Post: Terapia hormonal na menopausa causa câncer de mama? Especialista explica riscos e importância da avaliação individual

A possibilidade de a terapia hormonal aumentar o risco de câncer de mama ainda gera dúvidas e insegurança entre muitas mulheres que enfrentam a menopausa. O receio ganhou força principalmente após a divulgação dos primeiros resultados do estudo Women’s Health Initiative (WHI), no início dos anos 2000, que contribuiu para uma redução significativa no uso da terapia hormonal.

Mais de duas décadas depois, a discussão científica se tornou mais ampla. De acordo com a Dra. Patrícia Menegusso, médica com atuação em saúde da mulher, climatério e menopausa, não é possível responder de forma simples à pergunta sobre a relação entre terapia hormonal e câncer de mama.

Segundo ela, é necessário considerar o tipo de hormônio utilizado, a combinação, o tempo de tratamento, a idade da paciente e os fatores individuais de risco.

“O maior problema é transformar uma questão que exige avaliação individual em uma resposta absoluta. Não podemos dizer que toda terapia hormonal aumenta o risco de câncer de mama da mesma maneira, assim como não podemos dizer que ela é isenta de riscos”, explica.

Tipo de terapia pode fazer diferença

As evidências científicas não apontam para o mesmo comportamento em todas as formas de terapia hormonal.

Segundo publicação da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (FEBRASGO), os resultados observados com a combinação de estrogênio e progestagênio são diferentes daqueles registrados em mulheres que utilizam apenas estrogênio.

Em uma análise do estudo WHI citada pela entidade, foram registrados 38 casos de câncer de mama para cada 10 mil mulheres por ano entre as participantes que utilizaram terapia combinada, contra 30 casos no grupo que recebeu placebo. A diferença corresponde a oito casos adicionais para cada 10 mil mulheres por ano.

No mesmo estudo, não foi observado aumento do risco de câncer de mama com a terapia estrogênica isolada.

A médica, porém, ressalta que esses dados não significam que uma modalidade seja indicada para todas as mulheres ou que outra seja proibida.

“Isso não significa que o estrogênio isolado seja indicado para todas as mulheres, nem que a terapia combinada seja proibida. Significa que precisamos entender exatamente qual situação clínica estamos avaliando. Uma mulher com útero, por exemplo, tem necessidades diferentes de uma mulher que passou por histerectomia”, afirma Patrícia.

Histórico de saúde também deve ser considerado

O risco de câncer de mama não está relacionado apenas ao uso de hormônios. Idade, histórico familiar, obesidade, consumo de álcool, sedentarismo e histórico pessoal de câncer estão entre os fatores que podem fazer parte da avaliação.

Por isso, a decisão sobre iniciar ou não a terapia hormonal deve levar em conta o histórico e as características de cada paciente.

A FEBRASGO recomenda que a terapia hormonal seja individualizada, considerando aspectos como benefícios, riscos, tipo de hormônio, dose e via de administração.

“Antes de prescrever qualquer tratamento, precisamos conhecer essa mulher. Qual é a intensidade dos sintomas? Quanto eles interferem na qualidade de vida? Ela tem histórico de câncer de mama? Como é seu risco cardiovascular? Quais são seus antecedentes familiares? Quais outros medicamentos utiliza? Tudo isso entra na decisão”, explica a médica.

E para mulheres que já tiveram câncer de mama?

Para mulheres com histórico de câncer de mama, a avaliação exige ainda mais cautela.

De acordo com a FEBRASGO, não existem atualmente dados suficientes que comprovem a segurança da terapia hormonal em mulheres que já receberam diagnóstico da doença. A entidade mantém o câncer de mama como contraindicação à terapia hormonal sistêmica.

Nesses casos, alternativas não hormonais podem ser consideradas para o controle dos sintomas da menopausa, sempre com acompanhamento médico.

“Uma mulher que teve câncer de mama não deve simplesmente iniciar terapia hormonal porque ouviu que ‘os hormônios foram liberados novamente’. Essa é uma situação completamente diferente e precisa ser discutida com muito cuidado, considerando inclusive o tipo de câncer e o tratamento realizado”, alerta Patrícia.

Medo também pode afastar mulheres do tratamento

Na avaliação da médica, existe ainda outro aspecto importante na discussão: o medo do câncer de mama pode fazer com que algumas mulheres deixem de procurar atendimento mesmo quando os sintomas da menopausa afetam significativamente a rotina.

Ondas de calor, insônia, alterações geniturinárias e outros sintomas podem interferir na qualidade de vida durante o climatério e a menopausa.

“Não quero que a mulher tenha medo de fazer terapia hormonal. Quero que ela tenha informação suficiente para entender se, no caso dela, os benefícios superam os riscos. Recusar um tratamento por medo, sem sequer discutir as possibilidades com um médico, também não é uma decisão verdadeiramente informada”, afirma.

Tratamento deve ser individualizado

Para Patrícia, a discussão sobre terapia hormonal não deve ser reduzida à defesa ou à condenação do tratamento de forma geral.

A escolha depende das características, necessidades e riscos de cada paciente.

“Nem toda mulher precisa de terapia hormonal. Nem toda mulher pode fazer terapia hormonal. E nem toda mulher que pode fazer precisa necessariamente fazê-la. A decisão precisa ser individualizada e compartilhada entre médica e paciente”, conclui.

O objetivo, segundo a especialista, é definir uma estratégia de cuidado que considere os sintomas da menopausa, os possíveis riscos e benefícios, o histórico de saúde, as expectativas e a qualidade de vida de cada mulher.

 

Foto: Magnific

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