Mudar ou não mudar de estágio é um dilema comum na vida dos universitários que estão dando os primeiros passos no mercado de trabalho.
Mas, afinal, vale a pena permanecer em uma oportunidade que não corresponde às expectativas ou é melhor buscar novos caminhos?
E, principalmente, trocar de estágio pode prejudicar a imagem de quem ainda está começando a construir sua jornada profissional?
A resposta não é simples. Embora a ideia de permanecer muitos anos na mesma empresa tenha perdido força nas novas gerações, recrutadores alertam que mudanças frequentes e sem justificativa consistente ainda podem gerar questionamentos e reduzir a confiança nos candidatos durante processos seletivos.
Para Jéssica Gondim, gerente de Gestão de Contratos da Companhia de Estágios, a visão do mercado sobre movimentações de carreira mudou significativamente nos últimos anos.
“Hoje em dia há uma compreensão de que o início da carreira é justamente um momento de descoberta. Mas o que continua importante é a capacidade de explicar os motivos dessas transições”, afirma.
Segundo ela, trocar de estágio não costuma ser um problema quando existe uma razão legítima para a decisão. O risco aparece quando as mudanças se tornam frequentes ou parecem impulsivas.
“Se a pessoa entra, fica um mês, sai, e depois faz a mesma coisa em outra empresa pode sim surgir um questionamento sobre o quanto ela realmente avaliou aquelas oportunidades antes de aceitá-las e se pretende ter um compromisso real com o próximo estágio”, explica.
Nem toda insatisfação exige uma mudança
Um dos principais alertas feitos é que muitos estudantes confundem as dificuldades naturais do início da experiência profissional com sinais de que estão no lugar errado.
A adaptação ao ambiente corporativo envolve desafios que vão desde a gestão do tempo até a compreensão dos processos internos da empresa.
Por isso, é comum que os primeiros meses sejam marcados por dúvidas e até algumas frustrações.
Raquel Carvalho, analista de recrutamento e seleção da Companhia de Estágios, explica que é importante vivenciar o estágio por alguns meses para entender melhor a cultura da empresa, as atividades da área e o que realmente faz parte daquela rotina e quais as suas perspectivas de crescimento e efetivação.
“É tempo suficiente para entender bem a empresa, embora não exista uma regra absoluta sobre isso”, afirma.
Segundo ela, muitos estudantes podem tomar decisões precipitadas porque criam expectativas incompatíveis com a realidade do início da carreira.
“Às vezes o estagiário acredita que em um ou dois meses já estará participando de projetos estratégicos ou assumindo grandes responsabilidades. Mas existe um processo de aprendizagem que requer tempo. Primeiro é preciso dominar o básico para depois conquistar mais autonomia.”
Antes de pedir demissão, converse
Para as especialistas, um erro frequente nestas situações consiste em tomar a decisão de sair sem alinhar expectativas com o gestor direto ou com RH da empresa.
Para isso, a sugestão é que o estagiário utilize reuniões de acompanhamento e feedback para expor dificuldades, dúvidas e insatisfações antes de solicitar o desligamento.
Em alguns casos, mudanças de área, redistribuição de atividades ou até ajustes na gestão podem solucionar os problemas sem que seja necessário deixar a empresa.
“Se você sai dizendo que não gostava da área, a empresa pode perguntar por que nunca falou isso antes. Talvez existisse a possibilidade de uma mudança interna”, explica Jéssica.
Quando a troca faz sentido
Apesar disso, existem situações em que buscar uma nova oportunidade pode ser a decisão mais acertada.
Entre os motivos considerados legítimos pelas especialistas estão o fato de receber uma nova proposta mais vantajosa, a incompatibilidade entre as atividades e o curso de formação, dificuldades para conciliar estágio e vida acadêmica, problemas de deslocamento (quando a empresa muda de local por exemplo), falta de identificação com a cultura e situações mais graves, como assédio ou ambientes de trabalho inadequados.
Para Raquel, o importante é entender com clareza por que aquele ambiente não faz sentido e tentar comunicar isso de forma madura. A fase universitária, segundo ela, é justamente um período de experimentação.
“Muitos estudantes entram no primeiro estágio sem ter certeza absoluta da área em que querem atuar. É natural descobrir ao longo do caminho que existem outras possibilidades mais alinhadas aos seus interesses.”
A empresa super desejada vale a mudança?
Outra situação comum ocorre quando o estudante recebe uma proposta de uma empresa reconhecida no mercado enquanto já está estagiando em outro lugar. Nesse caso, a resposta depende menos da reputação da marca e mais dos objetivos de carreira do próprio estudante.
“Se é uma vaga que faz mais sentido para os objetivos da pessoa, para a área em que ela deseja atuar ou para o futuro que ela imagina para a carreira, não há motivo para deixar de tentar”, comenta Raquel.
Um exercício simples que pode ajudar na tomada de decisão, segundo a Jéssica, consiste em listar os prós e contras de permanecer onde está e aceitar a nova proposta.
“Mais importante do que o nome da empresa é entender quais são seus objetivos profissionais. O que você quer aprender? Qual área deseja desenvolver? O que é inegociável para você neste momento?”, orienta.
Como sair sem fechar portas
Quando a decisão de sair já está tomada, a forma como ela é comunicada pode ser tão importante quanto os motivos que levaram à mudança.
A recomendação é sempre conduzir o processo com transparência, respeito e responsabilidade.
Isso inclui comunicar a decisão com antecedência, organizar a transição das atividades e evitar abandonar projetos importantes sem a transição.
“Quando o estudante demonstra preocupação com o impacto da sua saída para o time, ele deixa uma imagem positiva, o que pode gerar boas referências e até indicações futuras. Uma saída responsável é vista com bons olhos pelos recrutadores da nova empresa”, afirma Jéssica.
Foto: Companhia de Estágios







