Post: Câncer de pulmão: quando uma tosse persistente deixa de ser comum e por que a doença vai muito além do cigarro

Uma tosse que persiste por semanas, uma falta de ar que surge aos poucos ou uma infecção respiratória que insiste em voltar podem parecer problemas comuns.

Em alguns casos, porém, esses sinais podem estar relacionados ao câncer de pulmão, uma doença que frequentemente evolui sem sintomas claros em suas fases iniciais e que ainda representa um importante desafio para a saúde pública brasileira.

No Brasil, o Instituto Nacional de Câncer (INCA) estima 35.380 novos casos por ano de câncer de traqueia, brônquios e pulmão no triênio 2026–2028, sendo 18.730 entre homens e 16.650 entre mulheres.

Em 2024, foram registrados 32.555 óbitos pela doença no país, segundo o Atlas de Mortalidade por Câncer.

O cenário reforça a importância da prevenção, da atenção aos sinais de alerta e, principalmente, da identificação da doença em fases em que as possibilidades de tratamento são maiores.

Um dos grandes desafios do câncer de pulmão é justamente o fato de que ele pode não apresentar sintomas nas fases iniciais. Quando os sinais aparecem, muitas vezes são confundidos com problemas respiratórios comuns. Por isso, mudanças persistentes no padrão da tosse, falta de ar, dor no peito, rouquidão ou presença de sangue no escarro não devem ser ignoradas, especialmente em pessoas que possuem fatores de risco“, explica o oncologista Dr. Mário Vilâny (CRM-CE 13129 | RQE 8441), da Kora Saúde.

Embora o tabagismo seja o principal fator de risco, o câncer de pulmão não é uma doença exclusiva de fumantes.

Segundo o INCA, cerca de 85% dos casos estão associados ao consumo de derivados do tabaco, mas fatores como exposição passiva à fumaça, poluição do ar, determinados agentes ocupacionais, radônio e predisposição genética também podem estar relacionados ao desenvolvimento da doença.

É importante desconstruir a ideia de que somente quem fuma pode desenvolver câncer de pulmão. O tabagismo é, de fato, o principal fator de risco, mas existem pacientes que nunca fumaram e recebem esse diagnóstico. Por isso, sintomas persistentes precisam ser avaliados independentemente do histórico de tabagismo“, ressalta o oncologista.

Do diagnóstico ao tratamento: cada tumor pode exigir uma estratégia

A investigação do câncer de pulmão pode envolver exames de imagem, como a tomografia computadorizada, mas a confirmação da doença geralmente depende da análise de uma amostra do tumor, obtida por biópsia, que pode ser feita por broncoscopia, por punção guiada por imagem ou por procedimento cirúrgico.

A partir desse material, é possível identificar o tipo de câncer e, em determinados casos, investigar características moleculares específicas da doença.

Essa etapa ganhou ainda mais importância com o avanço da chamada medicina de precisão.

Em determinados casos de câncer de pulmão, a identificação de biomarcadores pode indicar a utilização de terapias-alvo ou de imunoterapia e contribuir para a escolha de estratégias de tratamento mais individualizadas.

Hoje, não olhamos apenas para o local onde o tumor está ou para o tamanho da lesão. Em muitos casos, precisamos entender também as características biológicas e moleculares daquele câncer. Essa informação pode ajudar a definir qual tratamento tem maior possibilidade de benefício para aquele paciente. É uma mudança importante na oncologia: cada vez mais, tratamos características específicas da doença, e não apenas o órgão em que ela surgiu“, explica Dr. Mário.

O tratamento pode envolver cirurgia, radioterapia, quimioterapia, imunoterapia e terapias-alvo, de acordo com o tipo e o estágio do tumor, os biomarcadores identificados, as condições clínicas e as características individuais de cada paciente.

Diagnóstico precoce pode mudar o prognóstico

A diferença entre descobrir a doença em uma fase inicial ou em estágio avançado pode ser significativa.

Segundo dados reunidos pelo INCA, a sobrevida relativa em cinco anos é de 18% no conjunto dos casos, mas chega a 56% quando o tumor está localizado.

O dado reforça a importância do diagnóstico em fases iniciais: segundo o instituto, apenas 16% dos casos de câncer de pulmão são identificados nessa etapa.

O diagnóstico precoce é um dos fatores que mais podem mudar a trajetória de um paciente. Quando conseguimos identificar um tumor ainda localizado, aumentam as possibilidades de utilizar tratamentos com intenção curativa. Por isso, não devemos esperar que os sintomas se tornem intensos para procurar atendimento“, afirma o especialista.

Para pessoas com maior risco, o rastreamento também pode ter papel importante. A tomografia computadorizada de baixa dose pode ser indicada para determinados grupos de fumantes ou ex-fumantes com histórico significativo de tabagismo, mas a decisão deve ser individualizada e feita com orientação médica.

Prevenção começa antes do diagnóstico

Apesar dos avanços terapêuticos, a prevenção continua sendo uma das principais ferramentas contra a doença.

A interrupção do tabagismo é considerada a medida mais importante para reduzir o risco de câncer de pulmão, além da redução da exposição passiva à fumaça e a agentes carcinogênicos no ambiente de trabalho.

O melhor cenário ainda é evitar que a doença aconteça. Parar de fumar é uma decisão que traz benefícios em qualquer momento da vida, inclusive para quem já fumou durante muitos anos. E, para quem apresenta fatores de risco, manter acompanhamento médico é fundamental para avaliar individualmente a necessidade de investigação ou rastreamento“, conclui Dr. Mário Vilâny.

 

Foto: Divulgação

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