Post: Refugiados congoleses enfrentam condições precárias em acampamento no Burundi

Cerca de 35 mil refugiados da República Democrática do Congo (RDC) vivem em condições precárias no acampamento de Busuma, no leste do Burundi. Mais de dez meses após a chegada de milhares de pessoas que fugiram dos conflitos em seu país, a escassez de alimentos, água e abrigo leva muitos a considerar o retorno à RDC, apesar dos riscos de segurança. O alerta é da organização Médicos Sem Fronteiras (MSF), que também aponta a possibilidade de redução da assistência humanitária nos próximos meses.

Segundo a entidade, mais de 20 mil refugiados retornaram à RDC desde abril, por meio de um programa de retorno voluntário coordenado pelas Nações Unidas para áreas consideradas seguras. Entretanto, a situação de quem permanece em Busuma continua preocupante, especialmente diante dos cortes de financiamento destinados às organizações que atuam no local.

A distribuição de alimentos e a assistência financeira foram reduzidas repetidamente. Além disso, os abrigos construídos no início da emergência, com vida útil estimada em seis meses, já apresentam sinais de deterioração com a aproximação da estação chuvosa.

De acordo com a MSF, algumas organizações humanitárias têm recursos garantidos apenas até o fim de 2026, enquanto outras podem ficar sem financiamento já em outubro. O cenário aumenta o risco de interrupção de serviços essenciais no início de 2027.

Saneamento e saúde preocupam

As condições sanitárias no acampamento seguem inadequadas. Em setembro, havia uma latrina para cada 119 pessoas e um chuveiro para cada 242 refugiados. Embora as ações emergenciais realizadas no início de 2026 tenham contribuído para controlar surtos de cólera e sarampo, a organização alerta que a chegada das chuvas pode agravar os riscos de doenças transmitidas pela água.

Entre julho e setembro, as equipes da MSF realizaram mais de 12 mil consultas ambulatoriais no acampamento e na comunidade vizinha, principalmente para tratar infecções respiratórias e intestinais. Mais de 300 pessoas também receberam atendimento médico especializado.

A saúde mental dos refugiados é outra preocupação. Segundo a psicóloga clínica Vanessa Niyonizigiye, que atua em Busuma, a violência vivida na RDC, o deslocamento forçado, as perdas familiares e materiais e a falta de condições básicas têm provocado sofrimento psicológico significativo. Entre os problemas identificados pelas equipes estão depressão, ansiedade, psicose e transtorno de estresse pós-traumático.

Refugiados cogitam voltar para casa

Diante das dificuldades, parte dos refugiados afirma preferir retornar à RDC a permanecer no acampamento. A decisão, no entanto, envolve riscos, já que a instabilidade na segurança continua sendo um fator de preocupação.

A refugiada Asiya Bipemaju, que chegou a Busuma em dezembro de 2025, divide atualmente um abrigo com outras 14 pessoas. Ela relata dificuldades para dormir e alimentar os filhos, além do impacto emocional de conviver com doenças e mortes no local.

A MSF considera preocupante que pessoas que buscaram proteção em outro país passem a enxergar o retorno a uma região instável como alternativa às condições enfrentadas no acampamento.

Para a organização, é necessário ampliar o apoio humanitário e garantir recursos para a continuidade dos serviços de saúde, saneamento, alimentação e abrigo. A entidade alerta que, sem medidas urgentes, a situação de milhares de refugiados poderá se agravar ainda mais nos próximos meses.

 

Foto: Eugene Osidiana/MSF

 

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