França
O que começou em setembro com bloqueios de escolas na região de Paris se transformou em uma onda nacional de protestos estudantis na França. Em poucas semanas, milhares de jovens passaram a ocupar as ruas para denunciar a falta de professores, salas superlotadas, prédios escolares degradados e a falta de recursos para a educação pública. A mobilização também incorporou críticas à resposta policial e ganhou apoio de professores, pais, sindicatos e outros setores da sociedade.
A maior jornada de manifestações ocorreu em 6 de outubro, quando o Ministério do Interior contabilizou cerca de 256 mil pessoas em mais de 40 cidades, sendo 56 mil em Paris. As organizações estudantis apresentaram uma estimativa ainda maior, de aproximadamente 450 mil manifestantes em todo o país. O movimento, que inicialmente estava concentrado nos liceus, também chegou às universidades e passou a ser tratado pelo governo como uma crise de alcance nacional.
Em Paris, a principal marcha percorreu o trajeto entre a Place de la République e a Place de la Nation. Embora grande parte dos atos tenha ocorrido de maneira pacífica, alguns pontos terminaram em confrontos entre manifestantes e forças de segurança, com uso de gás lacrimogêneo e formação de barricadas. O Ministério do Interior registrou centenas de detenções durante a jornada, em um movimento que já acumula milhares de detenções desde o início dos protestos.
A pauta dos estudantes vai além de um pedido genérico por mais dinheiro. Entre as principais reivindicações estão a contratação de professores e funcionários, a redução do número de alunos por sala, a recuperação de escolas em más condições e mudanças no sistema de acesso ao ensino superior. Os estudantes também pedem o fim do Parcoursup, plataforma utilizada para distribuir vagas nas universidades e que é criticada por ser pouco transparente.
A deterioração da infraestrutura escolar se tornou um dos principais símbolos da mobilização. Estudantes relatam salas superlotadas, paredes danificadas, infiltrações e problemas de temperatura durante períodos de calor extremo. Em algumas regiões, a falta de professores também significa que aulas deixam de ser ministradas ou ficam sem substitutos, reforçando a percepção de que o sistema público enfrenta uma crise de recursos.
Ao mesmo tempo, a atuação policial passou a ser uma segunda frente de conflito. Mais de 6 mil pessoas foram detidas desde o começo da mobilização, segundo dados do Ministério do Interior, e a maioria dos detidos seria formada por menores de idade. A tensão aumentou depois que adolescentes ficaram gravemente feridos durante confrontos com a polícia, incluindo um jovem de 15 anos que perdeu uma das mãos em Lens.
Diante das críticas, o governo suspendeu temporariamente o uso de granadas de atordoamento durante operações contra os protestos estudantis e determinou investigações sobre episódios envolvendo policiais. O primeiro-ministro Sébastien Lecornu também reconheceu que as reivindicações dos estudantes são legítimas e prometeu apresentar propostas até o fim de outubro, incluindo medidas relacionadas às condições dos prédios e à falta de professores.
As medidas, porém, não foram suficientes para interromper as manifestações. Nesta quinta-feira (8), estudantes voltaram às ruas e mantiveram bloqueios em escolas, afirmando que os anúncios do governo ainda não apresentam respostas concretas para as reivindicações. Organizações estudantis afirmam que continuarão mobilizadas enquanto não houver compromissos efetivos com novos investimentos na educação.
Por trás da disputa está também a situação fiscal da França. O país enfrenta uma dívida pública elevada e pressão para reduzir o déficit, enquanto o orçamento de 2027 prevê medidas de ajuste. Os estudantes questionam a proposta governamental de restringir recursos justamente em um momento de deterioração das escolas, enquanto o governo argumenta que precisa equilibrar as contas públicas diante do espaço limitado para novos gastos.
A crise também ganhou dimensão política. O presidente Emmanuel Macron se aproxima do fim do mandato, com a eleição presidencial prevista para 2027, e o crescimento das manifestações acrescenta pressão sobre um governo que já enfrenta dificuldades para conduzir o debate orçamentário. O primeiro-ministro passou a defender uma resposta política às reivindicações, mas também acusa setores da oposição de tentar transformar os protestos em uma disputa partidária.
A mobilização francesa ainda acompanha um cenário mais amplo na Europa. Países como Bélgica, Portugal e Espanha também registram protestos e greves relacionados às condições de ensino, salários, falta de profissionais e financiamento dos serviços públicos. A coincidência das mobilizações ocorre em um período de pressão sobre os orçamentos nacionais, marcado por inflação, custos elevados da dívida e dificuldades para ampliar investimentos públicos.
Com os protestos entrando na terceira semana, o movimento estudantil francês deixou de ser apenas uma série de bloqueios escolares e passou a representar um desafio político mais amplo para o governo. A disputa envolve o financiamento da educação, as condições oferecidas aos estudantes e professores, o uso da força policial e as prioridades do orçamento público. Enquanto o Executivo tenta ganhar tempo para apresentar novas medidas, os estudantes prometem manter as ruas ocupadas até que as promessas se transformem em ações concretas.
Argentina
Ao longo dos últimos meses, a Argentina tem sido palco de uma série de protestos contra medidas econômicas adotadas pelo governo do presidente Javier Milei. As manifestações ganharam força especialmente em agosto, quando milhares de pessoas foram às ruas de Buenos Aires para reclamar do aumento do endividamento das famílias, dos juros elevados e das dificuldades para manter as despesas básicas. Segundo dados do Banco Central argentino, mais de 5,8 milhões de pessoas estavam inadimplentes, o equivalente a 12,5% da população, o maior nível registrado desde a crise de 2001.
Os protestos também reuniram comerciantes e empresários, que denunciaram o fechamento de mais de 30 mil empresas desde dezembro de 2023. As manifestações ocorreram na Praça de Maio, em frente à Casa Rosada, enquanto o presidente defendia seu programa econômico durante um evento com empresários. Entre as principais reclamações estão a perda do poder de compra, o aumento das tarifas de serviços públicos e a dificuldade das famílias em quitar empréstimos.
O endividamento passou a ser um dos principais pontos de tensão. De acordo com levantamento divulgado pela RFI (Radio France Internationale), quase 21 milhões de argentinos possuem algum tipo de dívida com bancos, cartões, carteiras digitais ou outras instituições financeiras. Cerca de 6 milhões estão inadimplentes. O cenário é agravado pelas altas taxas de juros, que chegaram a níveis elevados em determinadas modalidades de crédito.
As mobilizações voltaram a ganhar força no início de outubro, desta vez em torno da política de terras do governo. No dia 29 de setembro, a Suprema Corte argentina rejeitou uma ação contra o Decreto 70/2023, de Milei, que havia revogado parte das restrições existentes para a posse de terras rurais por estrangeiros. A Corte, porém, não analisou diretamente a constitucionalidade do decreto. A decisão foi baseada em uma questão processual relacionada à legitimidade da entidade que havia apresentado a ação.
Na prática, a decisão retirou um dos obstáculos judiciais à aplicação das mudanças promovidas pelo governo e voltou a colocar no centro do debate a possibilidade de ampliação da participação estrangeira na propriedade de terras rurais. A legislação argentina aprovada em 2011 estabelecia que estrangeiros poderiam controlar, no máximo, 15% das terras rurais, além de impor limites por nacionalidade e impedir a concentração de grandes extensões nas mãos de uma mesma pessoa ou empresa estrangeira.
A decisão provocou novas manifestações em Buenos Aires. Na terça-feira (6), trabalhadores públicos realizaram uma greve nacional e marcharam até a sede da Suprema Corte para protestar contra as mudanças nas regras de propriedade rural e contra a política econômica do governo. A paralisação foi convocada pela Associação dos Trabalhadores do Estado, a ATE, com participação de organizações sindicais, políticas e sociais.
O governo Milei defende a flexibilização das regras sobre propriedade de terras como uma forma de incentivar investimentos internacionais, especialmente em setores como agricultura, mineração e energia. Já sindicatos e movimentos sociais argumentam que a mudança pode aumentar a concentração de terras e facilitar a aquisição de áreas rurais por investidores estrangeiros.
A questão das terras já havia provocado mobilizações durante o mês de agosto. Na ocasião, a pressão de setores contrários à proposta levou o governo a retirar do debate no Senado o trecho do projeto que ampliava a participação estrangeira na propriedade rural. O texto original previa a retirada dos limites, mas, diante da falta de apoio, o governo chegou a propor uma nova versão que aumentaria o limite de 15% para 25% por província.
Os protestos passaram a reunir diferentes reivindicações relacionadas ao programa econômico de Milei. Além do endividamento das famílias e da questão das terras, sindicatos e movimentos sociais questionam a redução de gastos públicos, a perda do poder de compra dos salários e as mudanças nas regras trabalhistas e econômicas promovidas pelo governo.
O cenário mantém a pressão sobre Javier Milei, que segue defendendo a política de austeridade e a abertura da economia argentina para investimentos estrangeiros. Enquanto o governo afirma que as medidas são necessárias para reorganizar as contas públicas e estimular investimentos, setores sindicais e movimentos sociais afirmam que as mudanças têm ampliado as dificuldades enfrentadas por trabalhadores e famílias. As manifestações devem continuar nas próximas semanas, em meio ao debate sobre as medidas econômicas do governo e sobre o futuro das regras de propriedade de terras no país.
Espanha
A Espanha também tem sido palco de uma onda de protestos pautados pela crise habitacional que atinge o país. As manifestações ganharam força após o despejo de Maricarmen Abascal, de 87 anos, da casa onde vivia havia mais de 70 anos, em Madri. A idosa foi retirada do imóvel em 23 de setembro, em uma maca, após uma disputa que se estendia há anos. O caso provocou mobilizações em diferentes cidades espanholas e passou a simbolizar as dificuldades enfrentadas por pessoas que não conseguem arcar com o aumento dos aluguéis.
Os protestos se espalharam pelo país e reuniram dezenas de milhares de pessoas. Em Madri, cerca de 30 mil manifestantes participaram de uma marcha no dia 26 de setembro, enquanto centenas permaneceram acampadas na Puerta del Sol, uma das principais praças da capital. As manifestações também ocorreram em cidades como Barcelona, Sevilha e Valência. Entre as principais reivindicações estão maior proteção aos inquilinos, controle dos valores dos aluguéis e medidas que impeçam despejos quando não houver outra alternativa de moradia.
A crise está relacionada principalmente à escassez de imóveis e ao aumento dos preços dos aluguéis. Segundo informações divulgadas pela Agência Brasil, os valores cobrados para aluguel praticamente dobraram na última década, enquanto os salários não acompanharam o mesmo ritmo. O cenário dificulta principalmente a permanência de jovens no mercado imobiliário e aumenta o número de famílias que enfrentam dificuldades para manter suas moradias.
A situação ganhou ainda mais repercussão após a morte de Maricarmen, anunciada na quarta-feira, (7). A idosa estava internada desde o despejo e morreu aos 87 anos. A causa da morte não foi divulgada. Após a notícia, milhares de pessoas voltaram às ruas de Madri e montaram um memorial na Puerta del Sol, com flores, velas e cartazes. O Sindicato de Inquilinos de Madri, que organizou parte das mobilizações, afirmou que Maricarmen se tornou um símbolo da luta pelo direito à moradia.
O caso provocou também novas manifestações contra o governo e aumentou a pressão sobre o primeiro-ministro Pedro Sánchez. No início de outubro, o Parlamento espanhol rejeitou dois decretos apresentados pelo Executivo com medidas para enfrentar a crise habitacional. Entre as propostas estavam a ampliação da proteção contra despejos, mudanças nos contratos de aluguel e restrições a determinadas operações imobiliárias.
Com a rejeição das medidas e a continuidade dos protestos, Sánchez convocou eleições gerais antecipadas para 29 de novembro. As duas principais centrais sindicais espanholas, UGT e CCOO, também anunciaram uma greve geral de 24 horas para o dia 11 de novembro. A paralisação será a primeira greve geral convocada no país em 14 anos e tem como uma de suas principais reivindicações a garantia de salários que permitam o acesso à moradia.
Na tentativa de responder à pressão, o governo espanhol aprovou nesta semana um novo pacote com 21 medidas emergenciais para enfrentar a crise. As propostas incluem limites para os valores dos aluguéis, restrições à compra de imóveis residenciais por empresas, medidas de proteção contra despejos e incentivos para facilitar o acesso à compra ou locação de imóveis. As medidas têm caráter temporário e ainda precisam passar pela aprovação dos parlamentares.
Os protestos, porém, continuam. Em Barcelona, uma manifestação realizada na segunda-feira (5) terminou em confrontos entre manifestantes e policiais, com lançamento de pedras e incêndio de contêineres. O episódio ocorreu em meio a uma série de manifestações realizadas em diferentes cidades espanholas durante o período.
Além das medidas econômicas, os manifestantes cobram mudanças nas políticas de habitação e maior proteção para os inquilinos. Já setores empresariais e partidos de oposição questionam a greve geral anunciada pelos sindicatos e afirmam que o movimento possui também um componente político, especialmente diante da proximidade das eleições antecipadas.
O cenário mantém a crise habitacional no centro do debate político espanhol. De um lado, o governo de Pedro Sánchez tenta aprovar medidas emergenciais para conter o aumento dos aluguéis e reduzir os despejos. Do outro, movimentos de moradores e sindicatos pressionam por mudanças mais amplas e afirmam que as medidas apresentadas até agora não são suficientes para resolver a falta de moradias e o aumento dos custos. Com as eleições marcadas para novembro e uma greve geral prevista para o próximo mês, a questão da habitação deve permanecer como um dos principais temas políticos da Espanha nas próximas semanas.
Grécia
A Grécia tem enfrentado, nos últimos meses, uma série de manifestações envolvendo questões trabalhistas e políticas internacionais. Os protestos mais recentes ocorreram em Atenas, onde mais de 2 mil pessoas foram às ruas na terça-feira (6) para protestar contra a visita do secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio. A manifestação foi convocada pelo Pame, sindicato ligado ao Partido Comunista Grego, além de organizações estudantis e outros grupos de esquerda.
Os manifestantes se concentraram na praça Syntagma, em frente ao Parlamento grego, que precisou ser fechada ao trânsito. Centenas de policiais foram mobilizados para reforçar a segurança na região. Os grupos que participaram do ato criticaram a presença militar e política dos Estados Unidos na região e também manifestaram oposição à Organização do Tratado do Atlântico Norte, a Otan, e à União Europeia.
A visita de Rubio ocorreu em meio a discussões sobre segurança, energia e relações estratégicas entre os dois países. O secretário de Estado americano se reuniu com autoridades gregas para tratar da cooperação bilateral e afirmou que a Grécia é uma importante aliada dos Estados Unidos. Entre os assuntos discutidos estão a segurança regional, a defesa e o papel da Grécia no transporte de energia para o sudeste europeu.
A presença de Rubio, porém, provocou manifestações de grupos que contestam a política externa norte-americana. Os protestos ocorreram enquanto a Grécia tenta ampliar sua importância como rota de transporte e distribuição de gás natural para outros países europeus, em um cenário marcado pelos impactos das guerras na Ucrânia e no Oriente Médio sobre o mercado internacional de energia.
No dia seguinte aos protestos, Rubio fez um discurso em Atenas no qual associou valores da Grécia Antiga às posições defendidas pelo governo do presidente Donald Trump. Em discurso realizado na colina de Pnyx, local onde aconteciam assembleias na antiga Atenas, o secretário afirmou que a civilização ocidental estaria em um momento decisivo e defendeu uma política baseada na busca pelo poder nacional.
Rubio afirmou que os Estados Unidos optaram por priorizar o fortalecimento de sua indústria, de suas cadeias de abastecimento e de sua capacidade de defesa. Também pediu que a Europa aumente os investimentos militares, amplie a produção industrial e fortaleça suas alianças diante do que classificou como novas ameaças internacionais.
As manifestações contra a visita do secretário de Estado ocorreram em um país que já vinha registrando mobilizações trabalhistas. Em outubro de 2025, estudantes, servidores públicos, professores e trabalhadores do setor marítimo participaram de protestos contra uma proposta de reforma trabalhista que permitiria jornadas de até 13 horas por dia para trabalhadores com apenas um emprego.
Na época, o governo grego afirmou que a possibilidade de trabalhar por até 13 horas seria opcional e teria como objetivo oferecer maior flexibilidade aos trabalhadores. Os sindicatos, porém, argumentaram que a medida poderia pressionar funcionários, principalmente aqueles em empregos precários ou com salários mais baixos, e enfraquecer direitos trabalhistas.
A proposta provocou greves e manifestações em diferentes cidades, com paralisação de serviços públicos e interrupção de atividades no porto de Pireu. Os protestos faziam parte de uma mobilização mais ampla contra salários e condições de trabalho no país.
O cenário atual reúne, portanto, diferentes frentes de insatisfação. De um lado, sindicatos e trabalhadores mantêm críticas relacionadas às condições de trabalho e às reformas econômicas. De outro, movimentos estudantis, organizações políticas e grupos de esquerda têm questionado a aproximação da Grécia com os Estados Unidos e a Otan, especialmente em relação às políticas de defesa, aos conflitos internacionais e à presença militar na região.
A visita de Marco Rubio colocou essas questões novamente no centro do debate político grego. Enquanto o governo de Kyriakos Mitsotakis busca fortalecer a parceria com Washington nas áreas de defesa e energia, os grupos que participaram das manifestações defendem mudanças na política externa do país e criticam o aprofundamento da cooperação militar com os Estados Unidos. O cenário mostra que, além das questões econômicas e trabalhistas, a posição da Grécia diante das disputas internacionais também continua provocando mobilizações nas ruas de Atenas.
Venezuela
A Venezuela enfrenta uma nova onda de protestos provocada pelo agravamento da crise de energia elétrica. As manifestações acontecem em diferentes regiões do país e são marcadas por bloqueios de estradas, queima de pneus e panelaços durante a noite. Os moradores reclamam dos longos períodos sem eletricidade e cobram medidas para normalizar o fornecimento. Em algumas localidades, os cortes chegam a durar entre sete e 12 horas por dia.
Os protestos começaram a se intensificar no fim de setembro e se espalharam por estados como Zulia, Carabobo, Táchira, Aragua, Miranda, Lara, Guárico e Cojedes. Em um dos episódios, manifestantes bloquearam a rodovia que liga o oeste do país a Caracas e queimaram troncos e pneus, provocando longas filas de veículos. No estado de Táchira, uma estrada foi interditada depois que moradores passaram quatro dias sem eletricidade.
A situação é especialmente grave no oeste da Venezuela, região que há anos enfrenta interrupções no fornecimento. Segundo relatos de moradores, os cortes que anteriormente duravam cerca de três ou quatro horas por dia passaram a ser mais frequentes e prolongados. Em algumas localidades, famílias relatam ficar entre 40 e 80 horas sem energia ao longo de uma semana. A falta de eletricidade também provoca prejuízos para comerciantes, que perdem alimentos e precisam adaptar o funcionamento de seus estabelecimentos aos períodos em que há fornecimento.
A demanda por eletricidade também aumentou nas últimas semanas devido às altas temperaturas. No fim de setembro, o consumo chegou a 16.400 megawatts, o maior nível registrado desde 2017, segundo a presidente interina Delcy Rodríguez. Especialistas indicam que a geração média do país está em torno de 12 mil megawatts, criando uma diferença significativa entre a quantidade de energia disponível e a demanda.
A crise, porém, não está relacionada apenas ao aumento do consumo. O sistema elétrico venezuelano também enfrenta problemas estruturais acumulados ao longo dos anos, como falta de investimentos e deterioração da infraestrutura. Cerca de 90% da eletricidade do país é produzida por usinas hidrelétricas, o que torna o sistema especialmente dependente das condições de geração. Especialistas apontam que a recuperação das usinas e da rede de transmissão exige investimentos de longo prazo.
Outro fator de pressão é a retomada da produção de petróleo. A Venezuela possui as maiores reservas de petróleo do mundo e busca ampliar a produção com a abertura do setor para investimentos de grandes empresas internacionais. O aumento da atividade petrolífera, porém, exige mais eletricidade, justamente em um momento em que o sistema nacional não consegue acompanhar a demanda. Para especialistas, a falta de energia se tornou um dos principais obstáculos para a recuperação econômica do país.
A crise também afeta serviços essenciais e atividades econômicas. Moradores relatam dificuldades para trabalhar, estudar, armazenar alimentos e manter equipamentos funcionando. Em algumas regiões, até tratamentos médicos foram interrompidos durante os apagões. A situação levou parte da população a recorrer a geradores, mas o equipamento não está ao alcance de todas as famílias.
Diante do agravamento do problema, o governo da presidente interina Delcy Rodríguez anunciou medidas para tentar recuperar a capacidade de geração. Entre elas estão acordos com empresas internacionais, como a GE Vernova, para recuperar cerca de 5 mil megawatts ao longo de quatro anos. O governo também anunciou a intenção de acrescentar 1.300 megawatts de geração ao sistema.
Em agosto, o governo também determinou a redução da jornada de trabalho no setor público como uma tentativa de diminuir o consumo de eletricidade. A medida, no entanto, não impediu que os cortes continuassem se agravando em diferentes regiões do país. Enquanto isso, os protestos passaram a fazer parte da rotina de comunidades que enfrentam apagões frequentes.
Os atos colocam novamente a população venezuelana nas ruas em um momento de dificuldades econômicas e de tentativa de recuperação da atividade petrolífera. Em diferentes cidades, os manifestantes utilizam panelaços, bloqueios de estradas e queima de pneus para pressionar as autoridades por uma solução. O movimento também reúne críticas à forma como o sistema elétrico vem sendo administrado ao longo dos anos.
O cenário aumenta a pressão sobre o governo de Delcy Rodríguez, que precisa conciliar a recuperação da infraestrutura elétrica com a retomada da economia. Enquanto o governo anuncia investimentos e acordos com empresas internacionais, moradores de diferentes estados continuam cobrando uma solução para os apagões. A crise energética permanece como um dos principais obstáculos para a recuperação econômica da Venezuela e, ao mesmo tempo, alimenta novos protestos em diferentes regiões do país.
Chile
Poucos meses após assumir a Presidência do Chile, José Antonio Kast enfrenta uma nova onda de protestos contra as medidas de austeridade adotadas pelo governo. As manifestações, lideradas principalmente por estudantes, ganharam força após a apresentação do projeto de orçamento para 2027 e colocaram a educação pública no centro de uma disputa que envolve gastos sociais, prioridades do Executivo e o modelo de Estado defendido pelo novo governo.
Em 1º de outubro, milhares de estudantes, professores e trabalhadores ocuparam as ruas de Santiago sob o lema “Nem um peso a menos para a educação”. A mobilização foi convocada pela Confederação de Estudantes do Chile, a Confech, e contou com o apoio de organizações como o Sindicato dos Professores, a Central Única dos Trabalhadores e a Coordenadora Feminista 8M. A Confech estimou mais de 20 mil participantes na capital, enquanto os Carabineros calcularam cerca de 6 mil.
A marcha começou de forma pacífica e avançou pelo centro de Santiago em direção ao Palácio de La Moneda, mas terminou em confrontos entre manifestantes e policiais. Os Carabineros utilizaram gás lacrimogêneo e jatos d’água para dispersar parte dos participantes, enquanto alguns manifestantes responderam com pedras, garrafas e pedaços de madeira. O balanço oficial divulgado posteriormente apontou dezenas de detenções.
A mobilização não ficou restrita à capital. Atos também foram registrados em cidades como Temuco, Concepción, Antofagasta e Iquique. Em Valparaíso, onde funciona o Congresso Nacional, cerca de 10 mil pessoas participaram da manifestação, segundo a Confech, que também terminou em episódios de confronto e forte presença policial.
O estopim mais recente foi o projeto de orçamento para 2027 apresentado por Kast no fim de setembro. Embora a proposta preveja aumento nominal dos recursos destinados ao Ministério da Educação, a inflação reduz esse crescimento em termos reais e diferentes programas educacionais sofreram cortes ou tiveram seu financiamento alterado. Entre as medidas que provocaram reação estão a redução de recursos para os Liceos Bicentenario e o fim do financiamento explícito para o programa que distribui computadores a estudantes.
Segundo o governo, as mudanças fazem parte de uma estratégia para reorganizar as contas públicas e enfrentar uma situação fiscal considerada preocupante. A proposta estabelece aumento geral de 1,5% nos gastos públicos e prioriza áreas como segurança, crescimento econômico, emprego e manutenção de benefícios sociais. O Executivo também afirma que pretende preservar direitos considerados fundamentais, como a gratuidade do ensino superior público para mais de 600 mil estudantes.
Para as organizações estudantis, entretanto, a discussão vai além dos números apresentados pelo governo. Os movimentos afirmam que a redução ou alteração de programas pode comprometer o funcionamento das instituições e ampliar as dificuldades enfrentadas por estudantes da rede pública. O Sindicato dos Professores também criticou a atuação policial durante as manifestações e defendeu a continuidade dos investimentos na educação.
Os protestos fazem parte de uma mobilização que começou ainda nos primeiros meses do governo. Desde junho, estudantes e professores vêm realizando manifestações contra as medidas de austeridade e contra a possibilidade de redução de recursos públicos destinados à educação. A nova jornada de outubro, portanto, representa a continuidade de uma disputa que vem crescendo à medida que o governo apresenta suas primeiras grandes medidas econômicas e sociais.
A tensão também ultrapassa a pauta educacional. Em setembro, estudantes já haviam protagonizado manifestações em Santiago contra propostas de segurança do governo, em atos que igualmente terminaram em confrontos com a polícia. As mobilizações mostram que o início do mandato de Kast vem sendo acompanhado por resistência de setores organizados da sociedade diante de diferentes propostas do novo Executivo.
A resposta do presidente tem sido defender o direito de manifestação, mas condenar atos de violência e danos ao patrimônio. Após a marcha de outubro, Kast afirmou que os estudantes têm legitimidade para defender seus direitos, mas que os protestos precisam respeitar pessoas que pensam diferente e a propriedade alheia. O governo sustenta ainda que as principais políticas sociais foram preservadas no orçamento apresentado ao Congresso.
A disputa ganhou um novo capítulo nesta semana, quando uma comissão do Congresso rejeitou a verba destinada ao ensino superior prevista no orçamento de 2027. O episódio ampliou a pressão política sobre o governo e mostra que o projeto ainda enfrentará negociações no Legislativo antes de sua aprovação definitiva.
Com o orçamento ainda em discussão e novas mobilizações no horizonte, o governo Kast enfrenta um dos primeiros grandes testes políticos de seu mandato. O conflito em torno da educação reúne estudantes, professores, sindicatos e outros movimentos sociais, enquanto o Executivo tenta implementar uma agenda de redução e reorganização de gastos. O resultado dessa disputa deverá definir não apenas o financiamento da educação chilena no próximo ano, mas também os limites para a política de austeridade defendida pelo novo governo.
Índia
Uma onda de protestos tomou diferentes cidades da Índia nas últimas semanas em meio à crescente disputa sobre o cadastro eleitoral do país. A mobilização reúne partidos de oposição, estudantes e movimentos liderados por jovens que exigem a renúncia do presidente da Comissão Eleitoral, Gyanesh Kumar, e denunciam o risco de milhões de pessoas perderem o direito de votar. O conflito coloca sob pressão o governo do primeiro-ministro Narendra Modi e amplia o debate sobre a independência das instituições eleitorais indianas.
O principal ponto de tensão é a chamada Revisão Especial Intensiva, processo conduzido pela Comissão Eleitoral para atualizar os registros de eleitores. Mais de 130 milhões de nomes foram retirados dos cadastros durante a revisão, que começou no estado de Bihar e posteriormente foi ampliada para grande parte do país. A Comissão afirma que a medida busca eliminar registros duplicados, de pessoas mortas ou consideradas inelegíveis, enquanto opositores afirmam que cidadãos aptos estão sendo excluídos do processo eleitoral.
A revisão exige que muitos eleitores apresentem documentos para comprovar sua elegibilidade. O problema, segundo críticos, é que milhões de indianos vivem em condições que dificultam a obtenção ou apresentação desses registros, especialmente trabalhadores migrantes e pessoas de baixa renda. A Folha, citando o New York Times, aponta que dezenas de milhões de eleitores foram sinalizados por inconsistências nos dados e que muitos dos que contestaram a exclusão ainda aguardam uma decisão.
A dimensão da retirada dos nomes transformou a questão eleitoral em uma pauta de mobilização nacional. Em Nova Délhi e Mumbai, milhares de pessoas foram às ruas exigindo a suspensão da revisão e a saída de Gyanesh Kumar. Os manifestantes também acusam a Comissão Eleitoral de alterar os cadastros de maneira que poderia favorecer o Partido Bharatiya Janata, o BJP, legenda de Modi. A Comissão e o partido governista rejeitam a acusação e defendem a legalidade do processo.
Os protestos ganharam força com a participação de movimentos juvenis, incluindo o chamado Cockroach Janta Party, associado à chamada Geração Z. O grupo já havia participado de mobilizações que pressionaram o governo durante uma crise envolvendo vazamento de provas de um exame nacional. Agora, o movimento voltou às ruas para exigir mudanças no processo eleitoral e a saída do chefe da Comissão.
A tensão aumentou em Nova Délhi no início de outubro, quando a polícia passou a deter manifestantes durante os atos. Em 6 de outubro, o líder oposicionista Rahul Gandhi foi detido temporariamente junto com outros parlamentares durante uma marcha em direção à sede da Comissão Eleitoral. Os opositores pretendiam entregar um documento e cobrar explicações sobre a revisão dos cadastros, mas foram impedidos de avançar pelas barreiras policiais. Gandhi e os demais parlamentares foram posteriormente liberados.
As detenções ocorreram depois de vários dias de manifestações na capital. A polícia havia interrompido atos anteriores e levado participantes para longe das áreas de protesto, enquanto alguns manifestantes foram acusados de desrespeitar as restrições a grandes aglomerações impostas no centro de Nova Délhi. Em Mumbai, líderes oposicionistas também organizaram manifestações contra a revisão e pediram que o chefe da autoridade eleitoral deixasse o cargo.
A oposição afirma que a retirada em massa de eleitores pode alterar o equilíbrio político em futuras eleições. O temor é especialmente forte entre grupos que dependem de registros oficiais mais antigos para comprovar sua identidade e cidadania. Entre os críticos da revisão também estão ex-integrantes da própria estrutura eleitoral, que questionam a transferência para os cidadãos do ônus de provar que têm direito a permanecer nos cadastros.
Outro ponto de preocupação envolve a população muçulmana, que representa cerca de 200 milhões de pessoas na Índia. Críticos afirmam que esse grupo pode ser atingido de maneira desproporcional pela exigência documental e relacionam a revisão às políticas nacionalistas hindus associadas ao governo Modi. Até o momento, porém, não há comprovação de que a revisão tenha identificado um número significativo de estrangeiros entre os excluídos, e o governo rejeita as acusações de perseguição política.
A controvérsia também passou a envolver a própria estrutura da Comissão Eleitoral. Reportagens apontaram divergências internas entre integrantes do órgão sobre a condução da revisão dos cadastros. As informações alimentaram questionamentos sobre a independência da instituição, enquanto o governo e o BJP afirmam que a oposição está utilizando o tema para atacar uma iniciativa destinada a corrigir problemas históricos das listas eleitorais. A Reuters ressaltou que não conseguiu verificar de forma independente algumas das informações sobre as divergências internas.
A Comissão Eleitoral, por sua vez, determinou que eleitores considerados aptos, mas retirados das listas por engano, sejam registrados novamente. O órgão sustenta que a revisão é necessária para preservar a integridade do sistema eleitoral e retirar registros de pessoas falecidas, duplicados ou inelegíveis. A disputa, portanto, não se concentra apenas na quantidade de nomes retirados, mas na forma como as exclusões estão sendo realizadas e na capacidade dos cidadãos de contestar as decisões.
Com manifestações quase diárias, detenções e a participação crescente de partidos de oposição e movimentos juvenis, a revisão eleitoral se transformou em um dos principais desafios políticos enfrentados por Modi na metade de seu terceiro mandato. Os protestos colocam no centro do debate a preservação do direito ao voto e a independência da autoridade responsável pelas eleições. Enquanto o governo defende a atualização dos cadastros como uma medida administrativa, seus críticos afirmam que a escala das exclusões exige maior transparência e mecanismos mais acessíveis para garantir que cidadãos aptos não sejam afastados do processo eleitoral.
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