Post: Eleições em Israel terminam sem maioria e deixam futuro do governo Netanyahu indefinido

As eleições legislativas de Israel, realizadas na terça-feira (27), terminaram sem uma definição sobre quem formará o próximo governo. Com a maior parte dos votos apurados, o bloco do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu aparece à frente, mas não reúne cadeiras suficientes para garantir a maioria no Parlamento. O resultado abre um período de negociações entre partidos e aumenta a incerteza política no país.

De acordo com os dados parciais divulgados em 29 de outubro, o bloco liderado por Netanyahu contava com cerca de 53 a 54 dos 120 assentos do Parlamento israelense, conhecido como Knesset. A oposição, liderada por Gadi Eisenkot, ex-chefe das Forças Armadas, somava entre 48 e 49 cadeiras. Os partidos de maioria árabe, por sua vez, caminhavam para conquistar cerca de 19 assentos, em um resultado histórico para essas legendas.

Para formar um governo, é necessário reunir o apoio de pelo menos 61 dos 120 parlamentares. Como nenhum dos dois principais blocos alcançou esse número, o resultado dependerá da capacidade de construir alianças com outras forças políticas. A previsão era de que a contagem terminasse em 30 de outubro, enquanto a publicação oficial dos resultados estava prevista para 4 de novembro. 

Netanyahu lidera, mas enfrenta dificuldades para formar governo

O resultado representa um desafio para Netanyahu, que busca permanecer no comando do país. Embora seu bloco tenha obtido a maior quantidade de cadeiras entre as duas principais forças políticas, a redução da representação parlamentar de seus aliados dificulta a construção de uma maioria.

Na eleição anterior, realizada em 2022, o partido Likud, de Netanyahu, conquistou 32 assentos. Com seus aliados de direita e partidos ultraortodoxos, o primeiro-ministro conseguiu formar uma coalizão de 64 parlamentares. O cenário atual é diferente: mesmo com a liderança parcial, seu grupo não dispõe de apoio suficiente para repetir a composição anterior sem novas alianças.

Do outro lado, Gadi Eisenkot tenta reunir apoio para formar um governo alternativo. O ex-chefe militar lidera uma coalizão de oposição que reúne partidos com diferentes posições políticas, unidos principalmente pela tentativa de encerrar o governo de Netanyahu.

O principal obstáculo para ambos os lados é a dificuldade de estabelecer acordos com outras legendas. Os partidos árabes ganharam relevância na distribuição das cadeiras, mas a maior parte das forças judaicas da oposição descartou, durante a campanha, formar uma coalizão com essas organizações.

Com isso, as negociações podem se prolongar por semanas. Caso nenhum grupo consiga reunir uma maioria parlamentar, Israel poderá enfrentar um novo impasse político e a possibilidade de outra eleição.

Partidos árabes conquistam representação histórica

Um dos principais destaques do pleito foi o desempenho dos partidos liderados por políticos árabes, que conquistaram uma quantidade recorde de assentos no Parlamento. O avanço está relacionado, entre outros fatores, à participação eleitoral da comunidade árabe-israelense.

Os cidadãos árabes de Israel representam uma parcela significativa da população e possuem direito ao voto. Entretanto, enfrentam desigualdades sociais e econômicas, além de tensões políticas relacionadas à identidade nacional, à segurança e ao conflito entre israelenses e palestinos.

Durante a campanha, Netanyahu fez declarações contra partidos árabes e questionou sua atuação política. Com o avanço da apuração, o Likud passou a acusar essas legendas de terem interferido ilegalmente no resultado eleitoral.

O crescimento da representação árabe pode ser decisivo nas negociações para a formação do próximo governo, embora a resistência de grande parte dos partidos judaicos a uma aliança com essas forças limite suas possibilidades de influência direta.

O líder de uma coalizão de esquerda majoritariamente árabe defendeu a construção de uma aliança entre judeus e árabes. A proposta, porém, enfrenta obstáculos políticos em um ambiente marcado por divisões profundas sobre o conflito regional e a identidade do Estado israelense. 

Polícia rejeita acusações de fraude eleitoral

A disputa ganhou novos contornos após o partido de Netanyahu afirmar que as eleições teriam sido “roubadas” por partidos árabes. O Likud alegou a existência de irregularidades e possível interferência estrangeira, mas as acusações não foram acompanhadas de provas públicas que demonstrassem uma fraude capaz de comprometer o resultado.

Em 29 de outubro, a polícia israelense afirmou não haver evidências que sustentassem as alegações do partido. Segundo uma fonte policial citada pela imprensa local, foram registradas poucas irregularidades relacionadas à integridade da votação, inclusive em comparação com eleições anteriores.

A Comissão Eleitoral Central também declarou não haver fundamento conhecido para as acusações de fraude sistemática. Ainda assim, a possibilidade de interferência estrangeira foi encaminhada para investigação pelo serviço de segurança interna de Israel, o Shin Bet. A investigação não representa, por si só, confirmação de que houve fraude. 

O episódio provocou críticas de representantes árabes, que interpretaram as declarações como uma tentativa de deslegitimar o resultado obtido por suas legendas. O governo do Catar também negou ter interferido nas eleições ou financiado iniciativas para influenciar o pleito.

O presidente israelense, Isaac Herzog, pediu que os partidos negociem com abertura e que as alegações sejam investigadas sem colocar em dúvida, de maneira generalizada, a participação dos eleitores árabes.

A controvérsia aumenta a tensão política justamente no momento em que as forças partidárias precisam negociar alianças para definir a próxima administração do país.

Como funciona a formação do governo em Israel?

Diferentemente do Brasil, Israel adota um sistema parlamentarista. Os eleitores votam em partidos, e as cadeiras do Parlamento são distribuídas proporcionalmente aos votos recebidos pelas legendas que atingem o percentual mínimo exigido.

O primeiro-ministro não é escolhido diretamente pela população. Após a divulgação dos resultados oficiais, o presidente do país consulta os representantes políticos e encarrega um parlamentar de tentar formar um governo que conte com o apoio da maioria do Knesset.

Como nenhum partido costuma conquistar sozinho os 61 assentos necessários, a formação de coalizões é fundamental para governar. Partidos menores podem, assim, exercer influência significativa nas negociações, negociando apoio em troca de participação no governo ou compromissos com suas pautas.

No cenário atual, tanto Netanyahu quanto Eisenkot precisam ampliar suas alianças. A quantidade de assentos conquistada pelos partidos árabes torna essas legendas relevantes para o cálculo parlamentar, mesmo diante da resistência de parte da oposição a negociar com elas. 

Palestina segue em crise humanitária

Enquanto Israel enfrenta incerteza política, a população palestina continua submetida a uma grave crise humanitária, marcada pelos efeitos da guerra na Faixa de Gaza e pelo aumento da violência e das restrições de circulação na Cisjordânia ocupada.

Na Faixa de Gaza, apesar do cessar-fogo que entrou em vigor em outubro de 2025, ataques aéreos, bombardeios e disparos continuaram sendo registrados em 2026, segundo o Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA). A destruição de moradias e da infraestrutura básica mantém milhares de famílias em condições precárias, com dificuldades para conseguir abrigo, água potável, alimentos e atendimento médico.

Em relatório publicado em outubro de 2026, a agência informou que cerca de 950 mil pessoas deslocadas viviam em locais com risco médio a alto de inundação, incluindo mais de 400 mil em áreas de alto risco. A falta de combustível, recursos financeiros e materiais de construção também limita os esforços de recuperação e a prestação de serviços essenciais. 

Na Cisjordânia, incluindo Jerusalém Oriental, a situação também se deteriorou. Dados do UNICEF indicam que, entre janeiro e setembro de 2026, 91 palestinos, incluindo 24 crianças, foram mortos por forças israelenses ou colonos, enquanto mais de 2,1 mil palestinos ficaram feridos no mesmo período.

O relatório também aponta que demolições, violência de colonos e restrições de acesso provocaram deslocamentos de famílias e prejudicaram o acesso à educação e a outros serviços básicos. 

A mudança de governo em Israel poderá influenciar as decisões sobre segurança, ocupação dos territórios palestinos, negociações diplomáticas e assistência humanitária. No entanto, o resultado eleitoral, por si só, não permite prever alterações imediatas na situação da Palestina.

Com a apuração ainda em andamento e as negociações políticas apenas começando, permanece incerto qual grupo assumirá o governo israelense e quais serão suas prioridades em relação ao conflito. Para os palestinos, a continuidade da violência, as restrições de circulação e a falta de condições adequadas de moradia e atendimento humanitário seguem entre os principais desafios.

 

Foto: Yonatan Sindel/Reuters

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