“Ainda estou em um processo de aprender a receber. A gente que é mulher preta e da quebrada muitas vezes cai na cilada de achar que não merece. Para  continuar no graffiti, o meu trabalho teve que ser um ‘vômito’,  no sentido de tirar as amarras, rasgar as exigências de ‘técnica’ impostas e só jogar a verdade. A arte me salva todo dia, me dá vontade de lutar e  viver. O que  espero é que o público, especialmente jovens e mulheres pretas, veja essa mostra e entenda que existem muitas possibilidades, que a gente pode fazer o que quiser e não precisa mais servir a ninguém”, declara a artista.

Natural de Diadema (SP), Nenesurreal tensiona a lógica de produtividade do mercado de arte ao converter as interrupções compulsórias de sua biografia em fundamento teórico e poético. Mãe aos 16 anos e viúva aos 19, a artista conciliou a criação plástica com a sustentação familiar e a rotina na saúde pública, transformando as dinâmicas do cuidado e da sobrevivência em matéria-prima estética. Ao abraçar a concepção do tempo espiralar, onde o passado e o presente se entrelaçam, a exposição confronta diretamente o etarismo e afirma a longevidade criativa de uma mulher negra de 59 anos no auge de sua potência produtiva, em diálogo constante com a urgência das ruas.

Natália Cunha, diretora do Museu das Favelas, enfatiza que a mostra de Nenesurreal consolida o papel do museu como território importante para a visibilização dos nossos artistas.

“Acolher a primeira exposição de uma artista da envergadura e atemporalidade de Nenesurreal vai além de uma celebração curricular. O Museu das Favelas cumpre sua função ao dar rigor técnico, escala e centralidade a uma potência criativa e intelectual que há décadas já redefinia as artes urbanas a partir das periferias”, afirma.

Para o curador Jairo Malta, a exposição reconhece a força artística e humana de Nenesurreal.

“Nene é uma mulher doce e uma liderança nas artes de rua, com uma trajetória que abriu caminhos para outras mulheres negras. Pensar sua curadoria é reconhecer décadas de criação, enfrentamento e transmissão de saberes, sem tratar esse percurso como resgate ou descoberta tardia. Das esculturas às Cabeçudas, sua obra transforma memória e experiência em linguagem e reivindica o lugar da arte periférica no centro do debate estético, com autonomia e o direito de não se explicar por inteiro”, afirma.

 

SERVIÇO | EXPOSIÇÃO ‘ANTES DE SURREAL, NENE’

 

  • Abertura: 27 de outubro de 2026, 14h  
  • Em cartaz até: 11 de abril de 2027
  • Visitação: De terça-feira a domingo, das 10h às 17h (permanência até 18h)

 

Foto: Luan Batista 

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