Post: Protestos na França pressionam governo Macron e levam a medidas de segurança mais rígidas

A França enfrenta uma onda de manifestações que começou em setembro de 2026, inicialmente impulsionada por estudantes que denunciavam problemas na estrutura das escolas e a falta de professores. Ao longo das semanas, os protestos se ampliaram e passaram a reunir sindicatos, trabalhadores e integrantes de movimentos sociais, com reivindicações relacionadas ao custo de vida, à desigualdade e à deterioração dos serviços públicos.

A mobilização ganhou novos contornos em outubro, quando manifestações em diferentes cidades terminaram em confrontos com a polícia, saques e depredações. Diante da escalada da violência, o governo do presidente Emmanuel Macron passou a combinar negociações com representantes dos estudantes e medidas de segurança mais rigorosas. O cenário também abriu uma disputa política sobre os limites da atuação policial e o direito de manifestação. 

Protestos se espalham e ampliam pressão sobre o governo

Em 17 de outubro, a França registrou uma das jornadas mais violentas da onda de manifestações. Enquanto milhares de pessoas participaram de atos pacíficos, grupos envolvidos em episódios de vandalismo atacaram estabelecimentos comerciais, veículos policiais e prédios públicos.

Segundo informações divulgadas pela Reuters, os protestos daquele sábado reuniram centenas de milhares de pessoas em diferentes cidades. Entre os episódios registrados estavam incêndios em prédios públicos, invasões de lojas e confrontos com agentes de segurança. As autoridades também investigam denúncias de violência policial durante as operações. 

Uma semana depois, em 24 de outubro, cerca de 410 mil pessoas participaram de manifestações em todo o país, segundo o Ministério do Interior francês. A central sindical CGT, por sua vez, estimou um público de aproximadamente 800 mil manifestantes.

A mobilização ocorreu sob um forte esquema de segurança, com 70 mil policiais e integrantes da gendarmaria mobilizados. Embora a operação tenha evitado uma repetição da dimensão dos saques registrados na semana anterior, houve confrontos em Paris, Marselha e outras cidades. 

As reivindicações também ultrapassaram o movimento estudantil. Sindicatos e representantes de diferentes categorias passaram a defender mais investimentos em serviços públicos, reajustes salariais e medidas para enfrentar o aumento do custo de vida.

Governo anuncia medidas para responder às reivindicações

Em 26 de outubro, Macron afirmou que o primeiro-ministro Sébastien Lecornu anunciaria medidas para tentar conter a mobilização. O presidente declarou que havia solicitado ao governo uma resposta às reivindicações consideradas legítimas e alertou para a possibilidade de novos episódios de violência.

Na área da educação, o governo apresentou propostas que incluem limitar o número de alunos em determinadas turmas do ensino médio, disponibilizar empréstimos para reformas em escolas e modificar o sistema de acesso às universidades, conhecido como Parcoursup.

O pacote também prevê investimentos em campi universitários, atualização de bolsas estudantis conforme a inflação e ampliação da oferta de vagas no ensino superior. Apesar das concessões, representantes estudantis afirmaram que as medidas não atendem a todas as reivindicações e mantiveram a convocação de novos atos.

Representantes de professores também consideraram insuficientes as propostas, especialmente diante das demandas por mais profissionais e melhores condições de ensino. 

Senado aprova projeto para responsabilizar manifestantes por danos

Outra resposta à crise veio do Senado francês. Em 28 de outubro, os senadores aprovaram, por 229 votos a 105, o projeto de lei conhecido como casseurs-payeurs, expressão que pode ser traduzida como “quebrou, pagou”.

A proposta prevê a responsabilização financeira de participantes de manifestações que resultem em depredações. O texto estabelece a possibilidade de cobrar até 10 mil euros por pessoa — aproximadamente R$ 60 mil — em determinadas circunstâncias, inclusive quando integrantes de um grupo forem considerados coletivamente responsáveis pelos danos.

A iniciativa ganhou força após os episódios de violência de outubro. Segundo dados citados pela imprensa francesa, milhares de estabelecimentos comerciais foram atingidos durante os protestos, provocando prejuízos a comerciantes e empresas. 

O projeto também prevê a possibilidade de penhorar determinados benefícios sociais para quitar indenizações. Durante a tramitação no Senado, foram ampliadas as medidas relacionadas à segurança, incluindo disposições sobre o uso de tecnologias de videomonitoramento.

A proposta, entretanto, ainda precisa passar pela Assembleia Nacional, a Câmara dos Deputados francesa. Portanto, a aprovação pelo Senado não significa que as medidas já estejam em vigor.

A iniciativa divide os parlamentares. Defensores argumentam que os responsáveis por depredações devem arcar com os prejuízos causados à sociedade. Já setores da esquerda e organizações de defesa dos direitos humanos alertam que a responsabilidade coletiva pode atingir pessoas que não praticaram diretamente atos de vandalismo, levantando questionamentos sobre o direito de manifestação e a individualização das punições.

Comerciantes contabilizam prejuízos

Os efeitos da onda de protestos também atingem a atividade econômica. Reportagem da Reuters publicada em 29 de outubro aponta que cerca de 2,4 mil estabelecimentos comerciais foram danificados, segundo a Câmara de Comércio francesa, com prejuízos superiores a 1 bilhão de euros.

Mais de um quarto dos estabelecimentos atingidos permanecia fechado, enquanto outros comerciantes optaram por suspender temporariamente o atendimento para proteger funcionários e patrimônios. A proximidade da temporada de compras de fim de ano aumenta a preocupação do setor, já que novembro e dezembro representam uma parcela importante das vendas anuais do varejo francês. 

Além dos danos materiais, o clima de insegurança tem afetado a circulação de consumidores e turistas em algumas regiões. O setor comercial teme que a continuidade das manifestações comprometa ainda mais o movimento nas lojas durante o período natalino.

Novas manifestações estão previstas

A mobilização deve continuar nos próximos dias. Organizações estudantis, sindicatos e integrantes de movimentos sociais convocaram novos atos para 31 de outubro e uma jornada nacional de greve para 5 de novembro.

As pautas incluem melhores salários, ampliação dos investimentos em serviços públicos, valorização da educação e medidas para reduzir o impacto do custo de vida. O movimento também passou a reunir grupos com diferentes orientações políticas, incluindo apoiadores dos chamados Coletes Amarelos, mobilização que ganhou força na França a partir de 2018.

O governo enfrenta, assim, o desafio de responder às reivindicações sociais sem agravar a situação das contas públicas e, ao mesmo tempo, conter novos episódios de violência. A ausência de uma maioria parlamentar estável também dificulta a aprovação de medidas e do orçamento para 2027.

Com novos protestos previstos e divergências sobre as respostas apresentadas até agora, a situação permanece aberta. Os próximos dias devem indicar se as concessões na educação e as medidas de segurança serão suficientes para reduzir a mobilização ou se a insatisfação continuará se ampliando para outros setores da sociedade francesa.

 

Foto: Reprodução 

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