O futuro do pretérito dos espaços de leitura
Quando fecha uma biblioteca não tem passeata com centenas de pessoas. Não tem nota de repúdio na Câmara, não tem indignação de políticos com cortes pra redes sociais. Não tem brigas passionais de lados apaixonados defendendo ou atacando a causa.
Não tem, mas deveria.
Tem sim manifestações públicas de apoio, mas tímidas e sem a repercussão merecida.
Quando fecha uma biblioteca, não é uma porta que fecha. São janelas invisíveis e incontáveis. Fecham o conhecimento e a imaginação, a entrada para um mundo que já aconteceu e ainda pode acontecer, fecha uma saída de emergência do mundo real e muitas vezes cruel para uma possibilidade de transformação. Fecha um espaço de troca humana.
Hoje não quero falar de uma biblioteca apenas, mas do Instituto de Leitura Quindim, de Caxias do Sul.
Em 12 anos de existência, segundo dados do Instituto*, 300.000 pessoas foram impactadas presencialmente, 72.300 foram impactadas online por alguma ação do instituto, 87.150 livros foram emprestados, 1.715 famílias associadas, 30.700 estudantes de escolas públicas e privadas visitaram o espaço, 5.180 educadores participaram de formações, 2.700 crianças em vulnerabilidade social foram beneficiadas por ação solidária, 800 artistas participaram dos projetos desenvolvidos pelo Instituto, 5 edições da Especialização em Literatura Infantil e Juvenil em parceria com a UCS e 3 edições do Festival Internacional do Leitor Quindim aconteceram.
Não me contaram, eu vi o presidente do Instituto, Volnei Canônica, trabalhar incessantemente para fazer a coisa acontecer, e não fosse a teimosia solidária dele, o Instituto Quindim nem existiria, e nem resistiria por tanto tempo.
Quero ver isso virar trend, ouvir depoimentos indignados, compartilhamento de vídeos de vereadores colando cartazes de solidariedade. Pessoas comentando, se posicionando, vestindo a camiseta de FICA QUINDIM!
Mas no mundo invertido em que estamos, onde livros são banidos e até queimados, infelizmente não surpreende não viralizar o fechamento de uma biblioteca.
E exatamente por isso a gente tem que continuar lendo, mais do que passando o dedo para o próximo reel ou post. Precisamos engajamento real, para ajudar o Instituto Quindim a encontrar uma nova casa, porque se organizar direitinho, ele não vai desaparecer.
Numa sociedade de coaches que vendem cursos, compre um livro que não seja de autoajuda. Num universo de influencers, siga um livro. Num mundo de redes sociais, apoie uma biblioteca. Bora achar uma nova casa pro Quindim !!!
* https://www.instagram.com/institutodeleituraquindim/
** Para quem quiser saber mais sobre livros censurados, perseguidos ou queimados, procure a ‘Biblioteca Insubmissa”, um clube de assinatura da Imã Editorial que resgata estas obras.
*** Em tempo: ‘Quem mexeu no meu queijo?’, de onde tirei o título desta coluna, é um livro motivacional dos anos 90 e fala de mudanças, com aquelas frases típicas de coach dos anos 2000.





