Durante a abertura da 81ª Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), realizada nesta terça-feira (22) em Nova York, líderes mundiais trouxeram à tona os principais desafios geopolíticos e ambientais da atualidade. O evento foi marcado por fortes críticas ao imobilismo internacional diante de conflitos armados, alertas sobre o avanço do negacionismo e da inteligência artificial, além de discursos firmes em defesa da soberania de países latino-americanos.
ONU em momento crítico e falhas na segurança global
O secretário-geral da ONU, António Guterres, abriu o evento alertando que “fissuras em nosso mundo estão se alargando” e estabeleceu quatro grandes testes de poder que moldarão o futuro global: a gestão da paz e da guerra, a concentração de riqueza e desigualdade, o caos climático e os riscos associados à inteligência artificial descontrolada e armas letais autônomas. Guterres também reforçou que os “poluidores devem pagar” e defendeu um assento permanente para a África no Conselho de Segurança, classificando a ausência do continente como “injusta e indefensável”.
Na mesma linha, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que a ONU vive seu momento mais crítico desde 2003, destacando que a credibilidade da organização nunca esteve tão baixa.
“A ONU está falhando em uma de suas missões mais elevadas. A de livrar a humanidade do flagelo da guerra. […] Somos todos reféns do imobilismo de um conselho de segurança que não cumpre seu papel”, declarou Lula da tribuna.
O presidente brasileiro também criticou severamente os conflitos no Oriente Médio, classificando as ações do governo de Benjamin Netanyahu em Gaza como genocídio, ao mesmo tempo em que condenou os atos terroristas cometidos pelo Hamas. No cenário internacional, Lula celebrou ainda a adoção recente de uma resolução histórica que reconhece o tráfico transatlântico de escravizados como o crime mais grave contra a humanidade.
Soberania, segurança pública e recado aos Estados Unidos
Em um dos trechos mais enfáticos de sua fala, Lula abordou as pressões geopolíticas na América Latina e rejeitou qualquer tipo de ingerência externa na soberania brasileira ou em processos eleitorais.
“Na América Latina e Caribe, a proximidade geográfica com a maior potência militar do mundo é inescapável, sobretudo no contexto do recrudescimento de tentações hegemônicas. O Brasil não cabe no quintal de ninguém”, afirmou.
O presidente brasileiro também respondeu de forma direta às cobranças externas sobre o combate ao crime organizado, descartando o uso de forças militares estrangeiras no território nacional:
“Não vamos transferir a responsabilidade de defender nossas fronteiras e de garantir à população o direito de viver sem medo”, pontuou.
“Não precisamos de porta-aviões vigiando nossas águas; precisamos de cooperação para estancar o fluxo de armas e de dinheiro que abastece o crime organizado”, acrescentou, ressaltando o rigor das novas leis brasileiras contra facções criminosas e corrupção.
Discurso de Donald Trump e bastidores
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, também discursou no plenário da ONU após a saída da comitiva brasileira. Em sua fala, Trump adotou tom duro em relação à segurança hemisférica e ao combate a cartéis de drogas na América Latina, comparando-os ao Estado Islâmico e defendendo o uso de poderio militar se necessário para salvaguardar os interesses norte-americanos, além de comentar sobre sanções a regimes como o de Cuba e negociações com o Irã.
Fontes próximas à presidência confirmaram que Lula e Donald Trump não se encontraram nos bastidores do evento nesta edição, em meio a um cenário diplomático sensível marcado por discussões comerciais e tensões eleitorais no Brasil. Logo após a conclusão de sua agenda na Assembleia Geral, o presidente brasileiro iniciou os preparativos para o retorno a Brasília.
Foto: Divulgação/ONU




