Post: Mercado vê aceleração da economia em 2026, mas alerta para avanço da dívida pública

O mercado financeiro trabalha com uma perspectiva de melhora da atividade econômica brasileira, mas o otimismo para o curto prazo convive com uma preocupação de longo prazo: a trajetória da dívida pública. Enquanto 68% dos CEOs do setor financeiro ouvidos pela PwC esperam uma aceleração da economia brasileira em 2026, a confiança no crescimento das próprias receitas caiu de 62% para 48%.

Ao mesmo tempo, projeções reunidas pelo Banco Central indicam que a dívida bruta do país pode passar de 82,5% para 100,1% do Produto Interno Bruto (PIB) até 2034. Para especialistas, os dois cenários não são necessariamente contraditórios. A economia pode apresentar uma recuperação no curto prazo enquanto os desequilíbrios fiscais continuam pressionando as perspectivas para os anos seguintes.

Segundo André Matos, CEO da MA7 Capital, a diferença entre as expectativas para a economia e para as receitas das empresas mostra justamente essa distância entre o futuro esperado e a realidade atual. Para ele, a perspectiva de melhora está relacionada principalmente à possibilidade de redução dos juros.

“Nos próximos meses, a desaceleração ainda deve prevalecer. A política monetária atua com defasagem, o que significa que parte do aperto realizado continua chegando à atividade”, afirma.

Matos avalia que uma aceleração mais consistente deve ocorrer somente em 2027 e 2028, caso o ciclo de redução da Selic avance e seus efeitos sejam transmitidos para o crédito, o consumo e os investimentos. Nesse processo, porém, o risco fiscal pode se tornar um obstáculo, caso pressione novamente os juros.

Crescimento e dívida caminham em ritmos diferentes

Para Cassio Viana de Jesus, CIO da Pilar Capital, a pesquisa da PwC e as projeções para a dívida pública retratam horizontes diferentes. Enquanto a primeira aponta para uma possível melhora do ciclo econômico, a segunda evidencia uma questão estrutural das contas públicas.

O especialista destaca ainda que uma economia estimulada pode apresentar crescimento sem que isso resulte, necessariamente, em aumento sustentável das receitas das empresas. A queda de 62% para 48% na confiança dos CEOs em relação ao próprio faturamento seria um reflexo dessa diferença.

Na avaliação de Viana de Jesus, para evitar que a dívida ultrapasse 100% do PIB em 2034, o país precisaria combinar superávits primários relevantes e persistentes com juros mais baixos. Ele estima que, nas condições atuais, um resultado fiscal superior a 3% do PIB seria necessário para estabilizar a trajetória, além de mudanças na estrutura das despesas e na composição do orçamento.

“O ajuste exigiria controlar despesas obrigatórias, rever mecanismos de indexação e construir um programa fiscal crível capaz de reduzir o prêmio de risco e o custo de financiamento”, afirma.

Juros são peça central para empresas e consumidores

O comportamento dos juros também aparece como um dos principais pontos de atenção para o setor privado. Alberto Friggi, CEO da Friggi & Secco, avalia que uma eventual redução da Selic pode estimular o crédito e a demanda, mas não necessariamente fará com que o custo dos empréstimos caia na mesma proporção.

Isso ocorre porque o risco fiscal influencia as taxas de longo prazo e os spreads cobrados no mercado. Dessa forma, uma trajetória fiscal considerada pouco confiável pode limitar parte dos efeitos positivos de uma política monetária mais flexível.

Para Letícia Moschioni, sócia da Finscale, a diferença entre os 68% de executivos que esperam uma economia mais aquecida e os 48% que projetam crescimento das próprias receitas é um dos dados mais importantes da pesquisa.

“PIB maior não significa automaticamente faturamento maior. Entre uma coisa e outra estão o custo do capital, as margens, a concorrência e a capacidade de cada empresa de transformar crescimento econômico em receita”, afirma.

Na avaliação da especialista, além do controle das despesas públicas, o país precisa avançar em produtividade e formalização para sustentar o crescimento sem depender exclusivamente do aumento da arrecadação.

Mercado de capitais pode ganhar espaço

O cenário também pode abrir oportunidades para instrumentos de financiamento fora do sistema bancário tradicional. Edgar Araújo, CEO da Azumi Investimentos, destaca o papel dos Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs) no direcionamento de recursos para empresas, fornecedores e cadeias produtivas.

Segundo ele, uma eventual aceleração econômica tende a ampliar a demanda por crédito, mas exige maior atenção à qualidade dos recebíveis, à capacidade de pagamento dos devedores, às garantias e à concentração das carteiras.

No segmento de venture capital, Antônio Patrus, diretor da Bossa Invest, avalia que a perspectiva de juros menores pode favorecer empresas de crescimento, melhorar suas avaliações e facilitar novas rodadas de investimento e operações de fusões e aquisições.

Por outro lado, um ambiente fiscal mais arriscado tende a manter os investidores seletivos. Nesse contexto, startups com receitas consistentes, eficiência operacional e menor dependência de novos aportes podem ganhar vantagem.

Cenário internacional também pesa

A economia brasileira não está isolada do ambiente externo. Fábio Murad, consultor da Wiser Asset, chama atenção para a influência dos juros americanos, do dólar e dos fluxos internacionais de capital sobre o cenário doméstico.

Para ele, uma recuperação brasileira pode ganhar força com a redução da Selic, mas sua intensidade dependerá também do comportamento da economia global. Caso o risco fiscal aumente, investidores estrangeiros podem exigir retornos maiores para manter recursos no país, pressionando o câmbio e dificultando novos cortes de juros.

Diante desse cenário, Murad defende uma estratégia de diversificação para os investidores, combinando ativos brasileiros com investimentos internacionais e exposição a moedas fortes.

O desafio para os próximos anos

As avaliações dos especialistas convergem em um ponto: o Brasil pode crescer no curto prazo sem necessariamente resolver seus problemas fiscais. A redução dos juros, a recuperação do consumo e dos investimentos podem favorecer a atividade econômica, mas não eliminam o desafio de equilibrar as contas públicas.

Para afastar a possibilidade de uma dívida superior ao tamanho da economia em 2034, o país precisará combinar controle de despesas permanentes, resultados fiscais consistentes, aumento da produtividade e redução do prêmio de risco.

A diferença entre o otimismo com a economia e a cautela com as receitas empresariais resume, portanto, o momento atual: há expectativa de melhora, mas ela ainda depende de condições que precisam ser construídas nos próximos anos.

 

Foto: Magnific

 

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