Se você leu o meu texto sobre Top Gun Maverik, sabe o que eu acho de continuações tardias. Bom, da maioria delas, pelo menos. Aquele texto é da época do lançamento do segundo Top Gun em 2022, passados dois anos, o problema parece ter agravado.
O Exorcista: o Devoto veio para fazer um barulho equivalente a um alfinete caindo no chão, a série de filmes Avatar de James Cameron está tão atrasada que parece copiar o desenho Avatar: A Lenda de Aang nos seus mínimos detalhes e Wonka ecoa a Fantástica Fábrica de Chocolates sem o menor pudor, tudo para atrair os fãs do filme de 2005.
Ou seja, a crise criativa de Hollywood está cavando o fundo do poço com um retroescavadeira.
Mas, como eu falei no meu texto anterior, de vez em quando aparece uma continuação que ninguém pediu, mas que acha o seu lugar e conquista o público.
O Diabo Veste Prada 2 é este filme.
Mas, pensando melhor, ele conta com uma vantagem, ele não precisa conquistar público, o público dele estava lá, espertando.
Eu mantenho a minha colocação anterior: eu acho que ninguém pediu este filme. Eu acho que a nostalgia e o starpower do quarteto principal, Anne Hathaway, Meryl Streep, Emily Blunt e Stanley Tucci, fez algum produtor brilhar os olhos e ter uma ideia, que na cabeça dele, era genial.
Por sorte, essa produtora, que é a Wendy Finerman, teve a ideia de chamar o diretor David Frankel e a roteirista Aline Brosh McKenna, mantendo o trio responsável pela realização do filme original. Isso é importante porque eles conhecem esses personagens e, principalmente, sobre o que estes filmes estão falando.
E não é sobre moda.
Para falar do segundo filme, eu tenho que falar sobre o primeiro. Eles estão intimamente ligados, embora tratem de temas diferentes.
Em 2006, nós fomos apresentados a Andrea Sachs, a Andy, interpretada por uma jovem, e já excelente, Anne Hathaway. Andy é uma recém-formada em jornalismo, idealista, que se muda para Nova York com o namorado, chefe de cozinha, Nate Cooper, com o desejo de escrever grandes matérias e que estas matérias causem um impacto positivo no mundo.
Porém, o que Andy consegue é o emprego que “um milhão de garotas mataria para ter” na icônica Runaway, a revista de moda mais importante do país.
Andy é construída como a pessoa de fora deste mundo. Ela não liga para moda, alta costura ou qualquer coisa do gênero. E a sequência de abertura deixa isso claro: ela escolhe suas roupas intimas de uma gaveta cheia de roupas amarrotadas, enquanto as suas colegas vestem o que de melhor o seu dinheiro pode pagar.
Esse é um artificio de roteiro clássico e muito usado: a novata será os nossos olhos na trama. Nós, e ela, não sabemos nada sobre aquele lugar e vamos aprender juntos.
Andy é tão turista naquele ambiente que ela nunca ouviu falar de Miranda Priestly. A temida editora-chefe da revista. Antes de enfrentar o Diabo do título, ela conhece a temperamental e ansiosa Emily, interpretada por Emily Blunt, que já mostrava a excelente atriz que se tornaria num futuro bem próximo, e o carismático antipático Nigel, interpretado pelo ladrão de cena Stanley Tucci (esse cara está sempre bem, não importa o filme que ele faça).
Esse elenco de apoio já mostra para ela, e para nós, o tipo de ambiente em que ela se meteu: tudo o que ela faz, veste, fala é criticado sem dó. Emily critica impiedosamente cada tentativa de Andy em ser ela mesma, Nigel é voraz quando o assunto é a forma em que a protagonista se veste.
É a máquina corporativa esmagando o indivíduo sem o menor sinal de remorso.
E o filme mostra a sua esperteza de roteiro nesse momento, pois isto é feito da forma mais glamurosa possível. Todas as marcas citadas ao longo do filme são sinônimo de elegância, cada restaurante frequentado é encarnação do luxo. E tudo culmina em uma viagem de primeira classe, com tudo pago, com direito às melhores roupas do mundo de graça, para a semana de moda de Paris.
Quem negaria isso? Quem não se sentiria tentado?
É o contrato de Venda de Alma embrulhado em ouro puro.
Quanto mais Andy progride no mundo da moda, mais ela deixa de ser ela mesma. E a pior parte: ela começa a justificar e a defender isso. Ela assina o contrato com o próprio sangue e honra, e acha que vender caro justifica a sua decisão.
Esse filme é uma história de queda e redenção muito bem bolada, porque faz isso da forma mais requintada possível. Ele disfarça a crueldade do mundo corporativo, a voracidade que engole a pessoa comum, de uma forma refinada. Para se adequar ao seu meio, Andy tem que usar as roupas mais famosas do mundo. Para ser alguém dentro da Runaway, ela precisa vendar a alma para o mesmo Diabo que todo mundo vendeu, e não enxerga problema nenhum nisso.
Para o mesmo Diabo que “um milhão de garotas mataria” para vender a sua alma.
E agora é chegada a hora de falar dela. Aquela que causa um frenesi de terror e pânico quando chega. Daquela que faz as pessoas abaixarem os olhos e saírem dos elevadores: Miranda Priestly. O Diabo que dá nome ao filme.
Miranda é o resumo perfeito do chefe abusivo: manipuladora, mentirosa, arrogante, traidora, maquiavélica, fria e calculista. Ela é tudo o que um chefe não pode ser.
Ela humilha seus subordinados por prazer, ela não pensa duas vezes em trair Nigel para salvar a sua carreira, ela troca Emily por Andy sem pestanejar. Miranda é a encarnação voraz da máquina corporativa que eu falei antes: se os demais personagens são engrenagens na desumanização da protagonista, mesmo que essa desumanização venha embalada em roupas de grife, Miranda é o motor cruel que movimenta o esquema todo sem o menor sinal de piedade.
Quando ela olha para Andy ela não vê um ser-humano, ela enxerga alguém para ser moldado pela sua vontade.
Nem os casamentos ou as filhas estão livres do pragmatismo de Miranda. O ego dela é tão descomunal, que Miranda vive num mundo próprio. O que ela quer tem que ser prioridade para todos e ponto. A cena da tempestade onde ela exige um avião é o exemplo perfeito.
Miranda merece o título de Diabo, e pior: ela o adora.
Mas, verdade seja dita: os motivos de gostarmos dessa personagem são resumidos em duas palavras, Maryl Streep.
Maryl faz essa encarnação do pior chefe do mundo funcionar, tamanha é a sua competência e habilidade teatral. Cada cena tem impacto, diálogos triviais ganham potência e peso. Maryl tem tanto controle sob a personagem, que a pessoa mais nojenta do filme, recebe alma.
Mas muito disso, seria técnica vazia se o filme não conversasse com o público com quem ele se propõe a falar. E isso é o grande forte da obra.
Este filme é o queridinho do público feminino por 20 anos. E eu entendo os motivos e argumentos. O filme destaca o protagonismo feminino como poucos. Andy é independente, luta pelo que quer, desafia o status quo o máximo que pode e fica pelo desafio. Ela sabe o quão competente ela é vai provar isso.
Nem para isso ela tenha que conseguir o novo livro do Harry Potter, que nem foi lançado. Eu amo essa cena.
A forma como o filme aborda os dilemas profissionais de uma mulher é bem humana. O namorado não entende os motivos pelos quais ela luta tanto para manter um emprego do qual ela nem gosta, o pai questiona as decisões dela desde a primeira, entrar em uma universidade menos renomada. Mas Andy não desiste e faz o questionamento mais poderoso e, infelizmente, mais comum e real: se fosse um homem, estariam falando a mesma coisa?
O Girl Power explode na tela a cada segundo, e é fantástico.
E foi esse elemento que fez com que o publico fosse fiel ao filme por tantos anos. O filme refletiu o seu publico por vinte anos, mas e se fosse o momento de falar sobre outras coisas?
O tempo passou o suficiente para que os assuntos a serem debatidos mudassem um pouco. O que choca é que muitos continuam iguais, mas sim, agora podemos falar do segundo filme e de seus temas.
Em 2026, encontramos uma Andy que cumpriu todas as profecias sobre o seu futuro: ela está no jantar onde receberá um prêmio pelas matérias que escreveu e por ter se tornado o que pretendia. E como bônus, ela é demitida porque jornais e revistas não vendem mais por causa do mundo online.
Fato que, também, está afetando a poderosa e intocável Miranda.
Assim como o tema do primeiro filme não é moda, e sim até onde você vai para provar que pode e como você pode ser corrompido no processo, o segundo lida com a luta entre a curadoria feita por profissionais qualificados, contra o vazio digital do engajamento rápido.
Nós podemos falar o que quisermos da fria e calculista Miranda, menos que ela é incompetente na sua área de trabalho. Mas isso é suficiente no mundo moderno?
A desculpa do roteiro para botar o quarteto original junto novamente, abre margem para uma discussão profunda sobre os tempos atuais.
Andy volta para a Runaway num cenário quase desastroso de crises profissionais e editoriais. Os abusos de Miranda Priestly contra suas funcionárias geraram processos e manchetes tenebrosas, blogueiras de moda estão infestando a internet, pessoas “entendidas” em moda estão roubando leitoras e “ninguém mais compra mídia física”.
Em outras palavras: Andy vai ter que lutar contra o triturador de carne assassino do mundo corporativo mais uma vez. Só que dessa vez, para salvar a pessoa que quase corrompeu a sua alma e personalidade.
Dessa vez não é um pacto com o Diabo, dessa vez Andy vai ter que escrever matérias para que as pessoas tentem entender o ponto de vista do Diabo.
O filme orbita uma luta interna e externa contra o efêmero. É o solido tentando encontrar lugar num mundo saturado de telas e algoritmos decidindo o que você vai ver, são pessoas do século XX tento que suportar que o conteúdo de hoje em dia tem um minuto e meio, senão ninguém consome.
Mas espere um minuto, por que elas têm que suportar isso? Justo agora a poderosa e implacável Miranda vai entregar os pontos sem lutar?
O navio pode estar em rota de colisão, mas ela ainda vai morrer agarrada ao timão. E vai ter ajuda.
Sem dar grandes spoilers, o filme consegue provar o seu ponto.
Os roteiristas fizeram um bom trabalho em apresentar a problemática e, sabiamente, não tentar dar uma resposta assertiva de como resolver esse problema, se é que ele tem solução. Eles apresentam como Andy, Miranda, Emily e Nigel solucionam o problema deles.
O Girl Power está todo lá, mais forte do que nunca. Mas dessa vez ele não tem que ser apresentado, ele é mais empoderado ainda, e para as próprias personagens, inclusive.
Se eu continuar escrevendo, eu vou me animar e passar da linha. Uma coisa é destrinchar um filme de 2006. Vocês tiveram vinte anos para assistir ele. Outra coisa é falar de um filme de três meses. Espero que, como eu, vocês tiveram a oportunidade de ver ele no cinema. Se não, bora para o stream.




