Post: Por que passar por uma adrenalina dessas?  

Essa foi a pergunta que meu sogro me fez quando ele descobriu que eu amo filmes de terror. Gênero de cinema que ele abomina.

Para ele, passar duas horas tomando sustos, vendo imagens macabras, sangrentas e medonhas é a maior perda de tempo que alguém pode ter. Mas se você parar para pensar, a pergunta dele é muito boa: por que a gente fica vendo essas coisas? Qual é o apelo que filmes assustadores tanto tem com a gente?

Porque nós nos damos o direito de fazer a coisa mais anti-intuitiva que a raça humana pode fazer: botar todos os nossos instintos de proteção a prova por diversão?

No meu caso, são os mistérios do desconhecido.

É ver as diversas interpretações para algo que não sabemos. Histórias de terror, por mexer com os nossos medos e traumas, acabam sendo uma forma muito visceral, e intima, de analisar mente das pessoas. Poucas coisas nós botam aprova como passar um susto.

Através deste gênero, nós podemos trabalhar desde coisas pesadas, os já citados traumas, como nós podemos mergulhar em mistérios mais mundanos. Por exemplo, na crença humana em maldições.

Um exemplo disso é o famoso Necronomicon, criado por H.P Lovecraft, mas imortalizado na série de filmes Evil Dead.

O Necronomicon nada mais é do que um livro maldito, escrito por Abdul Alhazred, O Árabe Louco, que se lido, faz com que as pessoas sejam possuídas por demônios e tente matar seus amigos. Claro, da forma mais brutal e sangrenta que o criado, Sam Reimi, pode pensar.

E, claro, pode ser a forma de tratar de algo assustadoramente complexo, como o que existe do outro lado, quando deixamos este plano.

Bons filmes de terror, como o magistral Sexto Sentido, pegam para si a responsabilidade de tentar dar uma resposta para uma pergunta que atravessa os séculos, ocupando lugares em templos, igrejas e academias.

Já que eu citei um dos filmes da minha Trindade Profana dos filmes de Terror, vamos analisá-la e ver do que bons autores são capazes de fazer num gênero que recebe centenas de filmes medianos, para ruins, todos os anos.

O Sexto Sentido, Bruxa de Blair e O Exorcista foram os filmes que me fizeram gostar de cinema de terror. Cada um dentro do seu tema, esses filmes mostraram uma expertise fantástica em lidar com questões muito específicas na psique humana.

Enquanto Cole Sear, Haley Joel Osment, lida com o pavor de “ver gente morta o tempo todo” ele é protagonista de uma forte metáfora sobre o luto mal resolvido e dos arrependimentos de uma pessoa.

Os fantasmas de O Sexto Sentido são ecos dos piores momentos, decisões e relações das pessoas que eles foram. Notem o peso de cenas como a garotinha entregando uma fita para mostrar que a madrasta a estava envenenando e a emblemática cena da conversa com a mãe no carro, onde Cole alivia o luto mal processado da mãe pela perda da sua vó materna.

Por sua vez, A Bruxa de Blair escala, e muito, a régua do terror psicológico.

Heather Donahue, Michael C. Williams e Joshua Leonard embrenham-se numa floresta em Maryland para investigar a lenda local da acusada de bruxaria Elly Kedward, no século XVIII,  e de como este caso está relacionado com o do eremita Rustin Parr, acusado de assassinar várias crianças nos anos 1940.

A Bruxa de Blair traz de volta o falso documentário, gênero imortalizado pelo seminal e brutal Holocausto Canibal, com um frescor quase violento. Os atores usam seus nomes reais, nós vemos a imagem da câmera amadora como os olhos das vítimas daquela experiencia.

A Bruxa de Blair nos obriga a enfrentar o principal medo dos nossos ancestrais evolutivos mais primitivos: o maior medo que temos é do que está escondido nas sombras. O maior expoente do gênero terror psicológico nos ensina que tememos muito mais o que não podemos ver do que o monstro que está em tela.

E o último ser profano da minha Trindade é o magistral O Exorcista. Ele só não é um grande filme de terror, como um grande filme. Cinematografia, trilha sonora, direção, atuações, tudo em o Exorcista é um primor.  O ano era 1973 e o cinema de terror apresentou ao mundo o seu filho mais notório.

 Filme dirigido por William Friedkin, o Exorcista usa a clássica batalha entre o bem e o mal para analisar crise de fé e o limite entre ciência e o sobrenatural.

A cena de possessão demoníaca mais famosa do cinema cria uma situação em que o padre Damien Karras deve, finalmente, enfrentar o luto e a crise de fé criada pela morte de sua mãe, enquanto o padre Lankester Merrin deve suportar o peso de décadas de luta contra o mal ancestral representado pelo demônio Pazuzu, para tentar salvar uma criança inocente.

É claro que eu gosto de dezenas de filmes de terror, o texto sobre The Last of Us mostra meu amor pelo gênero de filmes de zumbis, mas estes três filmes respondem à pergunta do meu sogro.

Se vocês prestarem atenção, O Sexto Sentido, A Bruxa de Blair e O Exorcistas são filmes muito parecidos. Eles colocam o expectador na posição desconfortável de sentir medo e analisar como ele lidaria com uma situação dessas.

Esses três filmes criam metáforas para situação que qualquer um pode acabar tendo em sua vida: como você lidaria com um filho ou parente com uma condição mental adversa as dos demais? Qual é a sua reação durante um acampamento se um som estranho e sem origem ou explicação imediata acontecer as três da manhã de uma noite de neblina? E o que você faria se a sua vida tomasse um rumo aonde a sua fé é questionada a ponde de fazer você quase não se reconhecer?

No fim da conversa que gerou a pergunta cabalística do meu sogro, eu falei uma versão resumida dessa análise que eu escrevi aqui. Não que isso tenha feito  Morgan Troco assistir um filme de terror sequer nós últimos sete anos, mas ela foi importante para gerar outra pergunta: ok, esses filmes me fizeram gostar do cinema de terror, mas o que me fez gostar do gênero de terror?

Bom, eu pensei nisso e cheguei a uma conclusão. Foi assistindo a obra de um cara chama do Roberto Gomes Bolaños. Mas essa história fica para o segundo texto sobre terror que eu pretendo publicar em outubro.

 

Foto: Bernardo Herculano Nesello

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